Garfos de todo o País, uni-vos! Com o fim da época da caça, dá-se início à da lampreia. Entre Janeiro e Abril, esta iguaria marinha será quem mais ordena nos grandes repastos dos portugueses. A meio caminho entre o prato e o petisco
Nos mares é o terror dos peixes. Nos pratos, um petisco dos deuses. O romancista Afonso Lopes Vieira apelidou-a de “divina”. Eça de Queirós popularizou-a no livro “A Cidade e as Serras”. Estamos a falar da lampreia, um ciclóstomo (híbrido entre serpente e peixe), que de Janeiro a Abril sobe pelos rios de Portugal para desovar. É nesta altura, que nos longos caudais do Lima, Minho, Cávado, Vouga ou Mondego, dezenas de pescadores entram em acção, munidos de redes de emalhar e armadilhas especiais, e centenas de apreciadores se preparam para ver o seu sonho transformado em realidade: ver um prato de lampreia na mesa.
Rezam algumas crónicas que foram os franceses os primeiros a utilizar o dito ciclóstomo na sua gastronomia, no século XV. Ela era apreciada entre as gentes abastadas de Bordéus, que a marinavam em vinho antes a levar para o prato em postas. Terá sido desses tempos remotos que nasceu a “Lampreia à Bordalesa”, hoje uma das receitas mais famosas. Sensivelmente nesse período, a lampreia acabou por ‘mergulhar’ nos pratos das cortes de D. João I, rei que fundou a dinastia de Avis. Desde sempre ligada aos banquetes mais requintados, o animal marinho depressa teve direito a um ditado popular: “A lampreia faz a bolsa feia.” Era caro.
FÃS DE ELITE
O prato foi ganhando um lugar de destaque na gastronomia tradicional portuguesa, embora o seu preço sempre fosse um pouco elevado para algumas bolsas. “O carácter sazonal da sua captura, o seu número cada vez mais reduzido nos rios portugueses, em muito graças à poluição, e até o ritual ímpar de preparação o tenham enobrecido”, explica Mário Varela Soares, autor do livro “A Divina Lampreia”. Mas nos grandes repastos, nos petiscos a que toda a gente tem direito, mesmo os mais pobres, o bicho sempre teve um lugar especial.
Hoje, por esse País fora, pode-se comer lampreia à minhota, à bordalesa, à transmontana, à portuguesa, com molho de sangue ou simplesmente assada, consoante a região onde ela é cozinhada. E há quem faça milhares de quilómetros só para poder comer este petisco. É o caso de António e Maria José da Costa, de 53 e 62 anos, respectivamente. O casal alfacinha há onze anos que viaja propositadamente de Lisboa até Entre--os-Rios, com a família e amigos com uma só missão: comer uma lampreia de arroz. O que os faz correr? “O seu sabor ‘sui generis’”, explicam. Este ano, pensam regressar em Fevereiro.
COMO AMANHAR
Independentemente das receitas, o segredo de uma boa lampreia está na sua confecção. No seu livro, Mário Varela Soares explica o “modus operandi”: “O amanhar da lampreia não é uma tarefa para principiantes. Ela sangra-se suspensa. Retira-se-lhe a tripa e abre-se a cabeça, tira--se o fígado, as ovas e corta-se o rabo. Limpa--se cuidadosamente para retirar a viscosidade que a envolve. Corta-se então às postas (toros) e mergulha-se em vinho. O sangue, elemento imprescindível na maioria das receitas, deve ser recolhido numa tigela de loiça e emulsionado com vinagre e vinho.” Mas não é tão difícil como parece…
Só que a tradição já não é o que era. É opinião unânime entre gastrónomos, cozinheiros e apreciadores que as novas gerações estão a esquecer-se da lampreia e a trocá-la por prosaicos bifes com batatas fritas. Irá o prato inventado pelos irredutíveis gauleses sobreviver à nova era do “fast food”? É caso para dizer, como Afonso Lopes Vieira: “Ó lampreia divina, ó divino arroz/Sem ter ceias assim o que há de ser de nós?/Sofre meu paladar! Chora meu coração!”
B.I. DA LAMPREIA
Alcunhas: chupa-pedras, flauta de sete olhos Espécie: ciclóstomo híbrido (entre peixe e serpente) Ordem: petromizontídeos. Ciclo de vida: espécie migradora (passa os primeiros anos de vida nos rios, depois volta ao mar). Atinge o estado adulto aos quatro anos. Fecundação: entre Janeiro e Abril, entra no rio para desovar. Completa a desova, morrem por exaustão.
Tamanho: pode atingir mais de um metro de comprimento, pesando mais de um quilo. Boca: circular, em ventosa, e armada de fieiras concêntricas de dentes cónicos. Cabeça: oblonga, não se distinguindo do corpo. Pescoço: sete orifícios branquiais de cada lado. Cor: cinzenta acastanhada ou esverdeada, com manchas irregulares e escuras. Regime alimentar: peixes, répteis, vermes, insectos, larvas. Curiosidade: nos rios da América do Norte, onde foi introduzida, é considerada uma praga.
S.O.S. NO MONDEGO
No rio Mondego, as lampreias estão em risco de extinção. Os ciclóstomos, que sobem o rio pela Figueira da Foz, iam habitualmente desovar perto de Coimbra. Com a construção da Ponte-Açude naquela cidade, a viagem das lampreias passou a terminar na barreira artificial. Para que a espécie não desapareça do rio, vários funcionários camarários foram destacados para as apanhar com as suas próprias mãos, atirando-as para o lençol de água e permitindo que elas prossigam a sua rota natural. Sem esta ajuda, centenas de lampreias morreriam ao chegar à lagoa artificial. No entanto, também há quem aproveite a Ponte-Açude para apanhar os animais e vendê-los. Por isso, já foi destacado para o local um contingente policial.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.