A candidatura a Património Imaterial da Humanidade foi agora deliberada. Mas o fado há muito que saiu de Lisboa
Os primeiros acordes falam de um amor perdido. João Carlos cerra os olhos, põe as mãos nos bolsos, só as tira quando as leva ao peito. A sala está a meia-luz, a audiência acompanha com chouriço assado, a 7,5 euros, com cerveja, a 1,50, ou vinho, dez euros o jarro. Há quem feche os olhos.
"A gente lembra-se de quando era mais pequeno e por isso chora com o fado. O fado canta a vida de toda a gente, toda a gente sente", diz Fernando Romão. Tem 82 anos, nado e criado na Travessa da Queimada, ginga com o fado vadio, torce as mãos, limpa as lágrimas, grita "Bravo!". No passado, foi ajudante de camionista, mas agora assenta praça na Tasca do Chico, no Bairro Alto, em Lisboa, com uma máquina fotográfica a registar todos os que por ali passam – profissionais ou amadores. Não perde o fado – mesmo que o faça chorar –, porque o fado lhe canta a vida, de dificuldades e trabalho. A noite ainda vai no início, mas hão-de passar pelo ‘palco’ que não é palco, antes um cantinho improvisado, as mais variadas vidas.
Não recebem cachet – "o fado só é vadio quando não se recebe dinheiro em troca" –, mas "o mais importante é cantar". Passa um técnico reformado do Laboratório Nacional de Engenharia Civil que começou a soltar o fado na guerra colonial; uma fisioterapeuta, um sociólogo, e até um jovem que trocou as rimas do hip hop, só para citar alguns. O senhor Reinado oferece a todos um cartão com o seu telefone. Tem 88 anos.
Do lugar onde cantou, havia de cantar mais tarde, noite alta, Raquel Tavares, uma das jovens fadistas mais aclamadas da actualidade. Aplaude os amadores, toca guitarra portuguesa, na mesma sala onde as paredes têm coladas fotografias suas. "Olha eu ali, com 12 anos" – aponta. Vem sempre que pode. "Venho beber desta inspiração, aqui canta-se o fado sem qualquer pretensão, as pessoas vêm exorcizar as suas vidas."
Numa mesa mais recuada, está Bela, do restaurante de Alfama com o mesmo nome. Veio vibrar com o fado no Bairro Alto, reencontrar amigos e clientes. "Não há rivalidade, damo-nos todos bem." A assistir também está o casal de namorados, estudantes de Direito, Inês e Afonso. Gostam deste fado porque "é cantado por pessoas como as que vemos todos os dias na rua". Pessoas comuns sem aparato.
Na mesa de trás, está um surfista e professor de Educação Físico e ainda um trompetista sueco, Bo Nilsson: "O fado canta uma história triste e, embora eu não perceba as letras, gosto muito." Ao lado, Luisa e Frederich, alemães a morarem em Alzejur há oito anos: "Não entendemos tudo, mas acho que o fado canta a história de Portugal, que no passado eram heróis do mar, e a tristeza de terem deixado de o ser. É isso, não é?" – pergunta Frederich. Fala de amor e saudade, acrescentamos. "Pois, também é triste." É por isso que Eduardo Jorge, de 60 anos, tem de entrar na personagem para cantar os males de amor. "Tenho um casamento feliz, de 42 anos, por isso não canto de experiência."
Venha quem vier à Tasca do Jaime, na Graça, é os pastéis de bacalhau da dona Laura que vai provar (1,20 euros), o vinho do Ribatejo (seis euros o jarro) e um bom fado amador. "Aos fadistas e aos guitarristas eu não pago, aproveito-me deles" – brinca Jaime, o dono da tasca. "Eles é que me pagam a mim, porque têm de consumir. O fadista tem necessidade de cantar; não vive do fado."
A casa é pequena. Numa mesa, está um póster de Ângelo Freire, o guitarrista de Mariza – "ele começou aqui, a tocar na minha guitarra", garante Jaime, orgulhoso do instrumento que o seu filho, de 15 anos, já toca. Pai e filho também cantam o fado. Se é amador, é preciso é ter alma – "e ser castiço". Laura, a matriarca, faz cumprir o silêncio com o baixar das luzes. "Eu tenho que ser agreste, às vezes. Digo um ‘xiu’ para toda a gente se calar. Não dou porrada às pessoas."
