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Correio da Manhã

Economia
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Cheque chinês de 8,7 mil milhões

O dinheiro falou mais alto: primeiro foram 2,7 mil milhões de euros pela participação de 21,35 por cento do Estado na EDP. Depois, a promessa de dois mil milhões de euros em investimentos em parques eólicos, até 2015. Tudo isto rematado com quatro mil milhões de euros em linhas de crédito junto de bancos asiáticos, para negócios em Portugal. A proposta vencedora da China Three Gorges representa assim um investimento total de 8,7 mil milhões de euros no País.

23 de Dezembro de 2011 às 01:00
Secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, anunciou o vencedor na corrida à empresa de António Mexia (na foto)
Secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, anunciou o vencedor na corrida à empresa de António Mexia (na foto) FOTO: Manuel Vicente

"Numa avaliação global, a proposta da Three Gorges é financeiramente a melhor de todas, e nos restantes aspectos é também uma proposta muito forte", explicou a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, para justificar a escolha. O valor oferecido pela China Three Gorges, de 3,45 euros por acção, incorpora um prémio de 53,6% em relação ao preço de mercado no dia 21 de Dezembro.

Os chineses ficaram à frente dos alemães da E.ON e dos brasileiros da Eletrobras e Cemig cujos governos se empenharam numa vitória. O Executivo, contudo, "não teme quaisquer consequências negativas da decisão", nomeadamente relações mais complicadas com Brasil ou Alemanha.

Um dos elementos que pesou na decisão foi o facto de a proposta chinesa, ao contrário da dos alemães, não ter condicionantes de venda da posição, em caso de agravamento da crise. O presidente da China Three Gorges, que passará a ser o maior accionista da eléctrica nacional, espera que mais empresas chinesas invistam em Portugal. Para além da componente financeira, os chineses vão ainda instalar no País uma fábrica de turbinas que exportará 500 milhões de euros por ano e criar empregos. António Mexia diz que a "venda à Three Gorges é uma boa decisão".

O contrato-promessa será assinado até ao final do ano, altura em que os chineses terão de pagar cerca de 600 milhões, sendo que a operação estará concluída "em Março ou Abril do próximo ano". O Governo salvaguarda que o negócio não cria preocupações junto dos consumidores, em relação a preços, uma vez que "é um mercado regulado".

DECISÃO MUITO INTELIGENTE

O presidente da China Three Gorges Corp., Cao Guangjing, considerou "muito inteligente" e "justa" a decisão do Governo português de vender à sua empresa 21,35% da parcela que o Estado detém no capital da EDP. 

É PRECISO TER MUITO CUIDADO

Em Setembro, o Presidente da República alertou o Governo de que "é preciso ter muito cuidado" com as privatizações. "É preciso ter muito cuidado na elaboração do caderno de encargos", defendeu Cavaco Silva.

SALVAGUARDAR INTERESSE DO PAÍS

Na qualidade de presidente do Conselho de Prevenção da Corrupção, Guilherme d’Oliveira Martins prometeu fiscalizar as privatizações para que "o interesse nacional seja salvaguardado" e para que "não haja dúvidas quanto ao processo".

MAIOR CENTRAL DO MUNDO

A barragem chinesa das Três Gargantas, no rio Yangtze, que dá o nome à empresa futura accionista da EDP, é não só a maior do Mundo pelas suas dimensões, como a mais produtiva em termos de electricidade: fornece uma quantidade de energia igual à debitada por uma dúzia de centrais nucleares ou, numa comparação mais prática, toda a electricidade consumida durante um ano na Bélgica.

A Three Gorges Corporation representa o sonho e o poder da China. Na base está um projecto com mais de 90 anos. A ideia de construir uma barragem hidro-eléctrica no final do percurso montanhoso do Yangtze (3º maior rio do Mundo com 6300 km, logo atrás do Amazona e do Nilo) começou a ser discutida nos tempos da I República chinesa, de Sun Yat-sen, em 1919. Quando em 1949 chegou ao poder Mao Tse-tung, o assunto voltou a debate para travar inundações mortíferas. A construção só foi decidida em 1992 quando a China apontava a potência económica mundial.

A obra custou 50 mil milhões de euros. Desde a inauguração, em 2008, tornou-se o ícone do império energético chinês.

ENERGIA EDP CHINA
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