O pecado da gula é comer carne. No prato evitam tudo o que um dia tenha mexido, mais por uma questão filosófica do que pelo paladar. Histórias de quem prefere um vegetal a um bom bife.
Sérgio Gonçalves ainda mal tinha despertado naquela manhã de segunda-feira quando foi literalmente obrigado a uma sessão fotográfica. ‘Vou tirar fotos agora? Estou com um aspecto pouco saudável, acho que vou dar má imagem dos vegetarianos’, exclama antes de dar uma ajeitadela na camisa e mostrar os bíceps. “Assim se calhar fica melhor, para dar ideia de força e energia”, brinca, para pouco depois começar a fazer algumas poses para a máquina.
Aos 28 anos, sete dos quais passados sem tocar em carne, o ‘new media manager’ de uma editora discográfica é, como faz questão de catalogar, um vegetariano ‘light’, ou seja, apesar de uma dieta alimentar à base de vegetais, de vez enquando aceita fazer uma ou outra concessão, sempre em nome do bem-estar familiar. “A minha mulher não é vegetariana e como não sou um homem de cozinha – isto parece machismo mas é a mais pura verdade, não tenho o mínimo talento e aquilo nem me é terapêutico –, às vezes abro uma excepção e lá como peixe.”
Tirando esses pequenos momentos de pecado, Sérgio não se lembra de mais alguma vez ter tocado em carne e hoje já nem lhe faz qualquer diferença estar junto de alguém que se delicie com um apetitoso bife do lombo. Contudo, lembra-se de que os primeiros meses foram difíceis. “Era aquilo que a minha avó chama de ‘boca santa’, comia tudo, e ao início passei por alguns momentos de grande tentação. Mas tive de me controlar e posso dizer que não é mais difícil do que tentar deixar de fumar, antes pelo contrário.”
A decisão de alterar o regime alimentar aconteceu devido a uma conjugação de factores, começando desde logo pelos motivos filosóficos associados àquilo que Sérgio Gonçalves considera “um crime”: criar animais alimentados com base em produtos pouco ou nada naturais para depois matá-los apenas para consumo, quando existem outro tipo de alimentos. A ideia da violência aplicada sobre os bichos ter-lhe-á ficado na retina desde a infância. “A minha família tinha uma quinta perto de Santarém onde durante anos assisti à matança de porcos e coelhos e, mesmo antes de ser vegetariano, já considerava aquilo um acto bárbaro, que sempre me impressionou”, conta com ar de sofrimento.
A juntar às aterradoras imagens do passado, as viagens realizadas um pouco por todo o mundo serviram para alargar horizontes e tomar conhecimento de outras realidades. Por isso, Sérgio, que até há alguns anos dava por si sentado à mesa a degustar uma feijoada ou um cozido à portuguesa, não se coibe de afirmar que, apesar dos avanços recentes, Portugal é um país que olha com desconfiança para a alimentação vegetariana: “Nunca pretendi fazer disto uma missão, não tenho ideia de tornar as pessoas vegetarianas, mas existem uma série de tabus que teimam em persistir e que devem ser exclarecidos. E eu nem sou um radical, como derivados de animais, tipo leite ou manteiga. Aliás, detesto margarina”.
O ‘VEGAN’ DE OEIRAS
Mais ortodoxo na escolha dos alimentos, Luís Peixoto segue uma dieta ‘vegan’. Pela sua garganta não descem produtos de origem animal. No entanto, nem sempre assim aconteceu. No final dos anos 70, Luís, hoje com 46 anos, tomou contacto com o vegetarianismo e decidiu que estava ali o que tanto procurava. “Em miúdo já era muito mais atraído pelas sopas e saladas que a minha mãe fazia do que propriamente pela carne, a delícia dos meus irmãos. E acabei por cortar completamente quando um amigo me falou do vegetarianismo. Percebi que aquilo fazia sentido e mudei de forma radical, de um dia para o outro”.
Luís Peixoto não se recentiu de tão brusca mudança, embora compreenda que algumas pessoas tenham de o fazer de forma gradual, e critica apenas aqueles que pensam que a comida vegetariana “é comer alfaces, cebolas e cenouras”. Ter aberto o restaurante Govinda Ji, em Oeiras, serve também como forma de eliminar uma série de preconceitos relativos à questão. Há custa disso, adianta, já conseguiu converter uma série de amigos ao vegetarianismo, mas está ainda longe do que considera óptimo. “O ideal seria termos uma alimentação biológica, com produtos cultivados na região e, imediatamente, consumidos depois de cortados, o que só acontece nalguns casos. Eu até sou muito apologista da alimentação crudívora, na qual os alimentos não são cozinhados”. Numa tentativa de levar a ideia avante, adquiriu mesmo um desidratador, no qual algumas receitas são concebidas com os alimentos crús. “Fazemos coisas espectaculares dessa forma.”
Até chegar a esta alimentação e à hotelaria – um sonho com 20 anos –, Luís Peixoto viveu de forma nómada, deambulando de um lado para o outro e confrontando-se com realidades distintas. Nasceu perto do Porto, esteve em Inglaterra, viajou um pouco por toda a Europa, viveu dez anos na China e dois na Índia. Dessa experiência retira que Portugal tem feito progressos na alimentação vegetariana. “Muito mais do que em Espanha”, exemplifica, dando desde logo a ideia de que aqui mesmo ao lado a dependência da carne e do peixe continua a ser muito maior. Apesar da dieta poder parecer à primeira vista algo estranha, Luís confidencia que é tão ou mais saborosa do que outras, daí optar por fugir ao que está na moda: “Não gosto da comida macrobiótica, procurada por quem deseja aderir ao vegetarianismo, porque acho que os alimentos têm de ter sabor, cores, aromas e esse conjunto é que atrai as pessoas para uma alternativa gastronómica”.
De resto, Luís Peixoto não vai a restaurantes onde se come carne, “porque têm má energia”, e, seguindo a filosofia ‘vegan’, não usa roupas de lã (“só de algodão”) e nem calça sapatos de couro – mandou vir uns pares de Londres, por causa de serem 100 por cento sintéticos. Em jeito de remate, deixa a sua máxima de vida: “O ideal é vivermos uma vida simples com um pensamento elevado”.
A MÉDICA QUE VIVE COM ‘ERVAS’
Suryakala não ouviu as palavras do (agora) cozinheiro mas é bem capaz de aprovar muitas das duas frases. Tem uma história feita de perseverança e ideais culturais que jamais a deixaram ceder à tentação da carne, literalmente. Nasceu em Moçambique, em 1949, e chegou a Portugal há 27 anos, numa altura em que quase não existiam os alimentos necessários à sua dieta, acente na religião hindú, na qual não são aceites quaisquer produtos que impliquem o abate dos animais, incluindo os ovos. “Havia por essa altura muito pouca variedade de produtos essenciais, ir ao mercado representava um autêntico desastre e passei por momentos complicados, mas lá me fui aguentando”.
Mais tarde, a situação melhorou e a médica começou a adquirir alimentos vindos de Londres. Chegavam uma vez por semana, com dia marcado, e eram comprados em casas de particulares, que os importavam, existindo então romarias a esses locais. Só quando a procura aumentou é que começaram a abrir estabelecimentos comerciais, sempre com produtos vindos de Inglaterra. “Ainda desses tempos lembro-me de que as pessoas olhavam com estranheza para quem ‘vivia com ervas’”, uma expressão então utilizada, que Suryakala relembra hoje com carinho e graça, mesmo estando longe de corresponder à verdade. “A minha dieta tem todos os elementos nutritivos existentes na Ocidental, necessitando apenas de ser bem combinada”.
Ser médica ajudou-a sempre a reger-se por uma alimentação saudável, situação que, quando tal não acontece, pode revelar-se desastrosa: “Já passei por uma experiência negativa com um colega com quem estive a trabalhar em África. Ele decidiu entrar numa dieta vegetariana e, ao fim de 15 dias, ficou muito debilitado porque deixar, de um dia para o outro, as proteínas animais não é muito saudável. É possível entrar nesta alimentação mas é preciso ter cuidado”, refere.
Por isso, mesmo como profissional ligada à saúde, Suryakala jamais receitou um regime totalmente vegetariano, preferindo aconselhar a comer verduras da melhor forma.
Nada fundamentalista em relação ao modo como as diferentes culturas devem encarar as diferenças existentes entre elas, a médica de clínica geral, que até tem um filho que “apenas é vegetariano em casa, pois nasceu cá e viveu o Ocidente”, revela ter já várias vezes confeccionado pratos de carne e peixe para os amigos. “Mas nunca os provei e nem me fez impressão cozinhar um bife. E também nunca o fiz da forma Ocidental”.
TIPOS DE VEGETARIANISMO
Nem todos os vegetarianos seguem a mesma alimentação e chegam a existir algumas diferenças importantes entre os vários regimes. Eis como se dividem:
Ovo-lacto vegetariano: é a pessoa que, além dos alimentos de origem vegetal, come ainda lacticínios e ovos.
Lacto-vegetariano: segue um regime alimentar idêntico ao dos ovo-lacto vegetarianos, embora sejam posto de parte os ovos. Tal acontece por uma razão filosófica: a seguir ao ovo haveria o pinto.
Frugívoro: diz-se das pessoas que consomem apenas grãos, nozes e frutas.
Crudívoro: é o indivíduo que consome apenas vegetais e frutos que se encontrem crús (nem mesmo uma simples fervura é realizada). Os adeptos desta dieta vegetariana dizem tratar-se de um regresso à fonte de vida, dado ter-se em conta ter sido esta a primeira alimentação do Homem.
Ovo-vegetariano: diz-se de um indivíduo com uma dieta inversa à dos lacto-vegetarianos; ingere ovos, mas não laticínios.
Vegan: é conhecido como o grupo vegetariano mais radical, até porque a sua filosofia de vida vai muito além da questão alimentar. Não comem animais, nem utilizam nada que seja feito através do aproveitamento de um ser vivo: artigos de vestuário (camisolas de lã, por exemplo), cosméticos ou produtos de limpeza. Existe até um estilo musical, o ‘straight-edge’, conotado com o veganismo, que acenta num ataque voraz à sociedade de consumo e ao estilo de vida Ocidental.
A ORIGEM DO MOVIMENTO
Apesar de existirem registos com quase quatro mil anos, o vegetarianismo tem-se expandido ao mundo Ocidente, sobretudo, desde o século passado. Entre os vegetarianos é habitual a máxima de que o Homem não nasceu omnívoro, tendo-se tornado caçador/comedor de outros animais após milhares de anos de dieta à base de plantas, sementes, ervas e frutas. À parte deste argumento, mas ainda com ligação a ele, a primeira referência bibliográfica ao vegetarianismo aparece no livro do Génesis, no Velho Testamento, sendo por isso atribuída a Moisés (1500 a.c.): “Deus disse: Também vos dou todas as ervas com sementes que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento”.
O matemático, astrónomo e filósofo Pitágoras (582? a.c. - 497? a.c.) é ainda hoje tido enquanto fundador do vegetarianismo moderno.
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