Em Alfama, os recantos inspiram palavras e devolvem-nas ao vento com fado. E se for vadio, é nas ruas que se ouve. Cecília Casal Ribeiro, empregada do Flor dos Arcos, diz que só canta por brincadeira, mas ainda à hora de almoço uns turistas brasileiros a desafiaram. "Cantei na esplanada ‘a capella’."
No Esquina de Alfama, misturam-se amadores com profissionais. Eduardo Tereso, 61 anos, já cantou ‘Gaivota doente’ (Vasco Graça Moura), entre três temas. "Não recebo dinheiro. É só pelo prazer de cantar", conta o engenheiro mecânico aposentado. "Não se pense que é fácil ser fadista. Há técnicas que uns copiam e outros estudam."
Tarci de Witte e Miche Foré, um casal belga, regressam todos os anos a Portugal, desde 2004, "especialmente pelo fado" em Alfama. Miche, 55 anos, até já chorou. "Não sei porquê..."
Foi a paixão que levou Mafalda e Paulo, um jovem casal, a visitar este restaurante. Pelo jantar pagaram 51 euros (vinho, dois pratos de carne, um pires de paio, cafés e uma aguardente). Mas foi o fado que os inspirou. Mafalda cantou duas músicas, estreando-se como ‘fadista’. "Sinto paz na alma com o fado." Foi uma surpresa que o marido lhe fez. Paulo explica: "Portugal precisa de uma Amália. E a minha Amália é a minha mulher."
CASAS DE FADO
O Café Luso nasceu em 1927, numa altura em que as casas de fado eram novidade. Antes disso, "sobretudo no século XIX, o fado era escutado em tabernas e outros locais pouco recomendáveis, mas também, no contraponto, em meios aristocráticos. A casa de fado apresentou--se como um sítio decente para os artistas se apresentarem e fazerem carreira" – contextualiza a gerência do Luso – no Bairro Alto desde os anos 40. Por lá se viveram histórias que participaram na História do País e do Mundo. Na altura da II Guerra Mundial, "em virtude da posição neutral de Portugal, Lisboa tornou-se entreposto da espionagem internacional, tanto que entre os boémios do Café Luso não era raro encontrar espiões".
Amália também era presença assídua. Chegou mesmo a gravar um disco ao vivo no Café Luso, em 1955. Nessa década, "ofereceu aos funcionários um concerto. Na altura, nenhuma outra casa de fado igualava o cachet que o Luso lhe pagava, de 1000 escudos por noite".
Mas a diva não foi a única protagonista de histórias que marcaram o passado desta casa. "Na década de 80, o embaixador do México ficou arrebatado ao ouvir Elsa Laboreiro (que ainda hoje faz parte do elenco), e a embaixatriz levantou-se, subiu ao palco, retirou as travessas do cabelo e quis oferecer as jóias à artista". Celeste Rodrigues, que hoje canta no Bacalhau de Molho, também por lá passou. A irmã de Amália começou a cantar em 1945. Lembra-se de quando as casas de fado "eram tertúlias, com famílias inteiras".
Na noite em que Ada de Castro se ia estrear como fadista profissional no Faia, a 13 de Março de 1960, foi impedida de entrar, pelo porteiro, o senhor Raul, no restaurante porque vinha sozinha "e naquela altura uma senhora sozinha não podia entrar numa casa de fados" – conta Pedro Ramos, um dos actuais proprietários do Faia, no Bairro Alto. "Ninguém o tinha avisado, e ficou a Ada de Castro à porta, à espera. O porteiro era um homem previdente. Tinha sempre uma gravatinha para emprestar aos clientes, porque naquela altura para entrar numa casa de fados convinha usar gravata".
Também era o senhor Raul que levava o Carlos do Carmo à escola, ainda rapaz de calções. Porque nessa altura o Faia, que começou por ser Adega da Lucília, em 1947, era da mãe do fadista. Foi lá que Carlos do Carmo deu os primeiros passos na música, "numa brincadeira de fim de noite com os amigos da mãe".
Mariza, quando entrou no Faia pela primeira vez, terá mesmo dito: ‘Ah, este é o Faia de que o Carlos do Carmo tanto fala’" – recorda Pedro. Por lá também passaram Alfredo Marceneiro, Tristão da Silva e Fernando Maurício, entre tantos outros. Para a história recente têm contribuído Camané, Lenita Gentil, Anita Guerreiro, Ana Marta e Ricardo Ribeiro.
