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Correio da Manhã

Economia

Clientes do BPP perdem mais de 480 milhões de euros

O Governo avançou ontem com uma solução para os clientes dos produtos de retorno absoluto do BPP que o próprio ministro das Finanças considerou talvez "não seja a resposta que [os clientes] querem, mas não é legítimo pedir aos contribuintes que assumam eventuais perdas". "Se a garantia foi prestada pelo banco, é uma responsabilidade do banco e devem reclamar junto da instituição", declarou o governante.
10 de Junho de 2009 às 00:30
Teixeira dos Santos diz que Governo está  solidário com os clientes
Teixeira dos Santos diz que Governo está solidário com os clientes FOTO: João Relvas/Lusa

A resposta passa pela troca dos activos em que o BPP investiu o dinheiro dos clientes por novos títulos geridos por uma entidade "credível". Tudo isto a valores de mercado. Ou seja, com a desvalorização das aplicações que estavam sediadas em offshores, os clientes poderão perder mais de 480 milhões de euros.

Segundo Luís Miguel Henrique, representante da Associação de Defesa dos Clientes do BPP, "em função dos últimos extractos enviados aos clientes, as perdas médias rondam os 40%". Feitas as contas, os cerca de 1200 milhões de euros entregues pelos clientes ao banco, e que foram aplicados nos produtos de retorno absoluto, valem agora pouco mais de 700 milhões.

Se os clientes optarem por liquidar os activos após a troca, as perdas podem ainda ser maiores, já que o preço da venda será mais baixo. Aliás, Luís Miguel Henrique acredita que "será difícil convencer os clientes que têm o dinheiro aplicado em activos de que desvalorizaram menos a assumir as perdas médias". Uma situação decorrente da troca de títulos.

Mesmo conhecendo os argumentos, Teixeira dos Santos não cedeu, e sublinhou com clareza: "Não vejo justificação para que devam ser os contribuintes a substituir o banco da responsabilidade que resulta da garantia absoluta", afirmou no final do Conselho de Ministros.

Os clientes poderão também recorrer ao Sistema de Indemnização aos Investidores, mas este pagará é de no máximo 25 mil euros por pessoa.

Sobre o futuro do BPP, o ministro assumiu que "não há risco sistémico", pelo que "não há um interesse público" do Estado. A dona do BPP, a Privado Holding, já assumiu que está a trabalhar num novo plano.

ADÃO QUIS PAGAR AS POUPANÇAS

A administração do BPP, liderada por Adão da Fonseca, considera em comunicado que a solução anunciada pelo Governo "carece de um intenso trabalho por parte do banco", mas reafirma que será concretizada "no mais curto espaço de tempo possível".

O banco recorda as duas propostas de pagamento a curto prazo aos clientes que foram rejeitadas pelo Executivo e sublinha que "sempre reconheceu aos clientes do retorno absoluto o compromisso de lhes pagar o capital investido". Para isso, fez provisões nas contas de 2008.

SAIBA MAIS

RETORNO ABSOLUTO

Os clientes que investiram no retorno absoluto acreditavam que estavam a fazer depósitos.

82

As aplicações do retorno absoluto estão distribuídas por 82 veículos offshore.

450

O Estado prolongou por seis meses o aval ao BPP, ao qual cedeu um empréstimo de 450 milhões.

DEPOSITANTES REVOLTADOS COM A DECISÃO DO GOVERNO

Os clientes do BPP estavam ontem muito revoltados com a decisão anunciada pelo ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. Em frente à sede do banco, em Lisboa, Paulo Jorge, membro da Associação de Defesa dos Clientes do BPP, afirmou estar bastante "intranquilo" com a solução encontrada pelo Governo, já que "os depósitos não estão garantidos na totalidade".

Carlos Cardoso, cliente do banco que será hoje recebido em Bruxelas pelo director da unidade das Instituições Financeiras da Comissão Europeia, Elemér Terták, afirma que "os clientes do BPP estão a ser tratados como portugueses de segunda", ao não terem o mesmo tratamento que os clientes do BPN, e deixa um aviso: "Isto vai ter um fim trágico."

Ao contrário do ministro das Finanças, que mostra confiança no sistema financeiro português, Carlos Cardoso deixa o alerta aos portugueses para que consultem os produtos que têm nos bancos, pois, na sua opinião, "a Banca em Portugal está de tanga".

Outro cliente que demonstrou indignação foi Artur Barreto, ex--emigrante que diz já ter contactado muitos portugueses a viver no estrangeiro avisando-os para não porem as suas economias em Portugal. Isto porque ele próprio está "bastante arrependido" de ter depositado as poupanças no País.

Os clientes estiveram ontem reunidos com Teixeira dos Santos e ouviram as explicações do ministro, mas admitem manter o protesto na sede do BPP.

NOTAS

RENDEIRO: RECUSA COMENTAR

O fundador e antigo presidente do Banco Privado Português João Rendeiro, contactado pelo ‘CM’, escusou-se a comentar a decisão do Governo,referindo que se encontra no estrangeiro.

CRIMES: AUTORIDADES DETECTAM

As autoridades detectaram uma série de irregularidades, como operações fictícias e falsificação contabilística, que podem constituir a prática de crimes na actividade do BPP.

GOVERNO: NOVA LEGISLAÇÃO

O Governo vai permitir que o Fundo de Garantia de Depósitos possa prestar apoio financeiro ao Sistema de Indemnização aos Investidores para que os clientes do BPP possam ser ressarcidos.

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