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Correio da Manhã

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Um amor incondicional

Estudos mostram que o vínculo materno com o bebé começa logo na gravidez. Hoje é dia da mãe.
5 de Maio de 2013 às 15:00
mães, dia da Mãe
mães, dia da Mãe

O bebé aprende a conhecer as rotinas da mãe muito antes de a ver pela primeira vez. Aprende a senti-la e a ouvi-la da mesma forma que a mãe interage com o filho que tem dentro de si durante os nove meses da gestação.

"Para a mãe, a primeira ecografia funciona como uma diminuição da ansiedade e aí começa um envolvimento mais profundo. É a confirmação do vínculo: não só por conseguir ver o bebé, mas porque consegue perceber a sua viabilidade, algo em que os seres humanos se distinguem dos animais não racionais, que abandonam as crias que não têm condições para sobreviver", explica a investigadora Bárbara Figueiredo, da Universidade do Minho, que nos últimos anos tem estudado a vinculação materna.

"Para lá da ligação biológica natural, de um ser que cresce e se desenvolve dentro de outro, há uma ligação ‘conceptual’ e afetiva, dado que um bebé é idealizado desde os 18 meses de idade, quando a criança começa a pegar em bonecos e a ‘maternalizá-los’’, considera o pediatra Mário Cordeiro. Sandra Pires sempre quis ser mãe. Quando o Martim nasceu, há 13 meses, realizou um sonho que mesmo as palavras custam a explicar. O primeiro teste de gravidez foi a confirmação da realidade, "mas foi realmente a primeira ecografia que mostrou que era verdade, que a minha vida ia mudar para melhor, que estava prestes a concretizar-se aquilo que sempre quis e sonhei".

Durante os nove meses de gravidez, Sandra "adorava falar com o bebé, fazer festinhas, senti-lo, contar-lhe histórias. Ainda hoje ele reage a músicas que eu cantava quando estava grávida, como se se lembrasse disso", conta a educadora de infância, de 32 anos, residente no Fratel. Martim foi um dos Bebés Vida do Correio da Manhã. Nasceu num Interior desertificado e com pouca esperança no futuro, tal como Tomás, de dois anos e meio, e Leonardo, cinco meses, filhos de Carla Lopes, desempregada, 22 anos.

"Mal os seguramos, sentimos que é nosso, que veio de nós, que nos pertence", confirma Carla, de Penamacor. É química, dizem os especialistas. "Mãe e filho reconhecem-se antes do nascimento. Os bebés, através da chamada ‘comunicação invisível’, que tem origem nas ondas cerebrais, comunicam com a mãe desde muito cedo, e com os pais e irmãos a partir de cerca da 30ª semana. É bom que os pais saibam que o bebé ouve, vê, sente e os conhece – e só confia neles – desde antes de nascer", confirma Mário Cordeiro, também professor auxiliar de Saúde Pública na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Certo é que o vínculo que une a mãe ao seu bebé é uma equação que mistura fatores hormonais, neuronais, psicológicos e sociais.

Amor fundamental

Muitas investigações feitas ao longo dos anos confirmam que o amor materno não só é absolutamente fundamental para um bom funcionamento cerebral do bebé como também para a sua saúde mental futura, enquanto adulto. "É um dos maiores fatores protetores para toda a vida, sabermos que fomos (e somos) amados. A ligação mãe-filho, que deve ser sempre estimulada, é essencial desde antes do nascimento – aliás, não é por acaso que todas as grávidas fazem múltiplas festinhas na barriga, ao longo do dia… ou que o bebé se mexe intensamente quando a mãe come um chocolate ou um pastel de nata", continua o especialista. É preciso não esquecer – diz a investigadora em Psicologia Bárbara Figueiredo – "que a maior parte do conhecimento do mundo é feito através da mãe, os momentos de maior atenção, de maior disponibilidade. A criança é dependente do adulto não só para ser alimentado, aconchegado, mas também para conhecer o mundo, uma vez que nos primeiros meses de vida a sua interação com os objetos é muito diminuta". "Primeiro, o bebé está numa espécie de concha, em que a mãe representa a sua proteção. Depois, sobretudo a partir dos 6-9 meses, vai--se libertando (é um pouco o papel do pai, o de estimular este crescimento), e por volta do ano começa a ganhar autonomia progressiva, oscilando depois entre fases e momentos de crescimento e ousadia, e outras de regressão e ‘bebezice’. É uma altura em que as mães se sentem por vezes mal, ao ver que o "seu bebé" parece estar a abandoná-las, a comer comida "normal", a ir para o infantário, a dormir no seu próprio quarto… mas é ilusão. São apenas símbolos do crescimento, porque, em todas as idades, psicologicamente, a mãe será sempre o porto de abrigo, o refúgio e a segurança", conclui Cordeiro.