Na rua das Gáveas, a Severa, de Júlio Barros Evangelista, compõe a história do fado há 56 anos. Por lá já passaram "todos os presidentes deste país". E não só. Richard Nixon, presidente dos EUA entre 1969 e 1974, em visita a Lisboa, pediu para o levarem aos fados. Aterrou na Severa. Miterrand (ex-presidente de França) foi outra das figuras de Estado que ouviram fados na Severa, que também recebia Amália. A fadista "vinha comer carapauzinhos fritos e favas. Antes de começar a cantar, nos dias em que queria cantar e as pessoas lhe pediam, bebia meia garrafa de champanhe francês" – recorda Júlio.
Também pelo Senhor Vinho, fundado em 1975 por José Luís Gordo, Maria da Fé e António Melo Correia, passaram ao longo dos anos nomes sonantes da canção nacional. Maria Armanda, Maria da Nazaré, Ada de Castro e Machado Soares, no passado; Mariza, Aldina Duarte, Ana Moura, Camané, nos últimos anos. Também guitarristas como José Fontes Rocha (acompanhou Amália), Paquito e Pedro Leal. "Fomos acompanhando a modernidade, mas o fado nunca é velho, é o mesmo de sempre, desde que cantado com sentimento" – diz José Luís Gordo. E em silêncio. Porque há coisas que nunca mudam.
DAS RAÍZES AFRO-BRASILEIRAS AOS SALÕES E ÀS TASCAS
África, Brasil, Lisboa. A discussão sobre as origens do fado não está encerrada, mas Rui Vieira Nery – musicólogo e presidente da comissão científica da candidatura do fado a património imaterial da Unesco – defende que nasceu "de uma dança cantada afro-brasileira chamada fado, que terá chegado a Lisboa no início do século XIX". Diz Nery que "foi em Lisboa que a música foi trabalhada até se chegar ao fado, que prosperou entre as décadas de 1820-30". Quanto à guitarra portuguesa, não foi a primeira escolha.
"A guitarra é uma adaptação da guitarra inglesa, introduzida nos salões da aristocracia. No início, o fado era acompanhado à viola. Nas primeiras gravações, do início do século XX, até pianos se ouvem", conta o musicólogo. Certo é o papel de Amália na renovação lírica: "Até aí, o fado fazia-se sobretudo de poetas populares. É ela quem primeiro canta eruditos como David Mourão Ferreira ou Pedro Homem de Mello."
O OPERÁRIO QUE PARA CANTAR PRECISAVA DE SILÊNCIO E BOA VONTADE
Parecia brusco e rezingão – diz o neto, Vítor Marceneiro – mas era um homem "com graça, que nunca viveu do protagonismo". Alfredo Marceneiro, fadista e compositor (‘Estranha forma de vida’ tem música dele), nascido em 1888, operário na Lisnave, era avesso a cantar em casa.
Por outro lado, fazia grandes jornadas nocturnas pelas casas de fado, para bem dos taxistas que o levavam a casa. "Oferecia sempre sopa, por isso eles corriam para o encontrar." Na mesma noite, ia ao Faia, ao Viela (que foi de Celeste Rodrigues), à Adega Machado, à Tipóia, vestido de fato e lenço ao pescoço.
"Quando chegava e uma casa estava vazia, ia-se embora; uma vez ia cantar para um grupo da NATO no Casino e, como eles só se calaram por imposição da organização, disse: ‘Ficaram em silêncio mas não por livre vontade, por isso vou embora’. Levantou-se e foi" – recorda o neto. "Muito amigo de Amália, às vezes chocavam. Eram dois génios, mas adoravam-se".
MAFALDA ARNAUTH: "É UM CANTO QUE ACELERA A CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA"
No intervalo de um ensaio, Mafalda Arnauth confessa-se numa roda-viva "com tanto trabalho". "Este é um canto diferente, pela força e, ao mesmo tempo, contenção. É um canto que acelera a circulação sanguínea", revela quem acredita ter o "privilégio de viver e de construir uma carreira numa época áurea do fado", porque isso significa também que, "passada a fase das dúvidas, uma nova vaga de fadistas se confirmou".
