Quase duas décadas depois de ter adquirido o Theatro Circo, a Câmara Municipal de Braga reabre, esta semana, ao público uma das mais belas salas de espectáculos de Portugal. Quase duas décadas e, convém sublinhá-lo, quase 25 milhões de euros depois.
No ano do seu centenário, o Theatro Circo prepara-se para ser palco de assinaláveis eventos culturais, com particular vocação para os espectáculos de música e teatro. E para que nada seja feito ao acaso, a autarquia da capital minhota contratou o programador Paulo Brandão, que deu cartas, ao longo de vários anos, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. O objectivo está traçado e, pelo menos até ao final deste ano, cumprido. O objectivo é ter sempre mais de 60 por cento da casa, nos mais diversos espectáculos, e, até 31 de Dezembro, já estão 70 por cento dos bilhetes vendidos.
Mas, para além de emblemática sala de espectáculos, o Theatro Circo é um monumento. A sala grande e o salão nobre não enganam. Tem traça italiana, mas a arte decorativa, com recurso aos dourados, “passa os olhos” pelo barroco, um estilo que, no nosso país, teve a sua capital em Braga, personalizado no grande mestre André Soares.
O Theatro Circo começou a ganhar forma na mente de um grupo de bracarenses por volta de 1906, nada menos que um século antes da “refundação” que agora sofre. Nesse início do século XX, Braga dispunha apenas do pequeno São Geraldo, ao gaveto da Avenida Central com a Rua dos Chãos, único espaço onde se podia ver algum teatro e cinema ou outros espectáculos de variedades.
A sociedade então constituída comprou parte da cerca do Convento dos Remédios e avançou para o concurso da obra, entregue ao arquitecto João de Moura Coutinho de Almeida d’Eça. Desta forma, a edificação começou em 1911 e terminou em 1914, ficando o Theatro Circo com capacidade para 1500 pessoas e afirmando-se de imediato como dos maiores e mais belos teatros portugueses.
A estreia aconteceria a 21 de Abril de 1915, tendo sido convidada para o momento inaugural a companhia do Éden Teatro de Lisboa, que, sob a direcção de José Galhardo, apresentou a peça ‘A Rainha das Rosas’, com Palmira Bastos no papel principal.
Daí até 1999, passaram pelo palco desta sala os maiores nomes do teatro português, como Vasco Santana, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Francisco Ribeirinho, Camilo de Oliveira ou Ivone Silva, e uma dourada plêiade de artistas internacionais, como Juliette Greco ou Serge Reggiani.
O Theatro Circo, não deve esquecer-se, está ainda ligado ao Estado Novo, que o usou para acções de propaganda, como o célebre comício de 28 de Maio de 1958, ano do 32.º aniversário da revolução nacionalista, celebrado com pompa pela União Nacional e presidido por Santos Costa, Ministro da Defesa e responsável directo pelo cerco e opressão policial que impôs à candidatura da Oposição Democrática, então liderada pelo General Humberto Delgado.
No dia 1 de Junho desse ano, a matiné foi interrompida para que os espectadores pudessem ver das portas do átrio e da varanda do Salão Nobre a carga policial que se abatia sobre o povo de Braga adepto do candidato da Oposição Democrática.
Em 1999, o Theatro Circo entrou em profundas obras de restauro e requalificação espacial, na sequência de um protocolo estabelecido entre a Câmara Municipal de Braga e o Ministério da Cultura, no âmbito do Plano Operacional da Cultura.
A intervenção que agora está concluída visou reconverter o Theatro Circo num grande complexo cultural, capacitado técnica e artisticamente para as necessidades da arte contemporânea. Para além da Sala Grande, com lotação para 1014 pessoas, ganhou duas novas salas, uma intermédia com 240 lugares, outra para ensaios.
Aumentou, entretanto, a sua capacidade nas zonas de apoio, com a dotação de 70 camarins, a que acrescentou novas oficinas e armazéns. À tradicional área administrativa, de gestão e de bares, vão ser acrescentadas uma zona museológica, uma pequena livraria de artes e uma unidade de restauração, a par de um ‘café-concerto’.
A requalificação, levada a cabo ao longo de sete anos, devolve aos bracarenses uma sala de uma imponência invulgar e de uma beleza arquitectónica difícil de suplantar por qualquer outra sala portuguesa ou europeia. Para esta grandeza não deixam de contribuir o espectacular Salão Nobre, um palco completamente renovado e equipado com o que de melhor há em tecnologia cénica e sonora.
Foi uma obra minuciosa, que esbarrou em várias complicações, sobretudo ao nível da escavação (altura de cinco andares), em que todo o edifício esteve vários meses assente em pequenas estacas.
A equipa de técnicos coordenou o projecto, liderada pelo arquitecto Sérgio Borges, teve o cuidado de proceder ao restauro de todo o imóvel com total respeito pela sua traça original, ainda que tenha reforçado e consolidado a estrutura e segurança. Aliás, o Salão Nobre, a fazer lembrar as sumptuosas salas de baile de Viena de Áustria, foi libertado das alterações que foi sofrendo ao longo dos tempos.
É já na próxima sexta-feira que os bracarenses vão ver, ao som da Orquestra Sinfónica Nacional Checa, que valeu a pena a espera de sete anos e o investimento de 25 milhões de euros.
VAI GOSTAR SE...é adepto de grandes salas de espectáculos com reconhecida tradição em matéria de bom gosto na programação. E se gosta de preservar os monumentos nacionais.
PROGRAMAÇÃO PARA OUTUBRO E NOVEMBRO
27 e 28 de Outubro (21h30): Abertura oficial com a Orquestra Sinfónica Nacional Checa
31 de Outubro (21h30): Chico César/Quinteto da Paraíba
02 de Novembro (21h30): Monges Tibetanos do Mosteiro de Tashi Lhunpo
03 de Novembro (21h30): Al Di Meola
05 de Novembro (10h00 e 17h00): ’Crianças ao Poder’ – teatro infantil
11 de Novembro (21h30): Patrícia Barber
23 de Novembro (21h30): Pato Fu/Manuela Azevedo
29 de Novemrbo a 2 de Dezembro: ’As mulheres da Minha Vida’ (António Fagundes)
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