Em Fevereiro, soube-se que ia ganhar um bónus de um milhão pelo desempenho à frente do Lloyds bank e em agosto do “dano reputacional”, que é o que se diz de um banqueiro casado que é apanhado com uma loira longe de casa. Apesar do escândalo na imprensa inglesa, o ‘mourinho’ da banca, 52 anos, que é um colecionador de tabuleiros de xadrez, não viu a carreira nem o casamento beliscados
Não foi ministro das Finanças porque não quis. No governo de Pedro Passos Coelho, afiança garganta social-democrata, houve uma tentativa. Disse ‘não’ em letra maiúscula. Ainda assim, deu- -lhes uma mãozinha aquando da necessidade de arranjar um nome – Eduardo Stock da Cunha – que pudesse servir a presidência do Novo Banco. Os compadres das operações financeiras, apesar de preferirem manter o anonimato, não escondem a maneira de adjectivar o amigo que o ‘The Sun’ quis enterrar por lhe terem encontrado amizade colorida.
António Horta Osório é um hábil edificador de equipas. Audacioso. Escrupuloso. Inovador. Perfeccionista. Para ele, criatura que chega atrasada desconhece a palavra respeito. O homem que nasceu em 28 de Janeiro de 1964 nunca se atrasa. É alérgico a conversas inúteis. A sua paciência tem limites curtos. Desculpas sem nexo e incompetências não merecem piedade. Alguém que o conhece bem não oferta a cara, dá o que pode: diz que ele é competente e respeitado. Obsessivo no trabalho e um gentleman nas relações sociais mas um ser humano, como todos os seres humanos, com imperfeições.
Em Junho, longe de casa e do coração em terras de sua majestade, na longínqua Singapura foi fotografado num passeio mano a mano com Wendy Piatt, 45 anos, antiga conselheira de Tony Blair. O ‘The Sun’ chamou a Wendy "lover". O tablóide inglês, para além de apontar uma relação extra-matrimonial, questionava quem teria pago as refeições em restaurantes de luxo, a exorbitância em room services e uns trocos em massagens no spa do Mandarin Oriental: o português Horta Osório ou o inglês Lloyds Bank.
Pouco tardou para que Norman Blackwell, presidente do Lloyds, colocasse as mãos no fogo e assegurasse que Horta Osório desembolsara da sua algibeira as despesas e deixou claro que o lugar do ‘Mourinho’ da banca continuava intocável. Um engenheiro português a viver em Londres desconfia da veracidade da história que engloba saias: "Os ingleses não gostam que seja um estrangeiro a liderar um banco. E há mais…." Há. A extinção de três mil postos de trabalho, que fora anunciada pelo CEO do Lloyds. "Isto corrobora, de certa maneira, uma teoria de conspiração contra Horta Osório."
Tubarões
Não é brincadeira. O português, que adora sushi, faz mergulho cercado de tubarões. Duas vezes por ano. Nas Ilhas Galápagos, nas Maldivas, onde o mar for quente. É o seu ioga se tomarmos em consideração a descida do ritmo cardíaco que dá ao mergulhador a sensação do transe.
Mas à superfície, em 2011, sucedeu-lhe o mesmo que a Margaret Thatcher e a Napoleão: olhos incapazes de fazerem vontade ao sono. Uma depressão devido à exaustão provocada por insónias bateu-lhe à porta. Tratado no Priory Hospital North London, uma unidade privada especializada no tratamento de problemas de saúde mental, dormiu oito dias seguidos. Após dois meses de tratamento, lançou um repto ao editor do Financial Times, Patrick Jenkins, para uma partida de ténis. Ambidestro, esse era o seu fuzil oculto. O jornalista ficou de boca escancarada e só a fechou depois de ter dito: "Foi uma perfeita exibição de todas as qualidades que se podem desejar num gestor de banca – destreza, aversão ao risco e determinação para vencer".
Na banca, tal como lhe acontece no ténis, vai atrás das bolas todas. João Lagos, que durante 25 anos organizou o Estoril Open, garante que Horta Osório não brinca em serviço: "Faz aquecimento, estiramento, faz tudo como se fosse o profissional". Tem uma particularidade: "Não gosta de perder". E quando acontece, apressa-se para obter uma desforra.
A amizade entre Lagos e o presidente executivo do Lloyds Banking Group remonta ao pai de Horta Osório, António Lino de Sousa Horta Osório, um dos maiores jogadores de Ténis de Mesa do Sporting Clube de Portugal. Ao clube de Alvalade similarmente se junta o seu avó materno, Carlos Cecílio Nunes Góis Mota, presidente de 1953 a 1957, e que estava, e muito, conexo ao Estado Novo. O mau perder do senhor da confiança de Salazar difere do neto. Imagine-se, uma tarde de 1956, no Campo da Tapadinha, num Atlético-Sporting, o avô de Horta Osório invadiu o balneário de pistola por não concordar com o resultado ao intervalo. Lagos não é forreta ao descrever o amigo: "É uma pessoa impecável. Rigoroso. Um vencedor". Vence, e tantas vezes, no clube londrino Queen’s, nas quatro horas em que lá vai semanalmente. A sua faceta competitiva também se mostra pela sua predilecção por jogos de estratégia, como o xadrez, e desportos ditos binários, como o ténis, onde os empates não existem.
As frases que utiliza "a sorte dá muito trabalho" e "não é a treinar que se batem recordes" intentam evidenciar que o difícil é construído a competir.
Na faculdade, o espírito da competição já se mostrava. Um antigo professor sumariza: "Era muito competitivo, muito focado. E até, julgo eu, disputava com um outro aluno, Tudela Martins". Ambos, ao que se sabe, acabaram o curso com a mesma média. Horta Osório sentava-se sempre nas primeiras filas, e não precisava de estudar, a atenção que dispensava nas aulas chegava para ter estado no topo do seu curso de Gestão e Administração de Empresas, na Universidade Católica, em 1987, e antes de receber o diploma ingressa nos quadros do Citybank em Portugal.
Em Dezembro desse ano casa-se em Montelavar, em Sintra, com a farmacêutica Ana Cristina Solano Polena da Costa Pinto, que conhecera no colégio São João de Brito. António Pires de Lima, Paulo Portas, Nuno Amado foram alguns colegas. Enquanto completava o MBA no Insead, em Fontainebleau, conhece outra mulher que daria o pino à sua vida profissional: Ana Patrícia Botín, filha de Emilio Botín, ‘patrão’ do Santander. De companheiros de mestrado passam a amigos e, depois, a colegas de trabalho. Os espanhóis esperariam um pouco. A Goldman Sachs recrutava-o. Sol de pouquíssima dura. Em 1993, Botin convida-o para criar o Banco Santander de Negócios Portugal. António Mota de Sousa Horta Osório terá uma ascensão poderosa. No grupo espanhol, desempenhou cargos em Portugal, onde liderou o Santander Totta; no Brasil e em Inglaterra. Consciente de que nunca iria ser o número um do banco espanhol, assim que chegou o convite para ser o primeiro na segunda maior instituição financeira do Reino Unido não hesitou. Enganados estavam os testes psicotécnicos que um dia fizera, em jovem. Indicavam tendência para pilotar aviões ou talento em biologia marinha. A tradição familiar na área do Direito, igualmente, teve que ficar para trás. Para a frente vivia o sonho de ser banqueiro.
A obra que o marca, ‘A Arte da Guerra’ encontrou--a numa pousada em Búzios, Brasil, durante a lua- -de-mel. Desde que leu o tratado militar escrito no século IV a.C. por Sun Tzu, aplaude a ideia de que o estratagema bélico é equivalente ao empresarial. Para tomar decisões, ouve os seus próximos mas decide em solidão.
O comunicado que enviou aos 75 mil funcionários do Lloyds traduz a sua capacidade de dar a cara. Pedia, então, desculpa por ter colocado o nome do banco em lençóis por engomar em Singapura.
Charmoso, o lugar de poder não lhe deu para ter o rei na barriga. Os milhões que ganha importam mais aos outros do que ao próprio. "É um milionário simples", sentencia um ex- -colega do Santander. Em Lisboa mora em Santa Catarina e em Londres no bairro Chelsea. Os luxos vivem em coleccionar tabuleiros de xadrez, arte renascentista e arte dos Séculos XV e XVI. De embalo com a história, Renascimento teve o banco Lloyds ao avistar lucros, em 2013, o ano em que António Horta Osório recebeu a distinção de melhor banqueiro do mundo. A economista Estela Barbot não economiza elogios: "É muito exigente. Um profissional de excelência. É muito humano. É um amigo que acrescenta e consegue gerir bem o seu tempo". Responde às mensagens, aos telefonemas. Não esquece datas e quem estima. Os países de nascimento dos seus três filhos expressam o seu itinerário profissional: Sofia nasceu em Nova Iorque, Margarida em Lisboa e Pedro em São Paulo, Brasil.
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