A fadista faz uma média de 50 concertos por ano, mais de metade em Portugal. Acha difícil cantar o fado sem ter na filiação ADN português: "É preciso uma sensibilidade muito particular..." Ou, como diria o músico Jorge Fernando, que acompanhou à viola e gravou com Amália, é preciso ter "características de carácter que são só nossas". Nem sempre o País entendeu isso mesmo.
Jorge Fernando lembra-se do tempo em que o fado era "desdenhado" e visto como género menor. "O 25 de Abril trouxe coisas boas e algumas más. E a elite pseudo-intelectual que atirou o fado para um patamar baixo foi das más. Foi preciso surgir uma nova geração de jornalistas que soubesse olhá-lo como outra música qualquer", recorda. Dos tempos que trabalhou com Amália, ficou-lhe muito. "Gravou-se dentro de mim sem que eu tivesse dado conta, e fez de mim uma pessoa diferente", confessa.
Não viveu esses tempos Katia Guerreiro – fadista mas também médica. A sua preocupação é o futuro: "No estrangeiro surgirão mais adeptos, mas a minha maior esperança reside em Portugal. Gostaria de ver o fado a ser explicado em escolas, a ser falado com orgulho". Katia acha curiosa a paixão que têm pela nossa música os estrangeiros que decoram letras ou aprendem português para poderem cantar. Mas não é a mesma coisa. "Está-nos no sangue, na forma como vivemos e sentimos".
Talvez tenha sido isso que despertou, aos 15 anos, Fábia Rebordão para o fado: "As luzes apagadas, o timbre das vozes sem microfone, a tragédia na face de quem cantava. Fiquei fascinada". Passou a pertencer--lhe, dando-lhe "verdade".
A tal verdade dos fadistas, de que fala também Pedro Moutinho: "O fado vive das palavras e das histórias que elas contam. A interpretação tem de ser sentida, tem de soar a verdade." Defende que com o falecimento de Amália Rodrigues, as pessoas se aperceberam de que "tinham perdido algo de grande riqueza" e começaram a prestar-lhe mais atenção.
Tinha sete anos quando entoou o seu primeiro fado numa colectividade de Alcântara. O fado, aliás, conhecia bem o caminho para chegar a Pedro Moutinho. Já antes tinha reclamado a voz do seu irmão mais velho, Camané, que muitos apontam como ‘culpado’ pelo despontar de uma época de ouro. Camané recusa o título. "O fado renova-se por si e sempre houve novas gerações. Agora têm é mais visibilidade, até porque os portugueses ainda pensam assim: "Se lá fora gostam, então também temos de gostar."
"Feliz e satisfeito", Ricardo Ribeiro admite orgulho pela própria candidatura, "que foi distinguida por estar muito bem feita", mas dela espera "maior cuidado na salvaguarda deste património" e um "olhar mais cuidadoso sobre o futuro".
Cidália Moreira pertence à geração dos mestres. Logo ela, que veio do Algarve para Lisboa ainda menina de 17 anos para cantar nas casas de fado. E hoje, aos 67, ainda por lá anda. Por isso, Cidália impõe respeito quando diz que "gente a cantar o fado há muita, fadistas há poucos".
"Poucos se podem orgulhar de ter uma cultura com esta raiz, esta força e riqueza. Não podemos descurá-la e temos o dever de a levar mais longe", afirma Carminho, a filha da fadista Teresa Siqueira que, aos 12 anos, ficava sentada na mesa da "Bia" na Taverna no Embuçado.
"Qualquer dia já se fala de fado na escola!", aspira Ana Sofia Varela, enquanto Cuca Roseta acredita que a distinção internacional vai trazer "investigação e empenho na educação e na formação, maior dinamização dos espaços onde se canta o fado e essencialmente a promoção e dignificação do fado e de Portugal por todo o Mundo". Mas é o jovem Marco Rodrigues que aponta as coincidências: "Quem diria que seria o fado, conotado com a tristeza e a melancolia, a elevar o moral dos portugueses, em pleno século XXI, num momento de particular contenção e dificuldades..."
