Aos 75 anos, Vitorino comemora 40 de canções com um espetáculo em Lisboa e muitos planos avessos à reforma
Passaram-se 40 anos sobre a edição do primeiro disco, o tal que incluía ‘Menina Estás à Janela’, o tempo que tornou Vitorino num dos artistas mais incrivelmente resistentes da música portuguesa. A celebração vai ser na sexta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa.
Há 40 anos, lançou um disco com uma canção icónica, ‘Menina Estás à Janela’. Será ainda hoje o seu tema mais conhecido?
Porventura sim, o que não é muito bom para um cantor, porque as pessoas depois acabam por não ouvir as outras canções. Eu tento com alguma delicadeza contrariar, não a cantando nos espetáculos!
Mas este êxito tão duradouro era inimaginável, não?
Completamente. Hoje constroem-se os êxitos. Naquela época, eram fenómenos sociais espontâneos. A vida de uma canção é uma coisa perfeitamente descontrolada. Vejam-se as canções dos anos 30, das comédias portuguesas como a ‘Canção de Lisboa’, que ainda hoje estão no nosso imaginário.
O que recorda como o melhor destes 40 anos?
O 25 de Abril, dez anos a cantar e a acompanhar o movimento social, partilhando palcos com pessoas como o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, e muitos outros. Éramos uma legião de gente que ia cantar onde fosse preciso. Muitos ficaram pelo caminho. Outros foram resistindo e suportando a imposição do ‘showbiz’ e da indústria discográfica. Quando a finança percebeu o quanto era lucrativa – chegou a render mais do que o negócio de armas –, abocanhou-a e alterou-a muito, mas vai havendo alguns, como eu, que ainda cá andamos.
Como fez isso?
É uma seleção natural. Tem que se ter visão. Olhar sempre para o futuro e, como dizem os franceses, ‘marcher à côté de ses pompes’. Ou seja, ‘andar ao lado do enterro’. Se na nossa vida mantivermos essa capacidade, conseguimos estruturar-nos.
Depois do frenesim do 25 de Abril, houve a ressaca. Não se sentiu relegado?
Todos os momentos sociais sobem e depois descem. Nos anos 80, surge a divulgação massiva da música anglo- -saxónica na rádio e na televisão, com os seus videoclipes que tinham orçamentos de filmes. Era um poder esmagador que tentei contrariar. Então andei em contraciclo. Editei ‘Romances’. Fui para trás na história, beber na tradição oral portuguesa e peninsular, mas servindo-a com a evolução tecnológica dos estúdios. Foi o que me fez persistir.
Terá sido conotado com o comunismo.Isso prejudicou-o?
Eu não sou do PCP. Não sou de partido nenhum. Temos de ser primeiro humanistas e escolher com o coração. E esse, por acaso, fica no lado esquerdo.
Vem aí uma festa. O que vai acontecer?
Como sou muito preguiçoso, comecei a trabalhar há cerca de um ano, mas o espetáculo no São Luiz só vai ver a luz do dia já à beira dos 41 anos. Celebrei antes, mas entre amigos, sem imprensa. Agora é a comemoração com o público, coisa que a gente nunca sabe se tem… Agora há meios fantásticos de conseguir público, mas eu já não os uso e, portanto, é difícil fazer essa contabilidade.
Refere-se ao digital. Como foi viver essa mudança?
Cresci como cantor noutro tempo histórico, com outros requisitos e exigências. Bem sei que o digital é a nova forma de as pessoas ouvirem e comprarem música, mas é algo que já me ultrapassou. Todos os tempos históricos são importantes, e este é muito. É o paradigma do fim da era industrial e o início da era digital, que vai mudar toda a humanidade, até porque a humanidade muda todos os dias, às vezes para o bem, outras vezes para o mal. Mas esta é a comemoração de um tempo bom. E uma homenagem a um amigo que conheci na juventude, na Faculdade de Belas-Artes, e que me acompanhou sempre, o Manuel João Vieira.
Porquê o Manuel João Vieira?
É aquilo que eu chamo o artista perfeito e descuidado. Descuidado dele, nunca dos amigos. Estou muito ligado à sua família, concretamente ao João Vieira pai, também pintor, aos seus primos, porque tanto os Vieiras como a minha família tiveram várias gerações a passar pelas Belas--Artes. Nos anos 80, entrou nos meus espetáculos no Coliseu a tocar bandolim e cruzámo-nos muitas vezes. Temos outra coisa curiosa em comum: eles são transmontanos, nós alentejanos, e temos essa dualidade de carregar o mundo rural às costas com o cosmopolitismo possível de Lisboa.
