Das onze às onze vendi filmes pornográficos e opinei sobre vibradores. Descobri que só há uma coisa mais plural e democrática do que o sexo: a loja onde o tratam por ‘tu’.
Os óculos deslizam graves pelo nariz de meia-idade. Mais e mais, à medida que as órbitas sorvem as sinopses nas costas dos DVD. Desbravam argumentos e elencos com o critério rigoroso de quem decide entre um Fellini ou um Bertolucci. Estancam, hesitantes. O sobrolho relaxa o franzido. Para um perito em pornografia não deve ser fácil, nem menos penoso, escolher entre a filmografia de Sá Leão ou a série ‘Belladona’. Ou decidir se leva para casa a loura Nicky ou a fogosa Caty. Em caso de dúvida, adia-se a compra e espera-se sensatamente pela renovação do stock. O meu primeiro cliente da manhã na loja Contra Natura, pouco passa das onze, segue o preceito.
Por um dia aterro numa loja de brinquedos para adultos de pára-quedas. Ainda que a ocasião se harmonizasse com uma aterragem de cinto de ligas. Aqui, o único boneco com nome de gente chama-se ‘Jack Hammer’, uma versão ‘Bob o Construtor’ para graúdos - é preciso fôlego para insuflar amizade com ele. Também não há lugar para o ‘Noddy’, ainda que em muitos capítulos se abram alas. E muito mais.
'Às vezes não compram nada. Só desarrumam', rectificam as funcionárias genuínas. Desanimo. A fraca afluência matinal leva-me a crer que o sexo (também) está em crise. Perco-me na estatueta do penissáurio, 'espécie em extinção', e nos posters que forram a casa. Encontro distracção passageira na Shirley de Hollywood. Duvido que tenha estrela no passeio da fama. Mas a escultural modelo em lingerie tem lugar cativo no balcão da loja, a 'mais selecta' do grupo, garantem-me.
Ao meio dia e meia, um casal na casa dos trinta salva a pátria do marasmo. Circulam pela loja como David Attenborough pela vegetação cerrada. A longa cruzada termina numa empolgada discussão. 'Azul ou encarnado?' Em casos de hesitação cromática costumo dar voz à filiação clubística. Um assomo de consciência recorda-me que não estou a escolher isqueiros - do miniconcílio sairá a eleição do melhor vibrador anal. Enorme responsabilidade. Boa samaritana, a jovem em fato-de-treino absolve-me do encargo do conselho. Trocamos um sorriso cúmplice e um silencioso pensamento em uníssono: 'para o que é, tanto faz'. O azul leva vantagem. 'Gosto mais deste. É o meu presente'. Ela decide. Ele paga. Mais o lubrificante 'de água, para não estragar'. Tudo menos estragos. Vá lá, a carteira relaxa. As pilhas são oferta da casa.
Se pensa que numa sex shop o sexo é o único denominador comum, tire daí o sentido. Descanse. Eu pensava o mesmo até lá passar doze horas. Poucos entram de mãos a abanar, embora muitos se despeçam sem deixar um euro na caixa. A fauna, maioritariamente masculina, gosta de passear sacos plásticos pela mão. E bolsinha a tiracolo. O acessório é quase tão popular como a legião de vibradores coloridos para venda. Adicione a variante bem informada: jornal debaixo do braço. Ou a hiperprofissional: de pastinha na mão.
Se quer que lhe explique, faço-lhe um desenho. Sigo o exemplo do cliente mais empenhado: o ‘cibernauta do croquis’. Depois de busca aturada na internet, traz consigo no bolso a reprodução do almejado objecto. Desfralda o papel, orgulhoso dos rabiscos em carvão. Leia-se, a vontade implica esforço. Muito. Tudo para aumentar o dito-cujo. 'Está a ver, a gente enfia as calças e aquilo fica... Sabe que isto é fácil de fazer'. Não duvido dos seus dotes de mecânico, mas nenhum dos esticadores em mostruário corresponde ao pedido. Amável, despede-se, sem sucesso. Primeiro, uma questão de tamanho. Agora, de apetite. O cliente seguinte contenta-se em esticar o desejo. Abençoadas alternativas ao Viagra. Saem dez cápsulas de Libidus. O nome é de fácil ingestão. Como os comprimidos. Não vale a pena impingir-lhe outro estimulante. Este é à confiança do freguês. 'Sei que funciona'. É pagar e andar.
Saem as engenhosas e temerárias veias lusas, entra o desfasamento nórdico. Áureos de braços ao léu, chinelo no pé e vistosas armações Gabbana. Vêem, vêem, vêem. Riem, riem, riem. Comprar, que é bom, nada. Na rua, o frio desafia outros estrangeiros em corpinho bem feito. Não está para brincadeiras. O velhote de barrete encafuado até às orelhas está para conversas. Muitas. Todos os dias. Demora-se até o almoço chamar por ele. Quando a réplica e a paciência das funcionárias emudecem, pede licença para desanuviar a bexiga antes de mimar o estômago. 'Olhe que se esqueceu de alguma coisa...', prevenimo-lo no regresso coxeante do wc. Há uma coisa mais matreira que a idade: o fecho das calças.
