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Triplicaram as recaídas no consumo de heroína nos últimos três anos. As histórias de quem bateu no fundo mas levantou-se.
Pedro passou para o lado de cá há dois anos. Do lado de lá esteve quase dez, o suficiente para conhecer o pior da vida mas principalmente de si mesmo. Pedro começou a consumir drogas numa adolescência precoce, como consequência "da falta de aceitação de si mesmo, de uma insatisfação permanente" que, confessa, sempre sentiu.
"As drogas eram o meu refúgio, encontrei ali a solução para aquilo que eu achava que eram os meus problemas. Fui usando cada vez mais e mais, ao início nas costas da minha família, aproveitei-me do dinheiro que me davam para levar o tipo de vida que queria". A consciência do passado vem hoje com uma lucidez que a recuperação lhe devolveu. Aos 15 anos fez a primeira tentativa - levado pelos pais, que entretanto descobriram a adição - de parar o consumo. Nessa altura já tratava a heroína e a cocaína por tu. "Foi a primeira vez que percebi que não controlava nada e isso fez com que eu fosse ainda mais ao fundo do poço. Simplesmente não conseguia parar de usar".
O número de pessoas que recaíram no consumo de heroína quase triplicou nos últimos três anos (em 2010 regressaram ao consumo 1008 pessoas, em 2012 foram 2881), muito por causa da crise que o País atravessa. O álcool e a cocaína seguiram o mesmo padrão de crescimento, embora menor, confirma o subdiretor geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, Manuel Cardoso. No ano em que os números de recaídas começavam a disparar, Alexandra, 40 anos, saía do quinto tratamento decidida a recuperar a sua vida. Está ‘limpa' desde então. "Mas o maior medo da minha vida é que passe por alguma dor tão forte que não seja capaz de resistir. Porque isto é uma doença de sentimentos. Quem consome tenta aniquilar a dor e camuflar o sofrimento com a droga. Facilmente me ponho no papel de não ter comida para dar à minha filha e imagino o desespero. E o desespero traz ao de cima fragilidades a que os adictos em recuperação muitas vezes não conseguem dar a volta. Neste caso é a crise financeira, mas para nós, qualquer crise, seja emocional ou económica, nos põe em perigo de recair".
Vida dupla
Depois de ter passado pelo centro de atendimento a toxicodependentes, Pedro voltou a levar uma vida dupla. "Saía de casa sem os meus pais saberem, enganava psiquiatras e psicólogos, roubava a minha família, achava que a única solução era deixar-
-me andar. Quando eles descobriram quiseram que voltasse para um centro de tratamento mas fugi de casa, não suportava a ideia de parar de usar drogas. Tentei sustentar o meu uso na rua, da pior maneira possível. Aos 18 anos já tinha uma série de processos em cima de mim: por roubos, por furtos, por posse de droga". Nessa altura teve de escolher entre mais um tratamento e a prisão. Escolheu o primeiro, mas voltou a recair. "Quando voltei, estava lá tudo à minha espera, os mesmos dealers, a mesma droga. Voltei a sair de casa. Nesse período cometi insanidades tremendas, coisas que não me orgulho de ter feito, os danos que causei a mim próprio e a terceiros. A minha namorada da altura prostituía-se para usarmos drogas, é algo de que tenho vergonha. A nossa vida girava à volta de um pacote, fazíamos tudo e mais alguma coisa por um pacote", mais um pacote. "A minha mãe dava catequese e deixou de dar por minha causa, o meu pai tem um negócio e a minha família tinha um bom nome na vila onde vivem (em Aveiro) mas eu consegui destruir isso tudo. E ainda assim estiveram sempre lá para mim, não me abandonaram".
Muitos amigos de Pedro "morreram de overdose, os que não morreram estão presos ou com doenças como o HIV e esquizofrenia". Maria, de 33 anos, teve, antes dos 30, uma tuberculose e uma hepatite C. Comecei por ter problemas com a comida: tive anorexia, bulimia e todo o tipo de comportamentos desviantes aos 13 anos. Aos 17 anos fiz o meu primeiro tratamento, na altura em Inglaterra, e percebi que tinha um problema para a vida". Durante oito anos não tocou em drogas, terminou o 12º, tirou a carta.
