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Correio da Manhã

Economia
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Alta tensão no Governo

Teixeira dos Santos deu murro na mesa. Ministro das Finanças impôs corte de salários no Estado ao primeiro-ministro, José Sócrates.
23 de Outubro de 2010 às 00:30
José Sócrates não conseguiu esconder o que lhe ia na alma enquanto ouvia Teixeira dos Santos anunciar o pacote de austeridade para 2011
José Sócrates não conseguiu esconder o que lhe ia na alma enquanto ouvia Teixeira dos Santos anunciar o pacote de austeridade para 2011 FOTO: António Cotrim/Lusa

A brincadeira acabou. Ajudado pela pressão dos mercados internacionais, Teixeira dos Santos impôs a José Sócrates e aos restantes ministros uma das medidas mais duras da proposta de Orçamento do Estado para 2011. O corte nos salários de todos os funcionários públicos, incluindo políticos e gestores, já tinha sido equacionado em Maio, quando o Governo reduziu em cinco por cento os vencimentos dos políticos. Nessa altura, o primeiro-ministro opôs-se e levou a sua avante, até porque o PSD dificilmente aceitaria o PEC II com essa proposta inédita em Portugal e altamente impopular.

Mas agora, com os juros da dívida pública em alta e os mercados a fazerem uma enorme pressão para o Governo avançar com medidas credíveis para reduzir o défice das contas públicas, Teixeira dos Santos conseguiu levar a água ao seu moinho. Pelo caminho, ainda teve de corrigir José Sócrates, quando no dia da apresentação das medidas de austeridade, a 29 de Setembro, o primeiro-ministro deixou no ar a ideia de que o corte salarial seria apenas para 2011. Numa atitude inédita, o ministro das Finanças interrompeu Sócrates e esclareceu que a medida vinha para ficar.

A guerra de Teixeira dos Santos não foi apenas com o primeiro-ministro. Nas inúmeras reuniões com os seus colegas de Governo nos dias que antecederam o anúncio do Orçamento mais brutal desde o 25 de Abril, o ministro das Finanças foi particularmente implacável com as ministras da Educação, Saúde Trabalho e o seu colega das Obras Públicas. Os quatro argumentaram com compromissos assumidos e com o Estado Social. Nada feito. Teixeira dos Santos ganhou. Como é óbvio, o gabinete de Sócrates garantiu ao CM que há sintonia total entre os membros do Governo.

FURIOSO COM ANTÓNIO MENDONÇA

O ministro das Obras Públicas foi um dos alvos da fúria de Teixeira dos Santos nos últimos meses. Sempre que António Mendonça vinha a público anunciar a manutenção dos grandes projectos, nomeadamente a terceira travessia do Tejo e a ligação por TGV de Lisboa ao Poceirão, o ministro das Finanças tinha de corrigir o colega. E, de facto, todas as grandes obras que ainda não foram adjudicadas devem, a partir de agora, ficar no congelador de António Mendonça.

PASSOS COELHO FICOU SEM O SEU ÂNGELO DA GUARDA

A estratégia de Pedro Passos Coelho no braço-de-ferro com o Governo custou-lhe muito caro. Não só nas sondagens. Alguns dos seus mais fortes apoiantes ficaram pelo caminho. O principal é Ângelo Correia. O homem que levou o actual líder do PSD ao poder da São Caetano, e que se gabava de falar com Pedro Passos Coelho sempre que lhe apetecia, distanciou-se irreversivelmente da direcção social-democrata.

Os ultimatos ao Governo na Festa do Pontal, em Agosto, a recusa em aceitar quaisquer aumentos de impostos e a instabilidade política num momento gravíssimo para Portugal levaram o empresário Ângelo Correio a cortar de vez com Passos Coelho. Mas não só.

O negociador laranja do PEC II, António Nogueira Leite, que agora foi afastado da equipa que vai tentar chegar a um acordo com o Governo, é outro dos fiéis de Passos Coelho que discordaram frontalmente da estratégia do líder laranja. E como não há dois sem três, também o deputado Pedro Duarte veio a público discordar da direcção do PSD.

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