A VIOLA DE ALVIM
Aos 77 anos, Fernando Alvim conta que foi também daqueles que aprenderam "o verdadeiro fado nas casas de fado". Aos 15 anos, via tocar e pedia para tocar. "Uns anos depois, quem mais gostei de acompanhar à viola foi o Carlos Paredes [durante 25 anos]. As variações do Paredes eram improviso atrás de improviso". Passaram todos estes anos e Alvim revolve a pergunta: "Como é que, tocando instrumentos tão importantes como a viola e a guitarra, os guitarristas passam sempre ao lado? Em 50 anos de carreira, dei a primeira entrevista televisiva há um mês." O máximo que Alvim ganhou foram 2500 euros num espectáculo, mas o normal eram 750. "O Carlos Paredes ganhava três vezes mais do que eu."
UM MILHÃO E 800 MIL EUROS EM DISCOS VENDIDOS
Tozé Brito, actual presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, defende que o fado é "talvez o mercado mais dinâmico e valioso" da indústria musical. "O fado representa um terço dos espectáculos realizados internacionalmente, o que é óptimo".
Já no que se refere aos discos, segundo dados da Associação Fonográfica Portuguesa, em 2010 o fado ocupou uma fatia de 20 por cento do total das vendas de discos portugueses. Tendo em conta que o segmento nacional facturou pouco mais de nove milhões de euros, o fado conseguiu render cerca de um milhão e oitocentos mil euros.
Os números do sucesso têm explicação, apesar da crise que a indústria musical atravessa: "O público de fado não faz downloads", garante Tozé Brito. E também gosta de ouvir a sua música na rádio. "A existência de estações que só passam fado é um sinal deste momento de ouro", acrescenta Tozé Brito, referindo--se a estações como a lisboeta Rádio Amália.
UMA FAMÍLIA DE ARISTOCRATAS AO SERVIÇO DO FADO
Se o fado veio das ruas para conquistar o povo, também os palácios se renderam à canção lisboeta. Uma família nobre teve papel crucial nesse processo – os Câmaras, que, geração após geração, têm dado voz ao chamado fado aristocrático. Nuno da Câmara Pereira é um dos mais conhecidos talentos da família: "Tenho pena que muita gente esqueça este lado da história do fado. A minha tetravó, D. Maria Domingas Manoel de Castelo-Branco, casou-se em segundas núpcias com D. Fernando Paula, Conde de Vimioso, o grande responsável pela introdução do fado nos palácios."
Antes de se casar com D. Francisco (que foi amante da famosa Severa), D. Maria enviuvou do 2.º Conde de Belmonte, com quem teve seis filhos de apelido Câmara. Aprenderam o fado em sessões familiares. Seria Maria Teresa Noronha, tia de Nuno, a fazer carreira de fadista. Vicente da Câmara e Nuno da Câmara Pereira (primos) continuaram uma tradição que perdura.
QUANDO OS APLAUSOS DITAVAM O MELHOR FADISTA
Só sabia cantar seis fados. E subiu ao palco do Coliseu de Lisboa para três mil pessoas a ouvirem. Tinha esperado a noite toda. Já nem estava nervosa. Descontraiu quando o apresentador da Grande Noite do Fado disse: "Falta cantar duas pessoas, mas os vencedores já estão escolhidos."
Maria Augusta Costa – toda a vida dedicada aos tapetes de Arraiolos – interpretou ‘Foi Deus’, de Amália. O público levantou-se, aplaudiu com crescente entusiasmo. Gritava: "A senhora venceu!", e, como o público era soberano, foi a vencedora de 1988.
José La Féria organizou a Grande Noite do Fado entre 1996 e 2008 (o último ano), pela Casa da Imprensa. Nos anos anteriores, o público "levava no farnel pastéis de nata e coxas de frango". Até garrafões de vinho. "Era bairrismo, porque os vencedores eram ditados pelo tempo dos aplausos – o recorde foram 5 minutos", diz. "Perdeu-se o espectáculo mais antigo do País" – começou em 1953.
AMÁLIA, NO PALCO E NA VIDA, LEVOU O NOME DE PORTUGAL AO MUNDO
Estrela Carvas foi secretária, amiga e confidente da diva do fado português. Tratava-lhe dos espectáculos, dos cachets, da aparelhagem e das flores. Servia-lhe chá e ajudava-a a com o vestido. Partilhava com ela a casa e a vida.
"Era inteligentíssima como figura social, mas como pessoa era uma criança grande, que acreditava em toda a gente. Eu dizia-lhe: ‘Amália, olhe que você está no pedestal de deusa e ao pé de si toda a gente veste o fato domingueiro, mas às vezes com má intenção’" – recorda Estrela, que acompanhou a fadista durante 35 anos.