Mas "aos 25 anos tive uma relação com uma pessoa que estava recaída e acabei também eu numa espiral autodestrutiva em que fiz tudo aquilo que não tinha feito no início: roubei, prostituí-me, fui posta fora de casa, vivi na rua, fiz tudo aquilo que nunca tinha pensado vir a fazer, perdi toda a dignidade. Antes disso estava bem, tinha entrado para a faculdade, o meu pai tinha-me montado uma loja, tinha tudo para ser feliz e foi tudo por água abaixo". Uma corrente negativa de que não se conseguia libertar. "É um percurso difícil voltar a reconquistar a confiança das pessoas, a nível financeiro perdi tudo. Sem falar no estigma de ser toxicodependente, das portas se fecharem na cara, de os meus pais deixarem de acreditar em mim".
Maria fez 12 tratamentos. "Desmotivava e voltava a consumir. Um dia fui parar à psiquiatria e lembro-me de ninguém me querer ir buscar e de eu sentir que estava a enlouquecer. Implorei para me porem num centro de tratamento e o meu pai disse-me que era a última oportunidade". Não conseguiu ficar até ao fim. "Já não conseguia ser confrontada diariamente com os danos que fazia a mim e aos outros, fui embora". O pai, cansado, fechou-
-lhe a porta. "Disse: vai trabalhar, desenrasca-te, se estás doente pede ajuda aos hospitais". Sem cama nem comida, Maria abandonou a terra onde nasceu. "Não queriam aceitar-
-me nos trabalhos porque eu tinha mau aspeto, estava esquelética, só me apetecia mandar tudo à fava. Mas esta doença é um bocado manhosa, quando começamos a dar as coisas por adquiridas, vem aquele sentimento de que controlamos tudo outra vez". Foi o que voltou a acontecer. A última vez que consumiu foi há dois anos. "Recaí durante quatro dias, no aniversário do meu pai, mas ressaquei sozinha, não disse nada a ninguém. Tive duas overdoses, tive medo de morrer, mas levantei-me. Uma pessoa para conseguir recuperar tem de se fartar. Cada um tem o seu fundo do poço e eu tive o meu".
Os outros é que eram
João demorou algum tempo a ver o seu fundo. Antes disso esvaziou a casa onde morava com os pais - deixou apenas as paredes para contar a história de um calvário. O resto foi tudo vendido para sustentar o vício. Tem 49 anos e fez a semana passada dois anos de recuperação. A primeira vez que tentou pôr uma pedra sobre o consumo já os pais, que o adotaram quando era menino, tinham morrido. É essa a sua maior tristeza, que nunca o tenham visto em recuperação. "Acho que os meus problemas passavam muito pelo falecimento da minha mãe no dia em que eu nasci. A vinda para uma cidade grande trouxe-me algum desconforto, era difícil interagir, por isso comecei a apanhar bebedeiras". Do álcool às drogas foi um passo curto.
"Naquele tempo ‘dourado' eu achava que os outros é que eram os adictos, os outros é que eram os drogados, os toxicodependentes, que nunca ia chegar a esse ponto, que estava protegido pelo estatuto social do meu pai. Achava que os que viviam na rua, que pediam de mão estendida para comprar droga é que tinham problemas".
Demorou muito tempo a perceber que era um deles. A primeira recaída foi a mais dura. "Andei a roubar, a comer em caixotes do lixo, a pedir na rua para sustentar o vício, tentei o suicídio. Um dos segredos da minha recuperação tem sido aceitar-me e perdoar-me. É importante saber o quanto passei mal, o quanto sofri, o quanto fiz mal aos meus. Houve um tempo em que comprei felicidade em pacotes de heroína, hoje estou em paz."
Alexandra também, depois de um longo caminho. Uma violação que lhe marcou o corpo e a alma na adolescência também lhe escreveu, de certa forma, o percurso. "Fiz um tratamento aos 30 anos depois de um percurso com muitas drogas. Vivia para as usar. Os meus pais foram amparando os meus golpes, até dinheiro para passar férias me davam, mas as minhas viagens eram todas feitas na droga, os interails que fiz eram todos intravenosos, não eram a passear".
Do consumo retirava "a adrenalina, o gosto pelo descontrolo, por tudo o que é inacessível". A última vez que entrou em recuperação, há cinco anos, fê-lo para recuperar a guarda da filha, mas percebeu que tinha de fazê-lo também por si. Conseguiu ter a menina consigo.
Maria está a tirar Psicologia. João trabalha em VillaRamadas, um centro de recuperação, onde ajuda outros como ele já foi. Pedro é músico, tem uma casa e um novo amor. Também ele frequenta as reuniões de autoajuda, onde tenta "passar a mensagem, uma forma de perdoar o que aconteceu". Todos acreditam que a droga é um passado que não volta. Mas vivem um dia, só mais um dia, de cada vez.
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