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Um medicamento chamado música

Dizem os especialistas que os sentidos também curam. Assim sendo, a música torna-se uma importante ferramenta terapêutica, um caminho para conseguir o bem-estar do corpo e da alma.

06 de novembro de 2005 às 00:00

Tranquilizante, analgésica, relaxante. É assim a música. O som invade o organismo provocando uma sensação de bem-estar. As notas libertam-se da rigidez da pauta e unem-se em melodias que, para além de aprazíveis à alma, conseguem tratar o corpo. “A música pode ter efeitos positivos quase expontâneos em certas condições, mas pode ser também uma importante ferramenta terapêutica”, confirma Teresa Leite, presidente da Associação Portuguesa de Musicoterapia.

A história deste tratamento em Portugal, onde existem apenas entre 16 a 20 pessoas com formação específica, escreve-se em poucas páginas. Os primeiros trabalhos nesta área foram direccionados a um público específico, os portadores de deficiência, mas rapidamente os seus efeitos positivos foram aproveitados para ajudar outros. “A música torna-se uma forma alternativa de comunicar e já há hospitais psiquiátricos interessados, e centros de idosos que nos solicitam ajuda”, afirma Teresa Leite.

Mas o poder da música não se fica por aqui. Para o corpo castigado pela doença, o ritmo, som e melodia podem, em alguns casos, funcionar como um bálsamo. É o que provam os estudos feitos nesta área. Da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, chega a notícia que os solos de violino podem eliminar dores de cabeça e diminuir as enxaquecas. Em Cambridge, no Massachusets, um dentista realizou centenas de obturações e outras tantas extracções sem recorrer a anestesias. O medicamento que usou foi... a música em forma de terapia. “Doentes do foro oncológico, pessoas internadas nos hospitais com problemáticas graves, para estas, a música ajuda a gerir a ansiedade, a relaxar e torna-se uma forma mais leve de apoio, fazendo com que a pessoa se liberte”, acrescenta Teresa Leite.

Qualquer que seja a idade, os benefícios da música, esses, mantêm-se. “Mesmo para as crianças sem deficiência aparente, a musicoterapia pode ter efeitos muito positivos”, refere Eduarda Carvalho, musicoterapeuta. “Ela é uma boa forma de proporcionar o desenvolvimento dos afectos, da expressão emocional, beneficiando o aumento da auto--estima.”

Sintomas de depressão, hiperactividade, dificuldades na aprendizagem, na gestão dos afectos, estes são apenas alguns dos problemas que a música ajuda a resolver nos mais jovens. Em sessões que privilegiam a produção musical, proporcionando a criação de melodias, a música permite às vítimas de maus tratos, de abusos físicos ou psicológicos, aos autistas, ou simplesmente aos indisciplinados “estar em relação com alguém sem ser passivo”, refere Teresa Leite. “Podem descarregar energias e trabalhar as competências de comportamento de forma mais permissiva e criativa.”

Há muito que o poder da música é conhecido pela Ave Cooperativa de Intervenção Psico-social (ACIP), uma instituição de Joane, Vila Nova de Famalicão. Os resultados obtidos em países como Inglaterra, Espanha ou Estados Unidos levaram a arriscar usar esta forma de terapia desde 1999, quando abriu as suas portas, na área da reabilitação, em crianças com necessidades especiais. Depois dos resultados descritos como “fantásticos” pela directora da ACIP, Teresa Silva Dias, a instituição disponibiliza agora sessões de musicoterapia para recém-nascidos. “O objectivo é estimular a aprendizagem das crianças através da música e sensibilizar os pais para os estados de desenvolvimento”, explica.

São ainda poucas as instituições a seguir o exemplo. Para quem pretende usar o som como terapia, Eduarda Carvalho deixa um alerta. “A música é uma arma perigosa, que pode ser nociva quando não se conseguem controlar os efeitos que provoca.” Como qualquer medicamento, a sua administração deve ter conta, peso e medida. Teresa Leite concorda. “Para quem trabalha na área, não basta saber música. É preciso formação terapêutica ou então é impossível fazer frente aos problemas das pessoas”

UMA TÉCNICA COM MILHARES DE ANOS

O potencial da música para auxiliar na resolução de problemas de ordem física e psicológica é reconhecido há milhares de anos. No entanto, foi no início do século XX que os efeitos terapêuticos da música ganharam maior força nos hospitais, invadidos pelos combatentes das primeira e segunda Grande Guerra. Através das enfermeiras, a terapia pela música tornou-se uma ferramenta importante para o tratamento físico e psicológico dos veteranos de guerra. Na mesma altura nascia a Associação Nacional de Música nos Hospitais, uma ideia da enfermeira Isa Maud Ilsen, que considerava a música como um caminho para aliviar a dor em pacientes com diferentes patologias.

ASCLÉPIO: deus da Medicina, tratava os seus doentes fazendo-os ouvir cânticos considerados mágicos.

HOMERO: escritor grego, dizia que a música alegrava a alma e apaziguava as perturbações do corpo.

DEMÓCRITO: filósofo grego, afirmava que o som da flauta conseguia combater os efeitos da picada das serpentes venenosas.

A música não tem a forma de um xarope ou comprimido. Mas bastam algumas notas combinadas para criar o efeito de um autêntico bálsamo.

ALÍVIO PARA O CORPO

A música pode promover o relaxamento muscular. Ao mesmo tempo, tem a capacidade de aliviar a dor crónica, a ansiedade e a depressão. Consoante o ritmo, facilita ainda a participação em diversas actividades físicas, de acordo com as possibilidades de cada um.

REMÉDIO PARA O ESPÍRITO

O som certo pode ser meio caminho para conseguir expressar verbalmente aquilo que o receio obriga, muitas vezes, a deixar escondido. Situações importantes do passado são recordadas com o auxílio da música, que tem ainda a capacidade de favorecer a fantasia e o sonho.

FONTE DE PRAZER

As diferenças culturais e o isolamento podem aproximar-se com recurso à música, uma ponte capaz de unir o que é diferente e aproximar o que está distante. Ao mesmo tempo, promove a participação em grupo, já para não esquecer uma outra função importante: a de entretenimento.

PARA ALÉM DO RACIONAL

Auxílio na expressão de raiva, medo, dúvidas e questões relacionadas com o significado da vida e o seu fim. É assim a música. Dizem os especialistas que é ainda capaz de facilitar a expressão de sentimentos espirituais, promovendo um conforto que nada tem a ver com o racional.

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