Perguntas e Respostas: O que ganha a Lufthansa com a TAP e como espera o Estado recuperar o dinheiro investido?

Air France-KLM também apresentou uma proposta para a compra da TAP, mas a oferta financeira do grupo alemão era superior e apresentava menor incerteza.

15 de outubro de 2026 às 18:22
TAP Foto: Direitos Reservados
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O Governo escolheu a Lufthansa para adquirir até 49,9% da TAP, numa disputa com a Air France-KLM, e admite avançar posteriormente com a privatização total da companhia, numa operação que poderá permitir recuperar os apoios públicos concedidos.

Os dois grupos chegaram à fase final do concurso com propostas consideradas tecnicamente muito equivalentes, mas o executivo optou pela oferta do grupo alemão, que classificou como financeiramente superior e com menor grau de incerteza.

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O negócio prevê investimentos em Portugal, alterações na gestão da TAP e a possibilidade de o Estado vir a tornar-se acionista da Lufthansa, caso avance uma segunda fase da privatização.

Eis algumas perguntas e respostas sobre os principais termos da operação, as diferenças entre as propostas e o que ainda está por decidir:

Porque foi escolhida a Lufthansa?

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O Governo considerou que as propostas da Lufthansa e da Air France-KLM eram tecnicamente muito equivalentes e apresentavam condições contratuais semelhantes, mas a oferta financeira do grupo alemão era superior e apresentava menor incerteza.

"A decisão do Governo recai sobre o grupo Lufthansa, cuja proposta financeira é 16% superior à proposta concorrente e com menor grau de incerteza", afirmou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros onde foi tomada a decisão.

"Esta é a melhor escolha para o futuro da empresa e a que melhor protege o interesse nacional", acrescentou.

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Na decisão pesaram também os investimentos associados, o crescimento previsto da frota, a manutenção da TAP na Star Alliance e o modelo de governação proposto pelo grupo alemão.

Quanto ofereceu cada grupo e quanto poderá receber o Estado?

A Lufthansa apresentou um preço de referência de 1.025 milhões de euros para adquirir 44,9% da TAP, a que acrescem 58 milhões de euros de ajustamentos financeiros e 118 milhões relativos aos 5% do capital reservados aos trabalhadores.

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O Governo estima, assim, um encaixe potencial de 1.201 milhões de euros pela alienação de até 49,9% do capital da companhia, contra 1.038 milhões de euros da proposta da Air France-KLM.

A diferença é de 163 milhões de euros, ou seja 16%.

A proposta do grupo franco-neerlandês incluía, contudo, a possibilidade de um pagamento adicional de 100 milhões de euros, dependente do cumprimento de objetivos financeiros pela TAP em 2028. Caso essas condições fossem cumpridas, a diferença entre as ofertas diminuiria para 63 milhões de euros, cerca de 6%.

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O grupo alemão apresentou também uma proposta financeiramente superior para uma eventual segunda fase da privatização, embora o Governo não tenha divulgado o valor global oferecido pela Air France-KLM nessa etapa.

Nesta primeira fase, o Estado português manterá uma participação de 50,1% no capital da companhia.

Quando poderão os trabalhadores comprar os 5% que lhes estão reservados?

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A oferta de até 5% do capital destinada aos trabalhadores será lançada após a conclusão da venda direta à Lufthansa, que está dependente da aprovação das autoridades regulatórias, nomeadamente da Comissão Europeia.

O calendário e as condições finais da oferta serão definidos posteriormente pelo Governo.

Segundo as regras já aprovadas, poderão participar os trabalhadores da TAP e de outras empresas do grupo com mais de três anos consecutivos de vínculo laboral, sendo o preço por ação igual ao da venda direta ao investidor de referência.

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Se os trabalhadores não adquirirem a totalidade das ações disponibilizadas, a Lufthansa fica com preferência para comprar a parcela remanescente, podendo aumentar a sua participação até 49,9%.

O que ganha a Lufthansa com a entrada na TAP?

O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, destacou a importância da transportadora portuguesa para reforçar a presença do grupo alemão na América Latina.

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Segundo o governante, a integração da TAP permitirá à Lufthansa aumentar a sua quota de mercado nas ligações entre a Europa e a América Latina de 9% para 20%.

