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Vitorino: “Tenho sempre discos por fazer”

Aos 75 anos, Vitorino comemora 40 de canções com um espetáculo em Lisboa e muitos planos avessos à reforma

13 de novembro de 2016 às 11:47

Passaram-se     40 anos     sobre     a edição     do     primeiro     disco,     o tal     que     incluía ‘Menina     Estás     à     Janela’,     o tempo     que     tornou     Vitorino num dos artistas mais incrivelmente resistentes da música     portuguesa.     A     celebração vai ser na sexta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Há 40 anos, lançou um disco com uma canção icónica, ‘Menina Estás à Janela’.     Será     ainda     hoje     o seu tema mais conhecido?

Porventura sim, o que não é muito bom para um cantor, porque     as     pessoas     depois acabam por não ouvir as outras     canções.     Eu     tento     com alguma     delicadeza     contrariar, não a cantando nos espetáculos!

Mas este êxito tão duradouro era inimaginável, não?

Completamente. Hoje constroem-se os êxitos. Naquela época, eram fenómenos sociais espontâneos. A vida de uma canção é uma coisa perfeitamente     descontrolada. Vejam-se     as     canções     dos anos 30, das comédias portuguesas     como     a     ‘Canção     de Lisboa’, que ainda hoje estão no nosso imaginário.

O que recorda como o melhor destes 40 anos?

O 25 de Abril, dez anos a cantar e a acompanhar o movimento   social,     partilhando palcos com pessoas como o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, e muitos outros.     Éramos     uma     legião     de gente que ia cantar onde fosse preciso. Muitos ficaram pelo caminho.     Outros     foram     resistindo e suportando a imposição do ‘showbiz’ e da indústria discográfica. Quando a finança percebeu o quanto era lucrativa – chegou a render mais do que o negócio de armas –, abocanhou-a e alterou-a     muito,     mas     vai     havendo alguns, como eu, que ainda cá andamos.

Como fez isso?

É uma seleção natural. Tem que se ter visão. Olhar sempre para o futuro e, como dizem os franceses, ‘marcher à côté de ses pompes’. Ou seja, ‘andar ao lado do enterro’. Se na nossa vida mantivermos essa     capacidade,     conseguimos estruturar-nos.

Depois do frenesim do 25 de Abril, houve a ressaca. Não se sentiu relegado?

Todos os momentos sociais sobem e depois descem. Nos anos 80, surge a divulgação massiva     da     música     anglo- -saxónica na rádio e na televisão, com os seus videoclipes que tinham orçamentos de filmes. Era um poder esmagador que tentei contrariar. Então andei em contraciclo. Editei ‘Romances’. Fui para trás na história, beber na tradição oral portuguesa e peninsular, mas servindo-a com a evolução tecnológica dos     estúdios.     Foi     o     que     me fez persistir.

Terá sido conotado com o comunismo.Isso prejudicou-o?

Eu não sou do PCP. Não sou de partido nenhum. Temos de ser primeiro humanistas e escolher com o coração. E esse, por acaso, fica no lado esquerdo.

Vem aí uma festa. O que vai acontecer?

Como sou muito preguiçoso,     comecei     a     trabalhar     há cerca de um ano, mas o espetáculo no São Luiz só vai ver a luz do dia já à beira dos 41 anos. Celebrei antes, mas entre amigos, sem imprensa. Agora é a comemoração com o público, coisa que a gente nunca sabe se tem… Agora há meios fantásticos de conseguir público, mas eu já não os uso e, portanto, é difícil fazer essa contabilidade.

Refere-se ao digital. Como foi viver essa mudança?

Cresci     como     cantor     noutro tempo histórico, com outros requisitos e exigências. Bem sei que o digital é a nova forma de as pessoas ouvirem e comprarem     música,     mas     é algo que já me ultrapassou. Todos     os     tempos     históricos são     importantes,     e     este     é muito. É o paradigma do fim da era industrial e o início da era     digital,     que     vai     mudar toda a humanidade, até porque a humanidade muda todos     os     dias,     às     vezes     para     o bem, outras vezes para o mal. Mas esta é a comemoração de um tempo bom. E uma homenagem     a     um     amigo     que conheci na juventude, na Faculdade de Belas-Artes, e que me     acompanhou     sempre,     o Manuel João Vieira.

Porquê o Manuel João Vieira?

É aquilo que eu chamo o artista     perfeito     e     descuidado. Descuidado dele, nunca dos amigos. Estou muito ligado à sua     família,     concretamente ao     João     Vieira     pai,     também pintor, aos seus primos, porque tanto os Vieiras como a minha família tiveram várias gerações a passar pelas Belas--Artes. Nos anos 80, entrou nos meus espetáculos no Coliseu a tocar bandolim e cruzámo-nos muitas vezes. Temos     outra     coisa     curiosa     em comum: eles são transmontanos, nós alentejanos, e temos essa dualidade de carregar o mundo rural às costas com o cosmopolitismo possível de Lisboa.

