Emprego não deve ser prioridade
Fracturante. Perante uma plateia de mais de 350 pessoas, participantes nas Semanas Sociais da Igreja, que decorrem em Braga e apelam a uma sociedade criadora de emprego, o economista Daniel Bessa disse que “o emprego não deve ser considerado uma prioridade política”.
Sem meias palavras e assumindo “um compromisso de sinceridade”, o ex-ministro da Economia disse que “o emprego não é o nosso maior problema, pelo menos em termos colectivos” e referiu que “cometeríamos um erro profundíssimo se transformássemos o emprego na prioridade das prioridades da acção política e governativa”.
Para Daniel Bessa, a aposta não deve ir para o emprego, mas sim para a empregabilidade, ou seja, para a criação de condições para as pessoas terem acesso ao emprego.
“Essa seria a minha bandeira”, disse Daniel Bessa, sublinhando que “as políticas têm de ter em conta as qualificações e o acerto das qualificações, de modo a que o emprego deixe de ser o problema”.
De resto, o economista sublinhou que, apesar de “nem sempre de forma plenamente assumida, o emprego foi uma prioridade excessiva na vida política e económica portuguesa dos últimos 20 ou 30 anos”.
“O número de que nos orgulhávamos, de uma taxa de desemprego de pouco mais de três por cento, no dealbar do século XXI, é realmente o resultado de um erro profundo e de uma péssima orientação”, realçou Daniel Bessa, lembrando que “a maioria dos empregos foram criados onde não deviam ter sido criados, como o Estado e a construção civil, que, por isso, nos últimos anos, só têm gerado desemprego”.
O antigo ministro da Economia alertou para questões inevitáveis como a flexibilidade e a mobilidade e referiu que “se apostarmos na empregabilidade, o emprego sobe”.
De resto, Daniel Bessa surpreendeu também quando terminou afirmando que os salários não tendem a crescer e que “os salários mínimos nacionais na União Europeia vão decrescer nos próximos anos”.
IGREJA ACHA O EMPREGO IMPORTANTE
Apesar de respeitarem a opinião de Daniel Bessa e de considerarem a diversidade de posições “enriquecedora para o debate”, os bispos e padres presentes nas Semanas Sociais de Braga não se mostraram muito convencidos pelas teorias do antigo ministro de António Guterres (que hoje deve participar nas jornadas).
O próprio cardeal Renato Martino, presidente do Conselho Pontifício de Justiça e Paz e coordenador do catecismo Social da Igreja, disse que “a Sociedade deve empenhar-se na criação de emprego, proporcionando assim a subsistência e realização das pessoas”.
Apesar de considerar que “a Igreja não tem obrigação de produzir emprego”, o cardeal afirmou que “é obrigação da Igreja contribuir de forma objectiva para que a sociedade seja criadora de emprego”.
Também o padre António Vaz Pinto, ex-alto comissário para emigração, disse que “uma sociedade que não consegue criar emprego para as suas pessoas, é uma sociedade perdida”.
Contrariando a visão macro-económica do desemprego, em que os desempregados são apenas números, o padre Vaz Pinto falou no desemprego como “um cancro social e humano”. Mas o sacerdote não deixou, no entanto, de alertar para a necessidade de as pessoas se prepararem para a flexibilidade e para a mobilidade.
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