Foi aluno querido da professora primária. Muitos dizem ser ele o mais à esquerda no governo de António Costa
Tem uma vespa. Quatro contas no Barclays. Expressa-se com as duas mãos, com os olhos, aliás todo o seu corpo fala. Afiança-se que dá abraços fortes, que é de explosões possantes e de opiniões vincadas. Ouve Zeca Afonso, jazz, world music. Ouve também aqueles que o procuram. Pragmático, apaixonado, idealista, mas não é um sonhador. Os cargos que ocupa não lhe fanaram a simplicidade. Cumprimenta todos, e todos quer dizer que ninguém fica de fora – da empregada da limpeza à camarada que está sentada na oposta margem política do hemiciclo. Meticuloso, emotivo, multifacetado. É verdade que nos dá a ideia ser uma criatura sisuda, mas é alarme falso.
Leva a reputação de namoradeiro. É, ou foi, um coleccionador requintado de romances longos, curtos e de esporádico prazo. Acostumado à bicicleta inglesa, irritou-se com o trânsito lisboeta causado pela chuva. Impaciente e controlador, evita canais de onde chegam críticas. Apresentou-se cabeça de lista do PS por Viana do Castelo na qualidade de independente, e o previsível teria sido que abraçasse uma facção mais canhota. Este percalço calhou como uma luva para o governo de coligação. Não havendo um bloquista ou um comunista no séquito governamental, Tiago Brandão Rodrigues veio equilibrar a lacuna, pelo menos é assim que é visto por algumas pessoas que com ele colaboraram: "É um radical. Está muitíssimo mais à esquerda do que o Partido Socialista."
A sua independência partidária teve melhores dias, dizem. Não dá um passo sem comunicar com a comissão política do Largo do Rato. Trabalha até tarde, não faz cerimónias com as horas e, se for preciso, telefona aos seus subordinados de madrugada para dar directrizes ou pedir satisfações. João Wengorovius Meneses já não lhe atende as chamadas. O ex-secretário de Estado da Juventude e Desporto demitiu-se do cargo em "profundo desacordo com o Sr. Ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos". Parecia um golpe de karaté na medula do governo. Mas dessa arte marcial percebe Tiago Brandão Rodrigues, que a praticou largos anos. O espírito de equipa, elementar na investigação, aprendeu do andebol.
O cientista responsável pela pasta da Educação não é, garante o advogado André Miranda, um "rato de laboratório". Quando soube que o amigo de infância, da praia de Moledo, decidira trocar o posto no Cancer Research UK – onde se dedicava a estudar técnicas de detecção precoce do cancro – pela Assembleia da República, a admiração que lhe provocou a novidade durou pouco: "Fiquei surpreso, mas depressa entendi a razão. Para o Tiago, que conhece muito bem o seu distrito e a gente, tratava-se de um desafio."
O ABSTÉMIO
A licenciatura em Bioquímica cumpriu-se na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. O Erasmus, feito em Madrid. Nos anos imediatos realizou investigação científica da Universidade de Dallas e no Instituto de Investigações Biomédicas do Conselho Superior de Investigações Científicas, em Madrid, labor que encaminhou ao seu Doutoramento em Bioquímica, especialidade de Biofísica Molecular, pela Universidade de Coimbra.
Há mil coincidências maravilhosas, mas a seguinte ultrapassa imensas: o ministro da Educação é abstémio. Enquanto fazia o doutoramento na cidade dos doutores, residiu na República do Bota–Abaixo. E o apelido do amigo dessa intensa época é Cardina, de seu nome próprio Miguel, Doutor em História e dirigente do Bloco de Esquerda. As memórias do raiar do ano 2000 seguem vivas: "A recordação que tenho do Tiago é de um bem-disposto! Afectuoso. Um homem que constrói amizades. Alguém capaz de motivar uma equipa e com características de líder."
