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Correio da Manhã

Economia
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Créditos renegociados

O aperto que se vive nas explorações agrícolas, com as contas a baterem e os agricultores com sérias dificuldades em pagá-las, está a obrigar a negociações mais intensas com as instituições bancárias.
19 de Março de 2005 às 00:00
Diariamente a serem abordadas pelos seus associados, algumas das associações de agricultores do Alentejo não param e lutam pelo decréscimo das taxas de juro. Ricardo Antunes, presidente da Associação de Agricultores de Mourão, vai avançar com estas negociações “dentro de dias”. António Sebastião, dirigente da Associação de Agricultores de Serpa, já iniciou as démarches.
“É necessário estabelecer protocolos com os bancos com vista à redução dos juros que os nossos associados pagam. Mesmo que seja uma redução de meio ponto percentual, ainda que baixa, será bem recebida”, explicou António Sebastião.
Alguns casos de possíveis hipotecas a propriedades dentro de poucas semanas são falados entre os agricultores. Na zona de Mourão, Granja e Luz, “isso já se ouve falar por alto mas desconheço casos concretos”, afirmou Ricardo Antunes. Bem concretas são, por seu lado, “as elevadas dívidas a fornecedores, nomeadamente aos de farinhas e rações”, garantiu.
Sem notícias de chuva para os próximos tempos, os agricultores defendem-se não avançando com as culturas de Primavera/Verão. Segundo Ricardo Antunes, cerca de 80 por cento dos agricultores da sua zona não vão realizar as próximas sementeiras se não chover dentro de 15 dias. Na região, o girassol, o melão e o tomate são as principais culturas de Primavera/Verão.
“As culturas de Inverno estão já perdidas e as pessoas têm receio de avançar. É que, se o fizerem e lhes faltar a água, já muito dinheiro foi gasto, nomeadamente em sementes e adubos”, disse.
Com a barragem de Alqueva bem perto das suas propriedades, os sócios da Associação dos Agricultores de Mourão anseiam pelo termo das conversas desta organização com a EDIA, com vista a poderem retirar água da albufeira.
“Está tudo no bom caminho, mas mesmo que obtenhamos a autorização, como tudo indica, poucos proprietários vão poder usufruir daquele bem, pois a maioria não tem o equipamento necessário para puxar a água da barragem e adquiri-lo traduz-se num investimento avultado”, acrescentou Ricardo Antunes.
Na zona de Serpa e Mértola as terras por trabalhar são também muitas. Também ele agricultor, António Sebastião garante que dos cinco tractores que possui só um está a trabalhar e é a reunir o que resta de alguma rama, para queimar. “O ano passado estavam todos no campo”.
COVILHÃ MANTÉM PREÇO DA ÁGUA
Um grupo de moradores na Covilhã reclamou ontem a redução do preço da água de consumo público, mas o presidente da Câmara Municipal disse que não haverá qualquer alteração e considerou a situação grave por causa da seca.
“Com o cenário de seca que se vive no País, não haverá qualquer alteração ao tarifário”, disse o autarca, Carlos Pinto, lembrando que nas últimas semanas o município investiu 175 mil euros em novas captações e filtros especiais para manter o abastecimento ao concelho e garantir a qualidade da água.
Os moradores não se conformam com esta decisão e ontem, aproveitando a reunião do executivo, entregaram três mil postais, em duas caixas embrulhadas em papel decorativo, a reclamar a redução do preço da factura bimensal dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento.
“Quando há seca aumenta-se o preço da água e quando há enxurradas por causa da chuva porque razão não se baixa o preço?”, questiona Mariana Morais, porta-voz do grupo de consumidores, frisando que “os covilhanenses sempre pouparam a água por consciência e necessidade”, mas “com salários de 350 a 400 euros por mês, para já não falar nos desempregados, quem não poupar água não tem dinheiro para o pão”.
Em Dezembro, Carlos Pinto tinha prometido “elevar a abrangência do escalão base de três para cinco metros cúbicos tendo especial atenção a famílias numerosas e com menores rendimentos”, mas ontem disse que agora a preocupação “é que não falte a água nas torneiras”.
NOTAS
IMPACTO NO PIB
A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) alertou ontem para o facto de a seca poder custar entre 2 e 3 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).
ABELHAS MORREM
Os apicultores do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina estimam ter perdido, nos últimos meses, devido à falta de chuva e ao frio, mais 30 a 40 por cento de abelhas do que é normal em anos anteriores.
CATÁSTROFE NA GUARDA
O distrito da Guarda vive já uma situação “catastrófica” na agricultura devido à seca, alertou o presidente da Associação dos Agricultores da Guarda.
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