Contacto pele a pele

Andreia Santos, enfermeira do bloco de partos do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, fez uma revisão da literatura recente sobre o contacto pele a pele entre a mãe e o bebé logo após o nascimento, e frente aos vários estudos concluiu que este deve iniciar-se imediatamente após o parto, ser contínuo, prolongado e estabelecido entre mães e bebés saudáveis. "Este contacto proporciona benefícios, não só a nível do aleitamento materno mas também a nível fisiológico do recém-nascido", confirma. A isto acresce o facto de contribuir significativamente para o estabelecimento do vínculo entre ambos, como estudou Fernand Lamaze em 2003. Já "os primeiros minutos de vida do recém-nascido foram descritos, por Michel Odent, em 1999, como um "período sensível", curto e crucial, que jamais será repetido. Almeida e Filho referem que este período representa uma forte influência na formação do vínculo mãe-filho, ao qual os etologistas chamam de ‘protótipo de todas as formas de amor’.

"De facto, a própria natureza preparou a mãe e o bebé de forma a necessitarem um do outro desde o momento do nascimento. A ocitocina, além de promover a contração uterina, é responsável pelo aumento da temperatura do corpo e desperta os sentimentos ‘maternais’ assim que a mãe toca, cheira e amamenta o recém-nascido".

Daí que quanto mais contacto pele a pele existir, mais hormona ocitocina é libertada. No momento do parto há um estímulo na produção de ocitocina e prolactina, que provocam um ‘instinto maternal’, ou seja, facilitam a passagem de grávida para puérpera, sendo apelidadas de hormonas do amor. Outras hormonas, tais como a adrenalina e noradrenalina, também presentes no momento do parto, estimulam na mãe o reflexo de Ferguson, que está relacionado com o apego. Desta forma, após o parto, podemos considerar que ambos, mãe e bebé, estão impregnados de hormonas que os deixam biologicamente programados para uma interdependência, estabelecendo-a, assim, muito melhor do que em qualquer outro momento de interação mãe-bebé, concluíram os mesmos autores.

"Ver aquela coisinha pequenina que é só nossa e depende de nós para tudo é maravilhoso. Depois, quando ele começa a mamar e se encosta a nós é uma sensação indescritível", comenta Sandra Pires, mãe de Martim. "É sentir que os podemos proteger de tudo", confirma Carla, mãe de Tomás e Leonardo.

"Os estudos que tenho feito mostraram-me que são muito poucas as grávidas que não sentem nada pelos seus bebés ao longo da gestação. Para a maioria, logo desde os primeiros meses, há mais do que um vínculo: há uma relação que existe mesmo", conclui Bárbara Figueiredo. "Os filhos são a nossa eternidade, o nosso prolongamento. Fazemos tudo por eles", conclui Mário Cordeiro.

Os pais também têm instinto paternal?

"Os homens também têm uma intensa parte maternal, mesmo que alguns não o queiram reconhecer", diz Mário Cordeiro. "Há um investimento cada vez maior do pai nos cuidados com o bebé, na vontade de estar; essa é a grande diferença que tenho notado ao longo dos anos", explica Bárbara Figueiredo. Um estudo publicado em 2001 pela revista científica ‘Mayo Clinic Proceedings’ demonstrou que os futuros pais apresentam maiores níveis de estradiol (um tipo de estrogénio) e menos de testosterona do que os homens que não estão à espera de um filho. A mesma pesquisa evidenciava que os homens cujas companheiras estão grávidas experimentam mudanças hormonais que se ativam ao mesmo tempo que as da mulher grávida e que, em alguns casos extremos, chegam a produzir sintomas físicos como náuseas ou aumento de peso. Outro estudo da Universidad de Newfoundland, no Canadá, demonstrou que os pré- pais sofrem um aumento de prolactina, hormona responsável pela capacidade de amamentar.

 

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