Dinâmico nas actividades da República, o primeiro a acordar e o último a ir para a cama, as suas intervenções académicas que detonavam política são lembradas de eloquentes. Voz tida vigorosa em pensamento marxista, talvez nessa altura, assegura fonte, estivesse próximo da Juventude Comunista. Mas há outra pessoa próxima de Tiago Brandão Rodrigues, durante o período de aluno em Coimbra, que destapa uma dimensão que se distancia da foice e do martelo: a sua proximidade ao CUMN – Centro Universitário Manuel da Nóbrega, centro de actividades e grupos que os jesuítas têm em Coimbra.
Não obstante a vida na Academia, Tiago Brandão Rodrigues envolveu-se com generosidade no espírito do CUMN, estudando lá, participando e organizando eventos. Recordado como jovial e aberto, amigo do seu amigo, foram incontáveis as noitadas, ou mesmo directas, dedicadas a temas que se estendiam entre o entusiasmo académico e a questão de Deus e da fé.
Os responsáveis dos Jesuítas em Portugal não devem estar felizes com a actuação do ministro. "Magoados" é a palavra escolhida por uma fonte que prefere anonimato. Mas os motivos para a desilusão, afinal, podem ser lidos no comunicado emitido em 2 de Maio: os colégios da ordem religiosa que usufruem contrato de associação com o Estado estão em "risco" face à nova legislação sobre matrículas e frequência das escolas. O despacho normativo 1H/2016 de 14 de abril, do Ministério da Educação, "veio agravar a já difícil situação em que se encontram muitos colégios privados em Portugal". Em causa acham-se os contratos que o Estado formaliza com escolas privadas para patrocinar a frequência destas escolas por alunos de famílias carenciadas (contrato simples) ou para consentir a frequência dos colégios em condições de gratuitidade, como oferta educativa pública igualada à das escolas estatais (contrato de associação), onde a rede pública é insuficiente. Segundo comunicado oficial, a decisão governamental coloca em causa "a liberdade de escolha das famílias", fazendo com que alguns projectos educativos fiquem "exclusivamente ao alcance de famílias com maiores posses económicas".
Se não foi Deus que o salvou terá sido o ‘master franchising’ que gere a vida; o ministro sobreviveu a um tufão, em Cuba; nos atentados do 11 de Setembro encontrava-se em Dallas; nas explosões da Al Qaeda, em Madrid, residia pertíssimo da estação de Atocha. Chegou a ser vítima de um rapto em Campinas, Brasil. Nem um arranhão, felizmente.
Menino querido da terra, mimado ainda pela sua professora da escola primária de Paredes de Coura, Gracinda Sousa Viana: "Muito inteligente, trabalhador e persistente, sempre com o desejo de ir mais além. O Tiago é daqueles alunos que um professor jamais esquece." Um bouquet de adjetivos para o ex-discípulo, que lhe daria o orgulho maior, no dia 8 de Dezembro de 2013, com um artigo científico na Nature Medicine. No trabalho, Tiago, investigador da Universidade de Cambridge (2010-2015), descreve uma técnica de ressonância magnética que amplifica a sensibilidade do equipamento convencional mais de dez mil vezes, o que consentirá supervisionar de perto a eficácia dos tratamentos de cancro.
Dois anos depois, a 8 de Dezembro, acabava com o exame do 6º ano e com o de Inglês Cambridge, gerando provas de aferição nos 2º, 5º e 8º anos (o exame da 4º ano já havia sido cancelado pelo Parlamento). "O modelo anterior, dos exames, não estava só errado, era acima de tudo nocivo" e quem fala assim não é gago. Os minhotos detêm a fama e o proveito de não adiarem aquilo que querem dizer. Nasceu em Braga em 3 de Junho de 1977, cresceu em Paredes de Coura, o seu património afectivo é Caminha, é irmão de João Brandão Rodrigues, veterinário especialista em burros. O cientista que comanda uma pasta ministerial de carga pesada, alivia o stress no restaurante Os Courenses, na zona de Alvalade, célebre pela comida em doses generosas. O empregado não esqueceu as escolhas do ministro nem o facto da bebida que acompanha os pratos é, e será, invariável: H2O.
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