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Correio da Manhã

Economia
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CORRIDA AOS CARROS DE LUXO

O sector automóvel está em crise. As marcas queixam-se da quebra das vendas que, segundo os números divulgados recentemente pela Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP), registam uma diminuição da ordem dos oito por cento nos primeiros cinco meses do ano.
27 de Agosto de 2002 às 21:28
Mas o que é verdade para os carros de baixa cilindrada, não se aplica de todo aos chamados “topos de gama”. Os automóveis que custam mais de 30 mil contos vendem-se como nunca, e os modelos mais exclusivos (e mais caros) estão esgotados.

Existe mesmo quem manifeste o desejo de comprar um automóvel antes do modelo estar totalmente concebido, e quem visite, insistentemente, os ‘stands’ perguntando se o carro encomendado “já chegou".

Portugal é um excelente País para as “encomendas cegas”, surpreendendo mesmo os representantes das marcas quando são definidas as quotas de viaturas que cabem a cada país.

Vamos tomar o exemplo da marca Mercedes. Segundo os números da ACAP, o ano passado foram vendidos até Julho, 6.637 automóveis. No período homólogo deste ano foram vendidas 7.664 viaturas. Em média, foram comprados mais de 36 Mercedes por dia.

A marca alemã é um bom exemplo para ilustrar o entusiasmo dos portugueses por carros do último modelo. O Mercedes SLR, um carro que ainda não está a ser produzido, já tem no nosso País 30 intenções de compra. Estamos a falar de um automóvel que ainda nem sequer tem definido o seu preço de venda ao público. Segundo especialistas do sector, se o Mercedes SL 500 custa 30 mil contos, “o SLR sendo um carro de produção limitada deverá custar entre os 50 e os 60 mil contos”.

Responsáveis da marca adiantaram ao CM que as previsões de vendas para este ano “já foram ultrapassadas”.

A Porsche também tem tido um excelente ano. Se até Julho de 2001 tinha vendido 88 carros, até ao mês passado já tinha vendido 96 automóveis, um crescimento de 9,1 por cento.

O novo Porsche SUV, recentemente apresentado na Alemanha, já está a despertar o interesse dos compradores nacionais. Existem já 30 viaturas encomendadas dos modelos Cayenne S e Cayenne Turbo. O preço de venda ao público varia entre os 19 e os 27 mil contos.

O País das 'encomendas cegas'

Em Portugal existem vários clientes adeptos das chamadas “encomendas cegas”. Estamos a falar de intenções de compra (muitas delas já sinalizadas) em relação a modelos que ainda não se encontram em produção comercial. O caso típico deste tipo de encomendas é o que se passa actualmente com o Mercedes SLR. Estamos a falar de um carro que terá uma produção muito limitada, mas que já tem várias dezenas de interessados no nosso País.

Existem compradores que chegam a dar mais do que uma ordem de compra para os últimos modelos dos topo de gama, e ficam à espera do primeiro a ser entregue.

Existem os mais fanáticos que largam os ‘stands’ e que desesperam por um catálogo que lhes dê uma ideia do carro que já mandaram comprar.

Claro está que não estamos a falar de qualquer tipo de clientes. Falamos de pessoas sem problemas económicos para quem a manutenção de um carro de 60 mil contos, nada pesa no orçamento familiar.

‘Queda não é visível’

O presidente da Associação Nacional das Empresas de Comércio e Reparação Automóvel (Anecra) considera que as vendas de automóveis topo de gama não estão a disparar. Ferreira Nunes defende que, tal como nos utilitários, também existe um abrandamento nas vendas dos veículos de gama alta, só que, neste sector, a quebra não é tão visível.

“Em situação normal, as vendas de carros, para além dos utilitários, não têm grande visibilidade a nível anual, daí que o abrandamento nas vendas dos automóveis da chamada gama alta não seja muito visível”, explica, em declarações ao CM.

A grande queda nas vendas verifica-se a nível nos utilitários e é explicada, segundo diz o presidente da Anecra, “pela força do Imposto Automóvel (IA)”.

Para Ferreira Nunes, o IA é mesmo responsável pelos altos níveis de sinistralidade registados no País. Na sua opinião, o imposto “obriga a grande maioria das pessoas a comprarem carros citadinos, que não têm condições para andar a 160 ou 180 à hora nas auto-estradas, mas que andam”.

Segundo o presidente da Anecra, as reuniões com o Governo sobre a revisão do IA terminaram quando o PS deixou de governar e até hoje não houve qualquer encontro com membros do Executivo de Durão Barroso.

“É politicamente incorrecto estar a falar nesta altura numa revisão do IA, dada a situação das finanças e, por isso, não houve qualquer reunião com este Governo”, frisa o responsável.
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