Insuspeito sobretudo. Respeitável cabelo grisalho. Pasta de bom couro. O cavalheiro que se segue podia mobilar uma tertúlia literária do Martinho da Arcada. Ao balcão, o tema de conversa não são as letras. É o lubrificante a granel. Está esgotado. Fica para a próxima. Um outro resguarda a visão com óculos tão escuros quanto a noite. Ostenta um intelectual calhamaço e um semblante de pregador. Ou de missionário. Expressão mais oportuna por estas bandas, atendendo ao evangelho das posições sexuais. Diligente, dirige-se ao balcão e troca moedas. Vai pregar para a freguesia das cabinas.
O sistema multishow com mais de 60 canais não tem fita a medir. As dez salas minúsculas funcionam sem parar todo o dia. Um euro na ranhura vale qualquer coisa como quatro minutos na companhia dos títulos mais sugestivos. ‘Sexo, Pés e Tacões’, ‘Orgias na Alta Sociedade’, ‘Mulas Europeias’, ‘Gordas e Terríveis’. Fiquemo-nos pelos mais próprios, a bem dos cardíacos. E lá voam, em média, cinco euros por cabeça. Que fique claro, duas coisas não faltam nesta casa: trocos a rodos e a chave da casa de banho.
O dia de trabalho navega entre gemidos semidistantes e os decibéis comercialóides que a rádio vomita. Uma espécie de clímax. E anticlímax. Que o diga o tipo que se precipita na minha direcção com um dossiê da escola debaixo do braço. No olhar adivinha-se uma angústia que não terá cura. 'O filme 47 está parado...', reclama. Está e assim continuará, que o vídeo deu o berro. Melhores dias virão para o ‘European Phone Dates’, ou ‘Gays à Molhada’, em bom e desbragado português. Ainda no separador da Sétima Arte, perguntam-me se há novidades. Bato em retirada com uma resposta tão estúpida quanto inócua. 'Não os conheço a todos. Mas o que há, está exposto'.
O corrupio junto às cabinas não amaina. Primeiro, o coração assusta-se com o meu cumprimento. 'Boa tarde'. O sobressalto não demora a passar. Um dos ‘avôs’ de boné e sorriso malandro pisca-me o olho. A ‘neta’ não tem tempo para tiques. Ele, feitas as contas, também não. Esgueira-se ligeiro para o compartimento com ecrã. Como dizem as minhas colegas por um dia, 'temos que impor limites'.
Limite é coisa que a disposição da negra mais humorada do dia não tem. É como o corpo. Muito anafada. E não vem sozinha. Só não percebo com quem. Lamento, mas a androginia do pendura não me deixa precisar o género. A minha dúvida contagia-os, quando averiguam os filmes em exposição. 'Isto é um homem ou uma mulher?' Boa pergunta. Só analisando em modo pausa e play para tirar a teima, arrisco. No final da visita, um deles relincha um comentário capaz de ferir os ouvidos mais sensíveis. Dos amigos dos animais ao clube de fãs do ‘Pequeno Pónei’. 'Se querias um filme com cavalos, eu tenho lá em casa!'
Na gíria dos estereótipos entra em cena o casal Timberland. Ou Burberry, ou mesmo Gant. Agora, escolha. Precipitam-se a medo na loja em estreia absoluta. Ele, finge um à-vontade emprestado. Ela, enrubescida de tanto gadget, resiste uns ansiosos minutos antes de dar meia volta. Ele segue-lhe o rasto. Regressa meia hora depois. Solitário. Com tanta fome que o saco se enche de fartura. 150 euros em compras. Entre generosos vibradores e fofas algemas de pelúcia cor-de-rosa. 'Tire-me as etiquetas para ela não ver os preços', suplica, com uma pergunta final. 'Têm filmes que não sejam pornográficos? Assim para o erótico...?' Não, aqui não há pão para meninos.
Mas os meninos também entram. Com o seu semblante de pinga-amor embaraçado, as suas faces rosadas e o seu acne adolescente. 'Fazem embrulhos para oferta?' Resposta afirmativa. As meninas, essas, entram mas dispensam papas na língua, com um desembaraço que envergonha qualquer humilde empregada.
Há sempre alguém que resiste. Que não passa da antecâmara da loja, uma vitrina onde a poesia saída da casca de Bocage se encontra com frascos de fragrâncias afrodisíacas e kits de iniciação a diabruras caseiras. Também há os casais ‘turbo’, ou ‘a todo o gás’. Mergulham na loja de cabeça com a lição mais estudada que um aluno de nota 20. 'Vês, já te tinha falado disto'. E o cliente insatisfeito com o seu anel vibratório a quem se explica, com sobredose de paciência, que não se trocam artigos íntimos. Mais o executivo de imaculado fato e gravata, vindo direitinho de uma conceituada livraria para o universo dos ensaios sobre o deboche e tratados de luxúria. O fulano de barba que tanto cofia o queixo como a secção de disfarces e fantasias, com as suas lycras e rendas em tamanho de fugir à polícia - aos interessados, há uma indumentária de enfermeira acabadinha de chegar. E ainda a figura pública que se refugia no anonimato frente ao ecrã. E o sem-abrigo. Que estoira a esmola num mini-abrigo com tecto e porta.
Perto das onze da noite, esta democrática assembleia de nuances converte-se num parlamento com neons. 'O planeta é uma m...', queixa-se o habitué de lentes garrafais. A indignação pede banho de literatura. Escrutina as capas, fiel ao critério de deliberação. 'Esta moça já conheço'. O cliente tem sempre razão em não repetir caras. Seguindo o cânone corrente: 'dois é bom. Três, é o máximo', um trio em olímpicas acrobacias leva a melhor. 'Não são nenhumas madames, mas são bem jeitosas!'
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