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Correio da Manhã

Economia
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Agricultores nas ruas em protesto

Cansados de serem "os bombos da festa", os agricultores vão, a partir desta semana, realizar uma série de manifestações e protestos, um pouco por todo o País, para dizer ao Governo "que recebem menos do que há 12 anos e que as despesas triplicaram".

10 de Maio de 2009 às 00:30
Os agricultores ameaçam sair com os tractores para as estradas
Os agricultores ameaçam sair com os tractores para as estradas FOTO: Paulo Cunha, Lusa

Na linha da frente estão os produtores de leite e carne e a primeira grande manifestação, uma marcha lenta de tractores, está marcada para a manhã da próxima quinta-feira, no centro de Barcelos.

No mesmo dia há uma vigília, às 21h30, em frente ao Governo Civil de Vila Real. De resto, mas ainda sem data marcada, estão a ser preparadas manifestações em Famalicão, no Porto, em Leiria, Santarém, Évora e Beja.

'Temos de avançar com uma autêntica revolta do campo, porque se assim não for ninguém nos ouve', disse ao Correio da Manhã José Manuel Lobato, presidente da Associação de Defesa dos Agricultores do distrito de Braga.

Em causa está o preço pago ao produtor, tanto do leite como da carne, dos legumes ou dos cereais, que, segundo este responsável, 'é inferior ao que era pago há 12 anos, quando os custos de produção mais do que triplicaram'.

'Em 1998, o leite era pago a 29,38 cêntimos o quilo e hoje não chega aos 28. Entretanto, as rações, as silagens, os adubos e até os combustíveis, custam o triplo', disse José Lobato, admitindo que 'alguns milhares de produtores de leite são não fecham as vacarias por causa dos compromissos assumidos com os bancos'.

'ESTE MINISTRO NÃO RESOLVE'

'É um homem ausente, passivo, que não se empenha na resolução dos reais problemas da agricultura e dos agricultores', diz José Manuel Lobato, sublinhando que 'sem uma mudança do titular da pasta não haverá qualquer mudança de políticas'.

Os dinheiros disponíveis em Bruxelas para apoio à agricultura portuguesa, e que, alegadamente, este Governo não aproveitou, são apontados como 'mais uma falha grave' de Jaime Silva.

De resto, o secretário de Estado Luís Vieira vai também ser alvo das críticas dos manifestantes, por ter dito durante esta semana que passou que os produtores de leite portugueses estão em melhor situação do que os de muitos países da Europa.

Os homens da terra dizem que 'ela fala do que não sabe'.

SAIBA MAIS

LEGUMES MAIS CAROS

Ao contrário do que acontece com outros produtos, o preço dos legumes frescos não pára de aumentar. Ontem, um quilo de tomate estava a 1,49 euros. O produtor recebe 40 cêntimos.

11 403

é o número de produtores de leite existentes em Portugal. A maioria está sediada no Norte do País e nos Açores.

210

milhões de euros é quanto os produtores de leite vão receber a menos este ano, em relação a 2007, quando o leite lhes foi pago 38 cêntimos por quilo. A produção anual de leite, em Portugal, é de dois milhões e cem mil toneladas.

CARNE A TRÊS EUROS

A carne de novilho da raça frísia está a ser paga ao produtor a três euros o quilo. Nos talhos atinge os doze euros.

"É O DESESPERO QUE COMEÇA A VIR AO DE CIMA" (Luís Mira, Sec. geral da Confederação dos Agricultores de Portugal)

Correio da Manhã –A Confederação Nacional de Agricultores (CNA) está a preparar acções de protesto para esta semana. A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) vai associar-se a estas acções ou está a desenvolver o seu próprio programa de protestos?

Luís Mira – A Confederação dos Agricultores de Portugal iniciou na semana passada um conjunto de reuniões para auscultar os agricultores e associações, a fim de saber quais as preocupações das várias regiões do País. Começámos por Trás-os-Montes. As últimas reuniões estão previstas para a próxima semana no Oeste e Alentejo.

– Mas têm já algumas propostas em concreto ou só depois de ouvirem os agricultores é que vão elaborá-las?

– Já temos algumas propostas, algumas formas de protesto, mas só depois das reuniões é que serão definidas. Há quatro anos que há uma campanha para denegrir os agricultores... há um grande mal-estar no sector...

– Devido à crise? Isto é, os problemas agravaram-se com a situação económica ou surgiram agora novos problemas?

– Os problemas no sector têm vindo a agravar-se nos últimos quatro anos, mas agora é o desespero que começa a vir ao de cima. Os problemas no sector, os atrasos nos pagamentos, os preços do leite e da carne que baixam... é um acumular muito grande de situações. Já devemos ter ‘perdido’, só este ano, milhares de ovelhas... Há medidas para apoiar as pequenas e médias empresas, mas a agricultura continua à margem...

– Pode concretizar em que se tem traduzido essa marginalização do sector agrícola?

– O plano de desenvolvimento rural é o mais atrasado dos 27, os projectos de modernização estão parados... Portugal é dos países da União Europeia que mais reservas da Política Agrícola Comum (PAC) tem desperdiçado... são razões mais do que suficientes.

 

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