As inovações da IA, que garantem crescimento económico, devem originar políticas públicas de inclusão social.
A biotecnologia, os nanomateriais, a computação quântica, a fusão nuclear, as redes 6G, as indústrias criativas, as cidades inteligentes são alguns dos cenários que podem vir a ser ampliados pela inteligência artificial (IA). Por enquanto, como explica Nuno Torres em 'Economia, Inovação e Inteligência Artificial' (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos), livro escrito em coautoria com Óscar Afonso, ainda é “apenas” um conjunto de tecnologias que permitem aos computadores executar uma variedade de funções muito avançadas.
Sendo a inovação um dos principais motores do crescimento económico – pois as empresas introduzem novos e diferentes bens e serviços, alteram os processos de criação, aumentam a produtividade, criam novos mercados, têm retorno financeiro e elevam o nível de vida –, em Portugal temos reflexos da importância da IA. No nosso país, em setores que vão da agricultura à indústria, apenas com a automação inteligente (impulsionada pela IA), já se estão a reduzir custos, a melhorar a eficiência e a gerar valor.
Um modelo teórico onde os elementos relevantes que interagem são a academia (de onde vem o conhecimento), as empresas (que o transformam em inovação), o governo (que garante desde a regulação às infraestruturas), a sociedade civil (pelo 'feedback' que estabelece com o que é lançado no mercado) e o meio ambiente (a transição climática, além da importância da sustentabilidade, abre oportunidades de novos negócios). Existe uma concentração de empresas (das indústrias já consolidadas às 'startups' emergentes), talento e investimento em tecnologia. Há ainda o objetivo de tornar esta nova realidade acessível às regiões menos desenvolvidas, que, por exemplo, não dispõem dos 'clusters' que se estão a formar em Lisboa e no Porto.
Claro. A IA permite-lhes aceder a bases de dados através de ferramentas de análise como o ChatGPT e, depois, adotarem estratégias mais sofisticadas. Através de certos algoritmos, podem antecipar tendências emergentes e, de seguida, alavancar respostas e acelerar a sua difusão. Uma das possibilidades é personalizarem o que fazem para os respetivos clientes. Logo, enquanto as empresas de maior dimensão, sobretudo as de setores de alta tecnologia, necessitam de capital para aplicar em I&D (Investigação e Desenvolvimento), de modo a apresentarem sempre soluções inovadoras, as PME, com recursos mais limitados, podem modernizar-se de outras formas. Afinal, as tipologias de inovação não são só as tecnológicas – seja em termos de novos produtos ou de melhores processos de criação. Há também a organizacional, podendo esta inovar através de aprendizagens com fornecedores ou colocando em prática ideias de funcionários; e a de 'marketing', em que uma das novidades pode ser a viralização de anúncios no universo digital.
Assim como sucedeu nas anteriores revoluções industriais, certas profissões tornam-se obsoletas e vão desaparecer. Mas, confirmando a perspetiva de “destruição criativa”, do economista Joseph Schumpeter, se alguns negócios acabam, novas áreas surgem. Hoje, ninguém estranha o fim de ofícios como o da datilografia. Pela lógica económica, com o alargamento do mercado, haverá mais oportunidades e, em muitos casos, serão atividades que exigem maiores qualificações, mas são mais bem remuneradas. Noutras situações, vão acabar tarefas repetitivas, libertando pessoas para funções mais criativas. Em contrapartida, a IA não irá afetar alguns trabalhadores manuais, como os canalizadores ou os mecânicos, nem substituir tudo o que está relacionado com a intuição ou a espiritualidade. Afasto, pois, as visões catastrofistas do futuro próximo.
No contexto europeu, se não se observam diferenças das nossas gerações mais jovens ao nível da IA, o mesmo não acontece com a generalidade dos trabalhadores portugueses mais velhos, que necessitam de requalificação digital. A força de trabalho de que o mercado necessitará, nos próximos tempos, exige uma aposta no ensino das Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática (no acrónimo inglês, STEM).
Contudo, essa cultura de aprendizagem deve promover a criatividade disruptiva, a curiosidade e o desenvolvimento de competências sociais e emocionais, bem como um pensamento crítico capaz de detetar erros e de identificar enviesamentos – por exemplo, reconhecer se um algoritmo foi treinado para realizar recrutamento para determinada função ou para proporcionar acesso à saúde de forma discriminatória.
Na gestão de crises nada substitui a hierarquia, a avaliação e a deliberação política. A IA não constitui uma panaceia universal. É possível antecipar riscos – como demonstrava a previsão de ventos fortes fornecida por satélites e fontes meteorológicas – e mitigar danos – recorrendo, por exemplo, a drones para mapear habitações isoladas em contexto de cheias ou a algoritmos para coordenar a alocação de mantimentos e a entrega de ajuda humanitária. Ainda assim, as bases de dados e as ferramentas disponíveis servem apenas de apoio à tomada de decisões. Disso escusamos de ter dúvidas: um primeiro-ministro nunca será um robô.
O ser humano vai ter de saber gerir, simultaneamente, as vantagens e os riscos. E uma das epígrafes que escolhi para um dos capítulos é uma frase de Charles Darwin: “Não é a mais forte das espécies que sobrevive, nem a mais inteligente, mas aquela que melhor se adapta às mudanças.”
Nuno Torres é coordenador do Gabinete de Estudos Económicos Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P) da Faculdade de Economia do Porto, a instituição onde se doutorou na área de Crescimento Económico. Antes de enveredar pela carreira académica, trabalhou como investigador sénior nos gabinetes de estudos da Associação Empresarial de Portugal – AEP (1999-2011; 2013-2023) e da Confederação Empresarial de Portugal – CIP (2011-2013). Lecionou ainda na Universidade Lusíada do Porto. Tem publicado artigos em revistas científicas sobre política económica, finanças públicas, instituições, economia paralela e recursos naturais.
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