Essa     ‘ruralidade     cosmopolita’     é,     aliás,     uma     das suas características…

Devo     ser     o     alentejano     mais lisboeta     desta     Lisboa.     Um homem do campo que se foi sofisticando na cidade, pelo convívio com as pessoas das Belas-Artes,     o     que     me     deu outra perspetiva da vida e do Mundo. O sotaque nunca o perco, porque vou muito ao Redondo.     E     ainda     bem.     A identidade     é     a     única    coisa que ainda nos resta. Tal como a nossa comida, o nosso vinho, o azeite e o pão, dádivas inestimáveis     da     natureza     e que tanta inveja fazem aos povos do Norte.

É tudo inveja?

Sem     dúvida.     Sobretudo     os dirigentes que estão agora na União Europeia, porque têm uma cultura popular desfeita pela     Segunda     Guerra     Mundial que não conseguiram recuperar. Nós temos esta doce ruralidade, que nos dá estas características do descuido e da falta de pragmatismo. Ficamos muito expostos e é por isso que eles nos ofendem.

O plano inicial era ser pintor. Como acabou na música?

Fui ‘caviste’, o tipo que ia lá abaixo buscar os vinhos para repor     num     típico     ‘pronto     a comer’ parisiense enquanto estudante de artes. Mas alguém me disse que se ganhava mais a tocar na rua e eu fiz a experiência. Estendi a boina no chão e verifiquei que era     verdade.     Eram     tempos diferentes.     Quando     ia     lá abaixo buscar uma grade de cerveja, fazia rolar as cervejas pelo chão, que escorregavam no     sabão     até     às     mãos     dos marroquinos que lavavam a loiça.     O     patrão     incentivava essa solidariedade. Agora os empregos militarizaram-se. O mundo capitalista e financeiro mal-humorado barricou-se desde o Maio de 68. Reparou que os homens estavam     a     ser     felizes     demais. Mas a panela de pressão há de     rebentar     por     um     lado qualquer. Rebenta sempre.

Se tivesse chegado a ser pintor, que pintor seria?

A última coisa que fiz a sério na pintura foi em aguarela, e foi a ilustração de um livro juvenil do António Lobo Antunes,     ‘A     História     do     Hidroavião’,     porque     ele     me obrigou. Voltei atrás, voltei a procurar a mão, porque não tenho essa fantástica capacidade do Manuel João Vieira     de     ser     tão     bom     músico quanto pintor.

Adora     trabalhar     com     outros: Lua Extravagante, Os Fabulosos Tais Quais, Rio Grande. O palco sabe melhor acompanhado?

É    a     escola     do     José     Afonso. Participávamos     todos     nos discos uns dos outros. O palco é sempre para dividir.

Fica nervoso no palco?

Nunca. Vou sempre bem acompanhado.

O que fica a fazer nos bastidores enquanto os outros cantam?

Fico a ouvir.

Tem algum hábito que ninguém conhece?

Desfilar no sambódromo do Rio de Janeiro, pela Mangueira, na ala da Zona Sul, que     é     aquela     que     eles     chamam de ‘ala de gringo’. Tenho ‘carteirinha’ e, sempre que posso e tenho dinheiro, vou até lá no Carnaval.

Há lá muitos ‘gringos’?

Suíços,     norte-americanos apaixonados     pela     ideia     de desfilarem. A nossa fantasia custa 100 dólares (cerca de 90 euros), mas subsidia 10 fantasias deles. Isso é muito bom.

Está a pensar no próximo disco?

Estou a fazê-lo. Tenho quatro músicas e deverá sair em fevereiro ou março. Chama- -se ‘Não sei do que é que se trata mas não concordo’.

Uma frase que também tem tudo a ver consigo…

É um personagem meu primo. Existiu realmente. Chamávamos-lhe o ‘Zé embirra’, porque estava sempre contra tudo, de tal maneira que entrou     numa     assembleia     do Redondense Futebol Clube, pediu a palavra e disse: "Não sei do que é que se trata mas não concordo."

Todos temos um primo desses, então.

É a desconfiança cultural enraizada do povo português, que     está     sintetizada     nesta frase fabulosa. Estamos num tempo histórico em que ela se adapta completamente.

E o futuro?

Um     disco     com     canções     infantis,     tradicionais,     com     o Samuel     Úria     e     a     Ana     Bacalhau. Para o ano. Tenho sempre discos por fazer. A reforma é que não.

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