Essa ‘ruralidade cosmopolita’ é, aliás, uma das suas características…
Devo ser o alentejano mais lisboeta desta Lisboa. Um homem do campo que se foi sofisticando na cidade, pelo convívio com as pessoas das Belas-Artes, o que me deu outra perspetiva da vida e do Mundo. O sotaque nunca o perco, porque vou muito ao Redondo. E ainda bem. A identidade é a única coisa que ainda nos resta. Tal como a nossa comida, o nosso vinho, o azeite e o pão, dádivas inestimáveis da natureza e que tanta inveja fazem aos povos do Norte.
É tudo inveja?
Sem dúvida. Sobretudo os dirigentes que estão agora na União Europeia, porque têm uma cultura popular desfeita pela Segunda Guerra Mundial que não conseguiram recuperar. Nós temos esta doce ruralidade, que nos dá estas características do descuido e da falta de pragmatismo. Ficamos muito expostos e é por isso que eles nos ofendem.
O plano inicial era ser pintor. Como acabou na música?
Fui ‘caviste’, o tipo que ia lá abaixo buscar os vinhos para repor num típico ‘pronto a comer’ parisiense enquanto estudante de artes. Mas alguém me disse que se ganhava mais a tocar na rua e eu fiz a experiência. Estendi a boina no chão e verifiquei que era verdade. Eram tempos diferentes. Quando ia lá abaixo buscar uma grade de cerveja, fazia rolar as cervejas pelo chão, que escorregavam no sabão até às mãos dos marroquinos que lavavam a loiça. O patrão incentivava essa solidariedade. Agora os empregos militarizaram-se. O mundo capitalista e financeiro mal-humorado barricou-se desde o Maio de 68. Reparou que os homens estavam a ser felizes demais. Mas a panela de pressão há de rebentar por um lado qualquer. Rebenta sempre.
Se tivesse chegado a ser pintor, que pintor seria?
A última coisa que fiz a sério na pintura foi em aguarela, e foi a ilustração de um livro juvenil do António Lobo Antunes, ‘A História do Hidroavião’, porque ele me obrigou. Voltei atrás, voltei a procurar a mão, porque não tenho essa fantástica capacidade do Manuel João Vieira de ser tão bom músico quanto pintor.
Adora trabalhar com outros: Lua Extravagante, Os Fabulosos Tais Quais, Rio Grande. O palco sabe melhor acompanhado?
É a escola do José Afonso. Participávamos todos nos discos uns dos outros. O palco é sempre para dividir.
Fica nervoso no palco?
Nunca. Vou sempre bem acompanhado.
O que fica a fazer nos bastidores enquanto os outros cantam?
Fico a ouvir.
Tem algum hábito que ninguém conhece?
Desfilar no sambódromo do Rio de Janeiro, pela Mangueira, na ala da Zona Sul, que é aquela que eles chamam de ‘ala de gringo’. Tenho ‘carteirinha’ e, sempre que posso e tenho dinheiro, vou até lá no Carnaval.
Há lá muitos ‘gringos’?
Suíços, norte-americanos apaixonados pela ideia de desfilarem. A nossa fantasia custa 100 dólares (cerca de 90 euros), mas subsidia 10 fantasias deles. Isso é muito bom.
Está a pensar no próximo disco?
Estou a fazê-lo. Tenho quatro músicas e deverá sair em fevereiro ou março. Chama- -se ‘Não sei do que é que se trata mas não concordo’.
Uma frase que também tem tudo a ver consigo…
É um personagem meu primo. Existiu realmente. Chamávamos-lhe o ‘Zé embirra’, porque estava sempre contra tudo, de tal maneira que entrou numa assembleia do Redondense Futebol Clube, pediu a palavra e disse: "Não sei do que é que se trata mas não concordo."
Todos temos um primo desses, então.
É a desconfiança cultural enraizada do povo português, que está sintetizada nesta frase fabulosa. Estamos num tempo histórico em que ela se adapta completamente.
E o futuro?
Um disco com canções infantis, tradicionais, com o Samuel Úria e a Ana Bacalhau. Para o ano. Tenho sempre discos por fazer. A reforma é que não.
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