Barra Cofina

Correio da Manhã

Economia
4

Crash aterroriza Bolsa

A Bolsa de Lisboa viveu ontem o seu pior dia desde Outubro de 1998: por causa dos receios do abrandamento da economia europeia, dos riscos do mercado do crédito e da menor liquidez financeira dos bancos, a Bolsa portuguesa caiu 5,83 por cento, a maior queda depois dos 9,14 por cento registados no início de Outubro de 1998 e dos 4,46 por cento ocorridos após os atentados terroristas em Nova Iorque em Setembro de 2001, e o pânico apoderou-se mesmo de alguns investidores.
22 de Janeiro de 2008 às 00:00
Em 15 sessões em 2008, o PSI 20 já regista uma perda acumulada de 16,87 por cento, terceira maior da Europa.
O abrandamento da economia mundial, ainda uma consequência da crise que marca o mercado imobiliário nos Estados Unidos, parece ser a causa principal da queda acentuada que ontem marcou todas as Bolsas europeias, que registaram quebras entre cinco e oito por cento. Para haver um crash bolsista, é necessário, segundo os especialistas dos mercados financeiros, ocorrer, pelo menos, uma de duas condições: uma queda entre cinco e dez por cento e venda de acções estimulada pelo sentimento de pânico, condições que estiveram ontem presentes na Bolsa portuguesa, na análise de João Queiroz, especialista da J. L. Carregosa (ver entrevista).
Com uma descida de quase seis por cento, o PSI 20 fechou a sessão com 10 823 pontos, um valor igual ao registado em 11 de Dezembro de 2006. E, não menos grave, todos os títulos do PSI 20 registaram descidas, com a Banca a ser o sector mais penalizado. O BCP, por exemplo, caiu 12,23 por cento, para ficar a níveis de Junho de 2005.
Com o aumento dos receios de um abrandamento da economia europeia e norte-americana em 2008, João Queiroz admite que a actual situação nas Bolsas “dependerá dos resultados trimestrais das empresas dos Estados Unidos e europeias”. Segundo este especialista, “no global, todos os investidores que têm apostado nos títulos do PSI 20 são mais penalizados”, ainda que “a deslocalização dos investimentos para produtos como warrants e mercado de futuros permita amenizar as perdas nas acções”.
Ontem, o primeiro-ministro desvalorizou os efeitos da queda da Bolsa no sector financeiro. José Sócrates frisou que hoje “os fundamentos do sector bancário são mais sólidos”. E, apesar de o Governo manter o optimismo para o crescimento económico em Portugal em 2008, António Borges, vice-presidente da Goldman Sachs International, considera que não há razões para um “pessimismo excessivo”, mas alertou que, “quando todo o Mundo está a abrandar, é inevitável [que a economia portuguesa seja também afectada]”.
Por isso, António Borges admite que “é provável que haja alguma desaceleração, mas não uma catástrofe”. E, se assim for, as Bolsas serão também afectadas.
"NOVO ARRANQUE", DIZ MINISTRO
O ministro das Finanças considerou ontem, em Bruxelas, que as quedas nos mercados financeiros já eram “de alguma forma esperadas” e significam uma “clarificação” que poderá traduzir-se num “novo arranque”. Teixeira dos Santos não ficou surpreendido com a “reacção dos investidores” à divulgação em 2008 dos resultados negativos dos bancos envolvidos na crise no mercado de crédito imobiliário de alto risco nos Estados Unidos. E frisa que à medida que desaparecem as “incertezas” sobre quais são as entidades e os montantes das perdas, isso também significa uma “clarificação para o mercado”. “Podemos ter um novo arranque agora com informação um pouco mais clara e com menos incertezas quanto a essa realidade que era a exposição e o montante dos prejuízos que esses bancos podiam registar”, afirmou o ministro.
DISCURSO DIRECTO
"HOUVE PÂNICO DURANTE A MANHÃ", João Queiroz, director da J. L. Carregosa
Correio da Manhã – A Bolsa teve hoje [ontem] uma forte queda. Foi um crash?
João Queiroz – Estamos num período de crash faseado. Temos vindo a fazer algumas desvalorizações continuadas em espaços mais dilatados no tempo, sem um prazo para terminar essa desvalorização, ao contrário do que era habitual.
– Chegou a existir pânico na Bolsa de Lisboa?
– Ao nível da confiança dos investidores, houve, durante a manhã, algum pânico. À tarde, libertou-se a sensação de pânico, porque existem activos, como o mercado de futuros e as warrants, que permitem amenizar as descidas excessivas.
APONTAMENTOS
TOP 5 DAS QUEDAS
A forte queda na Bolsa colocou no vermelho todas as acções do PSI 20, em particular estas: a Soares da Costa caiu 14,7%, para níveis de 2007; o BCP teve uma queda de 12,23%, para níveis de 2005; a Jerónimo Martins desceu 8,23%; o BES sofreu uma descida de 8,2%, para níveis de 2006; e a Portucel caiu 7,22%, para níveis de 2006.
13,7 MIL MILHÕES
Com a queda de 16,87 por cento do PSI 20 desde o início de 2008, o valor das empresas já caiu cerca de 13,7 mil milhões de euros. Neste âmbito, a descida mais acentuada pertence à Sonae SGPS, de 40,4 por cento.
RESULTADOS DO BCP
O BCP vai apresentar a 19 de Fevereiro, após o fecho do mercado bolsista, os resultados relativos à sua actividade económica em 2007.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)