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Correio da Manhã

Economia
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25 por cento em risco de falência

"Estamos a viver uma crise dramática, agravada pela falta de disponibilização das ajudas." O cenário é traçado por João Machado, líder da Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP), que acredita que nos próximos meses os abandonos da actividade agrícola vão "aumentar exponencialmente".
20 de Agosto de 2009 às 00:30
A produção dos cereais (na foto), a par do sector do leite, é uma área onde as dificuldades financeiras dos produtores mais se fazem sentir
A produção dos cereais (na foto), a par do sector do leite, é uma área onde as dificuldades financeiras dos produtores mais se fazem sentir FOTO: Arnd Wigmann/Reuters

"Estimamos que pelo menos 25% dos agricultores vão à falência", admite ao CM o responsável, explicando que, apesar de não haver estatísticas recentes sobre o número de pessoas na agricultura, a percentagem se poderá traduzir "em dezenas de milhares de agricultores".

O presidente da CAP garante que o problema afecta a generalidade dos produtos, mas assume que o "sector do leite é o mais afectado". A explicação para as dificuldades financeiras que atravessam os produtores é simples: a produção sai mais cara e as receitas das vendas caem. "Temos uma redução dos preços pagos aos produtores da ordem dos 40 a 50% nos últimos dois anos, enquanto os custos de produção aumentaram, em alguns casos, para os 100%.

Há dois anos, o leite era vendido a 55 cêntimos o litro, quando hoje os produtores não recebem mais de 25 cêntimos, menos de metade. O mesmo acontece com o milho. Há dois anos, o preço da tonelada chegava aos 240 euros , quando hoje se situa apenas nos 145 euros. A situação é mais grave em sectores como o da cortiça, onde "já nem sequer existem propostas de compra desta matéria-prima". A CAP garante que a soma dos proveitos com as ajudas comunitárias já não é suficiente para pagar os custos de produção.

Além de uma maior rapidez na disponibilização dos apoios comunitários (ver caixa), João Machado afirma serem necessárias ajudas nacionais. "Falamos de linhas de crédito como as que já existem no Ministério da Economia, da reposição da electricidade verde que foi extinta há quatro anos e o fim da aplicação da taxa de recursos hídricos, que Espanha já não cobra", explica o líder da CAP.

AGRICULTORES PORTUGUESES DISCRIMINADOS

Para contrariar a crise, a Comissão Europeia autorizou todos os Estados-membros a antecipar as ajudas habitualmente pagas em Dezembro para o mês de Outubro, revelou ontem a CAP. Ainda assim, a confederação teme que os apoios não cheguem mais cedo aos agricultores portugueses, dada a "incapacidade de resposta dos serviços" do Ministério da Agricultura.

"Os agricultores portugueses vão ficar discriminados", atira João Machado. Isto porque, segundo o dirigente da CAP, os serviços do Ministério estão ainda a comprovar o pagamento das ajudas relativas ao ano anterior. "A União Europeia não vai estar disponível para pagar agora sem que o Ministério faça antes esse levantamento." Por esse motivo, a CAP avança que os agricultores estão agora "apreensivos" face à capacidade de cumprimento dos prazos.

CEREAIS CAEM E A VINHA REGISTA SUBIDA LIGEIRA

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram uma quebra na produção de cereais, que, no trigo mole, atingiu os 40%. Houve "quebras em todas as espécies", diz o INE, aliada a uma menor área cultivada. João Machado, da CAP, explica que, "não sendo uma cultura anual, o aumento dos custos de produção levou muitos agricultores a não semear". "Há uma quebra significativa da área semeada, da ordem dos 170 mil hectares, em relação há dois anos."

Nas uvas para vinho, o INE estima uma subida na produtividade de 5%, acompanhada de uma boa "qualidade das massas vínicas".

PORMENORES

CRESCIMENTO

Os pomares apresentam-se como uma das áreas mais produtivas. A produção de pereiras e macieiras deverá crescer 5% e a de amendoeiras 10%.

ABANDONO

João Machado, da CAP, admite que o previsível abandono da actividade agrícola pode levar à queda da produção nos pomares.

DADOS OFICIAIS

O último recenseamento geral da Agricultura fez-se em 99 pelo INE. Há uns anos estimava-se haver 400 mil agricultores no País.

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