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Correio da Manhã

Economia

Cadilhe responde a ministro

Miguel Cadilhe afirmou ao Correio da Manhã que o Governo teve "motivações políticas que nunca expôs clara e completamente" ao nacionalizar o Banco Português de Negócios (BPN). O presidente da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) reage, assim, às afirmações de Teixeira dos Santos ao CM, em que diz que a administração do BPN não apresentou alternativas válidas para viabilizar a instituição.
28 de Dezembro de 2008 às 00:30
“A nossa alternativa foi submetida ao preconceito de quem a não desejava”, diz Miguel Cadilhe
“A nossa alternativa foi submetida ao preconceito de quem a não desejava”, diz Miguel Cadilhe FOTO: Bruno Colaço

"No dia 17 de Outubro, apresentei ao ministro um esquema de solução. Em 20, o ministro, ao telefone, rejeitou a nossa proposta", afirma Miguel Cadilhe. Acrescentando, "contrariamente ao que afirma, o ministro não me apresentou várias contrapropostas. Em breves minutos, divagou, isso sim, sobre duas variantes da nacionalização, disfarçada de outros nomes. Primeiro, uma venda do BPN à Caixa, a mando do Governo. Segundo, uma ‘operação harmónio’, com os accionistas privados a sofrer a redução do capital e, depois, o Estado (pois quem haveria de ser?) a fazer o aumento. Os accionistas privados seriam flagelados por qualquer destas soluções."

No dia 24, a administração do banco entrega a Teixeira dos Santos o Plano BPN 23x8, com uma vertente conjuntural e outra estrutural.

"Tudo isto era uma proposta aberta a negociações. Contudo, o Governo negociou absolutamente nada", diz Cadilhe, que refere ainda que "a verdade sobre o dinheiro dos contribuintes não é o que tem sido dito pelo ministro. A nossa proposta não punha os contribuintes a perder dinheiro. Ela pagava um preço pelo uso dos capitais públicos, seja como ‘comissões de aval’, seja como ‘dividendos preferenciais’, dividendo variável e prémio de reembolso". "A nacionalização o que faz? O que paga? Exclui capitais privados e exige um esforço financeiro do Estado muito maior", diz Miguel Cadilhe.

OS ÁRABES INCONSEQUENTES

Em relação a potenciais compradores para o BPN, Miguel Cadilhe é categórico ao afirmar que "o ministro também diz que se disponibilizou para encontrar alguém que pudesse comprar o BPN. Não tenho presente um tal gesto da parte dele. Talvez se referisse aos árabes, que, ao longo desses meses, intermitentemente, foram aparecendo com várias, inconsequentes, manifestações de interesse."

Cadilhe diz que foi "surpreendido" no dia 23 de Outubro por uma oferta de aquisição da CGD. "Ressurgiu, assim, a nacionalização."

PORMENORES

SOLUÇÃO CONJUNTURAL

Passava pelo aval do Estado e um apoio de seis bancos no montante de 500 milhões.

SOLUÇÃO ESTRUTURAL

Um misto de novos capitais privados (380 milhões) e acções preferenciais a subscrever pelo Estado (600 milhões), com um dividendo igual ao juro da dívida pública mais um por cento.

75% DOS VOTOS

A venda do BPN à CGD exigia 75% dos votos favoráveis dos accionistas da SLN SGPS.

DEPOIMENTO DE MIGUEL CADILHE

O Ministro faz a sua leitura dos acontecimentos. A minha leitura é essencialmente distinta.

Eleitos em fins de Junho, os nossos esforços de regeneração do grupo SLN e do BPN duraram quatro meses, de Julho a Outubro.

Em 14 de Outubro, tínhamos terminado o apuramento de pesadas perdas do passado, não devidamente contabilizadas. Era urgente encontrar uma solução. Em 17, apresentei ao Ministro um esquema de solução. Em 20, o Ministro, ao telefone, rejeitou a nossa proposta.

Pedi-lhe, por isso, para nos dar uns dias a fim de podermos desenvolver e fundamentar a nossa alternativa, o «Plano BPN 23 X 08».

Contrariamente ao que afirma, o Ministro não me apresentou várias contrapropostas. Em breves minutos, divagou, isso sim, sobre duas variantes da nacionalização, disfarçada de outros nomes. Primeiro, uma venda do BPN à Caixa, a mando do Governo. Segundo, uma «operação harmónio», com os accionistas privados a sofrer a redução do capital e, depois, o Estado (pois quem haveria de ser?) a fazer o aumento. Os accionistas privados seriam flagelados por qualquer destas soluções.

O Ministro também diz que se disponibilizou para encontrar alguém que pudesse comprar o BPN. Não tenho presente um tal gesto da parte dele. Talvez se referisse aos árabes, que, ao longo desses meses, intermitentemente, foram aparecendo com várias, inconsequentes, manifestações de interesse.  

Entretanto, em 22 e 23, quando ultimávamos o «Plano BPN 23 X 08», fomos surpreendidos. A Caixa fez uma ‘oferta de aquisição’ de todo o BPN. Ressurgia, assim, a nacionalização, obviamente por ordem do Governo. Porquê, de novo, e naquele preciso momento?  

Mas a Caixa e o Ministro ficaram, então, a saber que a venda do BPN exigiria 75% de votos dos accionistas da SLN SGPS, um obstáculo estatutário dificilmente transponível.

Em 24, entregámos ao Ministro o “Plano BPN 23X08”. Desdobrava-se em duas soluções, uma mais conjuntural, outra mais estrutural.

A solução conjuntural, de apoio à liquidez, passaria pelo mecanismo de garantia do Estado, mediante pagamento de comissão de aval. O BPN tinha em ultimação o processo de apoio à liquidez assegurado por seis bancos, no montante de 500 milhões de euros.

A solução estrutural passaria por um misto de novos capitais privados (380 milhões de euros) e ‘acções preferenciais’, estas a subscrever pelo Estado (600 milhões). O Estado receberia um ‘dividendo prioritário’ igual ao juro da dívida pública mais 1%, e, além disso, um ‘dividendo variável’ a negociar. Se o BPN optasse por as resgatar, teria de pagar prémio ao Estado.

Tudo isto era uma proposta aberta a negociações. Contudo, o Governo negociou absolutamente nada.

Em 31, a proposta foi rejeitada, por telefonema e carta do Ministro. E em 2 de Novembro, era anunciada a nacionalização do BPN.

A verdade sobre o dinheiro dos contribuintes não é o que tem sido dito pelo Ministro. A nossa proposta não punha os contribuintes a perder dinheiro. Ela pagava um preço pelo uso dos capitais públicos, seja como ‘comissões de aval’, seja como ‘dividendos preferenciais’, dividendo variável e prémio de reembolso.

E, aliás, a nacionalização o que faz? O que paga? Exclui capitais privados e exige um esforço financeiro do Estado muito maior. E não estabelece a obrigação de remunerar os capitais públicos.

Quanto aos depositantes, o problema era de confiança e de liquidez. Ora, se o “Plano BPN 23X08” tivesse sido aceite, o problema poderia ter sido bem estabilizado graças ao dinheiro fresco num total de 1480 milhões de euros (500 pela solução conjuntural e 980 pela solução estrutural), bem como pelos inequívocos sinais positivos e estabilizadores que isso mesmo teria induzido no mercado.  

O Governo, ao optar pela integral estatização e pela gestão pública do BPN, teve motivações políticas que nunca expôs clara e completamente. A nossa alternativa foi submetida ao preconceito de quem a não desejava. Mesmo antes de a apresentarmos, já a decisão da nacionalização estava tomada pelo Governo. Porquê?

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