Sobre Amália, diz que preferia "beber um chazinho e comer um pão com azeitonas em casa de gente simples do que receber visitas na sala da sua casa, hoje aberta ao público, português e estrangeiro. Muitas noites, em que Amália não tinha sono, Estrela sentava-se aos pés da cama da diva "e falávamos de tudo, não tínhamos segredos, quando chegávamos ao fim tínhamos a alma a nu".
Quanto aos espectáculos – lembra a confidente da fadista –, "a Amália vivia a leste do paraíso. Nunca teve de procurar sítio para cantar, estava sentada no sofá e as coisas apareciam, nunca se ofereceu. Mas gostava muito de subir ao palco e cantar para o público, em casa é que não, nem no banho". Estrela continua a ouvir os fados da diva. "A Amália renova-se a cada vez".
AMOR E LIRISMO NA CANÇÃO DE COIMBRA
As capas negras envolvem os ombros dos fadistas. O som das guitarras prende a alma. A tarde ainda mal caiu e, no centro histórico de Coimbra, na rua do Quebra Costas, ouve-se o fado numa sala bem composta. Nas paredes, as fotografias retratam quem faz a história da canção de Coimbra.
João Farinha, de 35 anos (na voz, licenciado em gestão de empresas), Luís Barroso, 37 (na guitarra, engenheiro de minas), e Luís Carlos Santos, 46 (na viola, bioquímico), entregam-se ao projecto Fado ao Centro. "Quisemos proporcionar às pessoas fado ao vivo durante o dia. Este projecto é recente, mas temos tido muita gente interessada, principalmente estrangeiros", explica João Farinha, um dos responsáveis pelo projecto. "O fado de Coimbra está muito ligado à comunidade académica. Fala essencialmente de amor e é mais lírico do que o de Lisboa", explica.
João Farinha encaminha-se para a parede e olha para a foto do pai. "Sou filho de fadista. Até chegar à faculdade, gostava de rock, pop, heavy metal. Foi na universidade que nasceu esta paixão." Luís Barroso trilhou um caminho semelhante. "Quando cheguei de Lisboa para estudar em Coimbra, trouxe a minha guitarra eléctrica. Acabei por me apaixonar pelo fado".
O guitarrista guarda na memória um momento único: "Toquei com a Amália Rodrigues em Coimbra. Em 1997, ela veio a uma consulta e ficou hospedada num hotel da cidade. Também numa brincadeira, chamaram-me, um bocado à pressa, porque a D. Amália queria cantar fado. Foi um momento único".
ANTIGA CAPELA
Noutra casa, a acústica de uma antiga capela recebe todas as noites a voz de António Ataíde, de 43 anos, na rua Corpo de Deus. "O projecto Quinteto de Coimbra nasceu em 2001 para preencher uma lacuna: faltava um espaço dedicado à divulgação da canção de Coimbra", lembra o fadista, também sócio-gerente do À Capella.
Nas ruas estreitas da Baixa, uma luz denuncia a entrada do Diligência. Num ambiente acolhedor, o fadista deambula pelas mesas. Não é um espaço exclusivo da canção de Coimbra, mas desde 1972 que se compõe com clientes regulares. O ambiente e a música agradam a Sebastian Genovard, Benito Ferrer e Aqustia Duran, três espanhóis de Maiorca. "Este bar é pouco formal, ao contrário de outras casas de fado", sublinha Benito. As guitarras voltam a trinar. Silêncio que se vai cantar o fado.
GUITARRAS NO PORTO OUVEM-SE À TARDE
O fado vadio na Ribeira do Porto acontece à terça-feira. A Adega Rio Douro, ou tasca da Piedade, é o principal local onde os clientes se reúnem e podem dar voz ao que lhes vai na alma. "Entre as 16 e as 19 horas, a nossa casa está aberta a todos os que amam o fado", explica Alice Costa, de 41 anos, filha de Dona Piedade, a proprietária do espaço.
Situada na rua do Ouro, esta não é a única casa com fado vadio na cidade do Porto. Porém, é a mais antiga, a que mais prestígio tem, e está sempre cheia, com muitos clientes fixos. "A nossa tasca já dá fados há mais de 30 anos. Espero que consigamos aqui ficar por mais trinta", conclui Alice Costa.
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