Na mesma conferência, Pinto Luz apontou ainda o risco de a companhia portuguesa ser adquirida por um grupo concorrente como um dos fatores que tornaram a operação estrategicamente relevante para a Lufthansa.

"Se ficasse em casa e não tivesse vindo a jogo, eram os seus concorrentes que poderiam assumir", afirmou o ministro, referindo-se à possibilidade de a TAP passar a integrar a Air France-KLM ou outro grupo.

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O governante destacou também a localização geográfica de Portugal, as ligações da TAP ao Brasil e o futuro aeroporto de Lisboa como elementos de interesse para o investidor alemão.

Como será gerida a TAP depois da entrada da Lufthansa?

O Estado manterá cinco dos nove lugares no Conselho de Administração, incluindo a presidência, mas a gestão operacional corrente ficará delegada numa comissão executiva.

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De acordo com a apresentação feita pelo executivo, esta comissão terá quatro administradores executivos, um dos quais indicado pelo Estado.

A Lufthansa terá o direito de indicar o presidente executivo (CEO) da TAP após a conclusão da primeira fase da privatização, não sendo conhecido ainda se Luís Rodrigues permanecerá no cargo.

As decisões relativas à estratégia, à frota e a operações de maior valor terão de ser tomadas por consenso.

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O acordo prevê ainda a criação de um Comité de Partes Relacionadas, destinado a supervisionar as operações financeiras entre a TAP e outras empresas do grupo Lufthansa.

Pinto Luz explicou que o objetivo é impedir que as relações comerciais dentro do grupo possam retirar valor à transportadora portuguesa.

"Temos que garantir que o nosso parceiro não tem relações com partes relacionadas [...] que possam esvaziar ou extrair valor da TAP", afirmou.

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Que investimentos e empregos estão previstos para Portugal?

A proposta da Lufthansa prevê o reforço da frota da TAP para 117 aeronaves em 2035 e 130 após essa data, dependendo, neste último caso, da concretização do novo aeroporto de Lisboa.

Contempla ainda a possibilidade de transferência de até oito Airbus A350-900 após 2030, a modernização da frota da Portugália e o reforço do Porto como segunda base estratégica, com oito aeronaves de longo curso.

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Entre os projetos adicionais estão uma escola de aviação em Tancos, um centro de inovação tecnológica em Aveiro e um centro de serviços corporativos e operacionais em Portugal.

A proposta prevê também a integração da manutenção da TAP na rede Lufthansa Technik, além do investimento já anunciado de cerca de 300 milhões de euros numa unidade em Santa Maria da Feira, associado à criação de aproximadamente 700 postos de trabalho.

"Estamos a perspetivar um crescimento também do emprego, 3.000 empregos associados ao crescimento projetado da TAP e um total de 5.500 empregos diretos e indiretos no conjunto de todas estas iniciativas de investimento no nosso país", afirmou Luís Montenegro.

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Que garantias existem para os trabalhadores da TAP?

O Governo assegurou que a proposta da Lufthansa contempla o respeito pelos direitos laborais, pela estabilidade dos trabalhadores e pelos acordos de empresa em vigor.

Questionado sobre a possibilidade de despedimentos, Miguel Pinto Luz afirmou que "ninguém vai comprar a TAP com o nível de exposição que estamos aqui a ver para reduzir trabalhadores".

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O governante defendeu que o crescimento previsto da companhia exigirá mais pilotos, tripulantes, técnicos de manutenção e pessoal de terra.

Já esta quinta-feira, numa conferência telefónica com analistas e investidores, o presidente executivo da Lufthansa, Carsten Spohr, foi questionado sobre o risco de conflitos laborais prejudicarem a integração da TAP, tendo referido que recebeu, "nas últimas horas", manifestações favoráveis à cooperação com o grupo alemão.

Segundo o gestor, o SITAVA manifestou abertura ao diálogo e uma posição favorável ao negócio, os pilotos da Portugália transmitiram uma posição semelhante e os pilotos da TAP enviaram uma carta a acolher a cooperação com o grupo alemão.

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Carsten Spohr acrescentou que os encontros realizados com os sindicatos em Lisboa demonstraram, na sua perspetiva, que estes reconhecem a experiência da Lufthansa no desenvolvimento das companhias aéreas que adquire.

O Governo vai vender também os restantes 50,1% da TAP?

