O microondas
AS TRÊS REVOLUÇÕES A QUE ASSISTI SOBRE A FORMA COMO AS FAMÍLIAS SE REÚNEM À MESA, A MAIS TRANSFORMADORA FOI A DESTE PEQUENO ELECTRODOMÉSTICO
Já vivi o suficiente para ter assistido a três revoluções na maneira como as famílias burguesas se reúnem para uma refeição. Depois de a minha mãe ter aceite que eu jamais engoliria a mioleira que ela me obrigava a comer, passei a jantar à mesa com os meus pais. De uniforme preto e avental branco, a criada de fora "servia" à mesa como a patroa lhe tinha ensinado. Assim foi até aos meus vinte anos.
Quando, em 1963, me casei decidi que o arranjo doméstico tinha de mudar. Apreciava a solidão e, embora as criadas ainda "soubessem qual era o seu lugar", o facto de ter alguém em minha casa angustiava-me. Eu já trabalhava, de forma que tinha de arranjar alguém que tomasse conta dos meus filhos. A certa altura, descobri uma velhota alentejana de quem gostei. Ao fim do dia, a Celeste punha a comida num carrinho e nós servíamo-nos. A única exigência que fazíamos aos filhos era que, no final de cada refeição, pronunciassem as singelas palavras: "Ó pai – ou mãe – podemos levantar-nos?".
Eles deviam maçar- -se com a conversa dos adultos, mas, naquele tempo, as alternativas eram menos fascinantes do que hoje. A ausência de telemóveis, iPods e tablets criava nas crianças um saudável grau de tédio. A meio da década de 1990 fui avó pela primeira vez. Não imaginei logo as alterações que a existência de netos poderiam causar no interior do meu andar. Foi, é, um problema sério. Não tenho despensa nem sala de jantar, e, na cozinha, existe apenas uma pequena mesa e quatro cadeiras. Vindo as refeições de fora, o pessoal doméstico é zero.
Electrodoméstico
Depressa verifiquei que o meu actual estilo de vida não era possível sem a existência de um microondas. Só ele permite que, cá em casa, haja sempre qualquer coisa pronta para se comer.
Após a aquisição deste electrodoméstico, o ritmo das refeições tornou-se frenético. Embora o meu tenha duas prateleiras, acontece muitas vezes estar o primeiro neto a acabar a refeição e ainda o último não conseguiu lá meter o prato. Haverá quem pense que isto é um horror. Não concordo, até porque já assisti, estando em mesas patriarcais, a discórdias de nos pôr o cabelo em pé. Quem apenas refere as maravilhas da Família com maiúscula é um hipócrita.
Seja como for, a vida moderna alterou hábitos. Muitas crianças e adolescentes não só têm horários diferentes nos graus de ensino que frequentam como os pais vêm do trabalho em horários desencontrados, pelo que o jantar tem frequentemente lugar à hora a que cada um chega. A muitos isto parecerá um horror. Quero apenas lembrar que não o é necessariamente. Na ausência de criadas, no fundo umas intermediárias entre pais e filhos, os primeiros têm agora mais oportunidades de falar com os seus descendentes do que em tempos pretéritos. Pelo que me toca, considero o microondas uma dádiva de Deus. lD
+info
Em 1945, a empresa Raytheon patenteou o processo de cozinhar por microondas e em 1947 construiu o primeiro forno comercial, o Radarange. Tinha 1,70 m de altura e pesava 340 kg.
Escritor
A casa que Cesário Verde habitou
Nas ruas do meu bairro, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia, que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia despertam em mim um desejo absurdo de sofrer. Os querubins do lar flutuam nas varandas e, às portas, em cabelo, os lojistas enfadam-se. Habito a dois passos do nº 50 (actual 36), da rua das Trinas, onde, entre 1883 e 1886, viveu o meu poeta preferido. Pare tudo e vá ler o seu Livro.
Título ‘O Livro de Cesário Verde’
Editora Assírio & Alvim
Livro
‘Pais e Filhos’
Apresse-se a ir comprar esta obra-prima. Trata-se do mais perfeito romance do século XIX, superior às obras de Tolstoi ou Dostoyevsky. Foca o drama vivido por quem nasceu num país atrasado, mas onde as ideias europeias já tinham penetrado. Em Bazarov, o niilista, temos uma espécie de bolshevique puro. Li este romance em 1972 e reli--o em diversas ocasiões. Ao chegar ao final do capítulo 21, nunca consegui evitar as lágrimas.
Autor Ivan Turguéniev
Editora Relógio d’água
Teatro
São Carlos
É um belo teatro. Construído em seis meses e pago por um conjunto de capitalistas chefiados pelo conde de Farrobo, foi inaugurado em 1793 com a ópera ‘La Ballerina Amante’ de Cimarrosa. O arquitecto, José da Costa
e Silva, inspirou-se no teatro existente em Nápoles. Pelo seu palco, passaram cantoras tão célebres quanto Maria Callas. Infelizmente, em tempos recentes, a sua vida tem sido inglória.
Local Lisboa
Fugir de:
Deputados e segredinhos
Entre os políticos, surgiu uma moda. Consiste esta em colocar a mão diante da boca, não vá algum especialista em leitura de lábios andar por ali. Se isto é, em geral, palerma, no Parlamento é indefensável, uma vez que transmite a ideia de que os nossos representantes não desejam que saibamos o que andam a dizer. Ao vê-los na TV tenho a sensação de estar a assistir a uma turma de meninos entretendo-se com segredinhos idiotas.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt