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Correio da Manhã

Economia

Crise no império do dentista milionário Paulo Maló: "Vou recomeçar"

O Grupo Maló vai pagar 27 milhões de euros em 10 anos, de uma dívida superior a 70,8 milhões.
Marta Martins Silva 20 de Outubro de 2019 às 01:30
Paulo Maló
Paulo Maló FOTO: Direitos Reservados
Paulo Maló, de 58 anos, fundou há 25 aquele que viria a ser o maior grupo português de Medicina Dentária, um império que está desde agosto entregue à Atena Equity Partners, um fundo de capital de risco, e do qual o dentista se prepara agora para sair sem fama nem fortuna pela porta pequena. A história de vida do homem que nasceu em Angola e por duas vezes viu a família perder tudo é hoje contada na revista ‘Domingo’, cuja edição fechou antes de Paulo Maló regressar a Portugal (encontrava-se a fazer cirurgias na China) e poder dar esta entrevista.

CM - Como chegou a Malo Clinic a uma dívida de 70 milhões de euros?
Paulo Maló - Não há dívida de 70 milhões, os 70 milhões são todas as faturas que estão por pagar dos quais cerca de 50 milhões são de um empréstimo ao BES que transitou para o Novo Banco. Sempre foram pagos os juros, o que não foi pago foi a amortização porque na altura da crise foi combinado com o antigo BES que, desde que pagássemos os juros, a amortização seria perdoada até estarmos em condições de pagar e a nossa proposta seria começar a pagar em 2020. E o resto são dívidas correntes, os consumíveis, com um plano de pagamento… Quando se mete um PER [Processo Especial de Revitalização] todos os credores dizem quanto a empresa deve, mesmo os que enviaram o produto anteontem. E a Malo Clinic fatura 30 milhões por ano. Se quem ganha 5 mil euros pode comprar uma casa de 100 mil euros, porque é que a Malo Clinic, que fatura 30 milhões, não pode ter uma dívida de 50 milhões? Se não houvesse fundo de resolução, nunca o Novo Banco ia fazer este negócio. A Malo Clinic nunca deveria fazer um PER, sempre pagou aos credores. O fundo que comprou a Malo Clinic também só começa a pagar ao banco daqui a dois anos.

- Como é que lidou com o afastamento da empresa?
- O que aconteceu foi que eles [o fundo Atena] queriam que eu ficasse em Portugal apenas nas cirurgias mais complicadas e na parte da educação e que, durante três anos, não lhes fizesse concorrência, para eles poderem vender a empresa rapidamente. Mas eu não aceitei ficar três anos sem trabalhar sem ter uma compensação. Para não fazer concorrência em Portugal eu tinha de ser pago, então disse para me darem o equivalente às dívidas que tenho de créditos da empresa, cerca de 2,8 milhões de euros. Como não chegámos a acordo sobre esse montante da compensação, acabou! Cada um vai à sua vida.

- Mas como é que a empresa chegou a este ponto?
- Eles, na verdade, não estão interessados na Malo Clinic, mas numa compra de ações porque o Novo Banco entendeu que é melhor vender ao fundo Atena do que a mim. Nós sempre recusámos o PER porque a Malo Clinic não tinha necessidade. O que acontece é que a empresa demora tempo a pagar, e houve um período de oito anos decorrente da crise… Mas até já tínhamos isso corrigido.

- Qual é o seu papel agora?
- O meu papel neste momento é zero, é nada. Hoje [sexta-feira] fiz a última cirurgia da Malo Clinic. Mas vou-me embora. Acabei a minha relação com os donos da Malo Clinic, não quero ter relação nenhuma com eles, não merecem. Eu saio, eles continuam com a Malo Clinic em Portugal. Vou entregar o meu escritório no final do mês e vou recomeçar a minha vida, não tenho medo.

- O que vai fazer?
- Vou continuar a trabalhar, sou dentista e vou fazer as minhas clínicas em Portugal, vou reconstruir o que me foi tirado, vamos competir e depois vamos ver quem vai ter sucesso.
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