Essa possibilidade está em análise, mas ainda não existe uma decisão definitiva.

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A Lufthansa apresentou uma proposta para adquirir a participação remanescente, avaliada pelo Governo em 1.351 milhões de euros, incluindo 863 milhões em dinheiro e 488 milhões em ações do grupo alemão.

A componente acionista poderá conferir ao Estado português uma participação de cerca de 5% na Lufthansa, tornando-o, segundo as estimativas apresentadas pelo Governo, no segundo maior acionista do grupo.

Pinto Luz afirmou que o executivo vê "com muito bons olhos" esta segunda fase, mas ressalvou que será necessária uma avaliação política e um processo de diálogo com os partidos, sob a liderança do primeiro-ministro.

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"A TAP não precisa de mais confusão do que aquela que já teve no passado. Nós agora temos uma TAP no rumo certo", afirmou.

O ministro não apresentou uma data para a decisão, sublinhando que o Governo já iniciou a reflexão sobre esta possibilidade.

Que garantias terá Portugal se a TAP passar a integrar totalmente a Lufthansa?

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Segundo Pinto Luz, a Lufthansa sinalizou disponibilidade para atribuir a Portugal um lugar no conselho de supervisão do grupo alemão, caso avance a segunda fase da privatização.

O ministro referiu também a possibilidade de representação portuguesa na Comissão Executiva da TAP e da criação de uma comissão estratégica em Portugal para acompanhar o cumprimento dos compromissos considerados essenciais para o interesse nacional.

O objetivo será preservar, mesmo num cenário de integração total, as características estratégicas da companhia, nomeadamente a marca, a sede, o 'hub' (plataforma giratória de distribuição de voos) de Lisboa e a conectividade com as regiões autónomas e os países lusófonos.

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O Estado conseguirá recuperar os mais de 3.200 milhões de euros investidos na TAP?

O Governo considera que a operação permite abrir caminho à recuperação dos apoios públicos concedidos à transportadora no âmbito da reestruturação iniciada em 2021 por causa da covid-19.

"Esta parceria entre a TAP e a Lufthansa aponta-nos esse caminho. O caminho da recuperação total do valor que os portugueses investiram na TAP", afirmou Luís Montenegro.

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Segundo as projeções do Governo, o retorno poderá atingir cerca de 3.400 milhões de euros até 2040.

As contas incluem 1.201 milhões de euros de receitas potenciais com a primeira fase da privatização, 863 milhões em dinheiro numa eventual segunda fase e cerca de 1.400 milhões relativos ao valor estimado das ações que o Estado receberia no grupo Lufthansa e aos dividendos acumulados até 2040.

"Temos ações e dividendos que até 2040 é expectável recuperar mais 1.400 milhões de euros, que perfazem 3.400 milhões", explicou Pinto Luz.

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No entanto, a estimativa depende da concretização da segunda fase, da evolução do valor das ações e dos dividendos que venham a ser distribuídos.

Porque defende o Governo avançar para uma privatização total? 

O executivo considera que a integração num grande grupo internacional permitirá à TAP ganhar escala e enfrentar melhor eventuais crises no setor da aviação.

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"A TAP não está imune a crises futuras", alertou Miguel Pinto Luz, sublinhando que a transportadora já não poderá contar com novas injeções de capital nas condições em que recebeu os anteriores apoios públicos, devido às regras europeias.

"Temos que garantir uma TAP robusta para o futuro", defendeu.

O governante considerou ainda que o setor da aviação está cada vez mais dependente de grandes grupos internacionais, acrescentando que a venda da participação remanescente permitiria concretizar o objetivo de recuperar o dinheiro público investido na companhia.

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Quando poderá ficar concluída a privatização?

A Lufthansa prevê concluir a aquisição da participação inicial no primeiro semestre de 2028, dependendo das autorizações regulatórias necessárias, incluindo a avaliação da Comissão Europeia.

O Governo pretende assinar os documentos da operação até ao final deste ano.

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Até à conclusão da venda, a TAP continuará sob a atual gestão, embora Pinto Luz tenha explicado que a Lufthansa terá o direito de acompanhar a execução do plano estratégico da companhia.

Já a eventual segunda fase da privatização dependerá de uma decisão política posterior e de um processo autónomo.

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