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Correio da Manhã

Economia
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Crise seca crédito e sobe juros

Impacto da tragédia grega nos bancos dita agravamentos. Banqueiros ameaçam com aumento dos custos dos empréstimos. Dinheiro mais escasso e mais caro.
29 de Abril de 2010 às 00:30
Merkel reforçou apoio da Alemanha no apoio à Grécia e tranquilizou investidores
Merkel reforçou apoio da Alemanha no apoio à Grécia e tranquilizou investidores FOTO: Tobias Schwarz/ Reuters

A pressão que a crise grega está a colocar sobre a economia portuguesa já se faz sentir no estrangulamento do crédito a empresas e no aumento dos encargos das famílias com os serviços do sector bancário.

O inquérito do Banco de Portugal aos bancos sobre o mercado de crédito revela que nos primeiros três meses do ano 'o aumento do grau de restritividade [na concessão de empréstimos] foi mais intenso do que no trimestre anterior e concentrou-se, por um lado, no crédito a longo prazo e, por outro, no segmento das PME'. As empresas já não pedem crédito para investimento, mas antes para financiamento de stocks, fundo de maneio e para 'reestruturação da dívida'. Nas condições contratuais, há 'um aumento das garantias exigidas, uma redução da maturidade dos empréstimos concedidos e um aumento das comissões e outros encargos não relacionados com as taxas de juro', relatam os bancos à autoridade monetária.

O cenário é reconhecido pelo presidente do BCP, que ontem sublinhou que 'os tempos do crédito fácil e barato já não existem'. Carlos Santos Ferreira admitiu que nos últimos meses 'as comissões [cobradas aos clientes] têm vindo a subir sustentadamente e acreditamos que esse será o caminho'. E reconheceu também que recentemente todos os bancos 'fizeram 3 a 4 ajustamentos para baixo dos depósitos'. 'A margem financeira tem de crescer', sublinhou. Ontem, em Coimbra, Fernando Ulrich, presidente do BPI, admitiu que 'a manter-se assim [o actual cenário] o crédito à habitação vai ficar mais caro'.

PORMENORES

CONVERSA

O ministro alemão da Economia vai parar esta semana em Portugal para conversar com o Governo. De visita a S. Paulo, Rainer Bruederle sublinhou que Portugal não é comparável com a Grécia.

DESVALORIZAR

Strauss-Kahn, do FMI, disse ontem, em Berlim, que 'não se devia acreditar demais' nas agências de rating. E que se o problema grego não ficar resolvido a crise pode ser ampliada a toda a Europa.

LEHMAN

A chanceler alemã, Angela Merkel, sublinhou ontem que não podemos correr o risco de a Grécia se tornar num outro Lehman Brothers, o banco que faliu em 2008 e desencadeou a crise financeira.

ALEMANHA ACALMA OS MERCADOS

A chanceler alemã, Angela Merkel, voltou ontem a afirmar que o seu país ajudará a Grécia, numa declaração que acalmou os mercados. Após dois dias de quedas intensas o PSI 20 viveu ontem uma sessão de altos e baixos, e apesar de ter encerrado no vermelho (a recuar 1,89%) a desvalorização não foi tão acentuada quanto nos dias anteriores. Em Espanha, país que também viu o rating ser cortado pela S&P, o IBEX caiu 3%.

DISCURSO DIRECTO

'A PALAVRA CHAVE É EXECUTAR', Carlos Santos Ferreira, Presidente do BCP

Correio da Manhã – Qual o impacto do corte do rating da República?

Santos Ferreira – A descida do rating tem impacto no preço e na capacidade de recorrer a financiamento. Isso obviamente impacta nos resultados dos bancos, na vida das empresas e na das pessoas.

– O rating do BCP também sofreu um corte. Está preocupado?

– Os ratings são como chapéus, há muitos. Não é um factor que nos preocupe particularmente

– Hoje [ontem] o BCP já teve dificuldade em se financiar?

– Vai haver dificuldade em aceder à liquidez, mas não acredito que vamos entrar numa crise de liquidez. Ainda hoje [ontem] o banco foi ao mercado e conseguiu obter umas dezenas de milhares de euros sem problemas.

– 0 Governo devia fazer mais?

– A palavra-chave é executar [o PEC]. É necessário executar o que se pensou, não vamos inventar mais coisas.

– Estamos a ser atacados?

– Se os mercados nos estão a atacar é porque nos pusemos a jeito.

PREÇO DO PÂNICO

ANTÓNIO MEXIA, PRESIDENTE DA EDP

No pico da crise, em dois dias de quedas bolsistas até ao início da sessão de ontem, a EDP perdeu mais de 800 milhões de euros.

FERREIRA DE OLIVEIRA, PRESIDENTE DA GALP

A Galp viu a sua valorização em Bolsa perder 800 milhões de euros em dois dias de pânico no mercado até ao início da sessão de ontem.

FERNANDO ULRICH, PRESIDENTE DO BPI

Os três principais bancos cotados sofreram com o pânico e perderam um total de 1,28 mil milhões. O BPI vale menos 176 milhões de euros.

RISCO DOS BANCOS SOBEM

O custo dos seguros que cobrem o risco de incumprimento da dívida, os chamados CDS, de BPI, BES e Caixa Geral de Depósitos duplicaram em pouco mais de dois meses. O risco do BCP está lá perto.

De acordo com os dados da CMA Datavision, BPI, BCP, BES e CGD viram o prémio dos seguros contra o incumprimento da sua dívida duplicar desde 17 de Fevereiro.

Os CDS a cinco anos da dívida do BPI subiram 1,24% daquele dia até ontem, de 123 para 247,3 pontos. O BCP, que ontem apresentou lucros de 96 milhões de euros no 1º trimestre, viu os CDS a cinco anos subirem 2,039%, de 211,8 para 415,7. No BES, subiram 232,8 pontos--base, de 219 para 451,8 pontos. No caso do banco detido pelo Estado, a CGD, o custo dos CDS a cinco anos subiu 2,02%, de 171,7 para 374 pontos-base.

ALEGRE: REGRAS NA UE

O candidato presidencial Manuel Alegre defendeu ontem uma definição de regras na União Europeia e uma mudança de atitude da Alemanha

HORTA: CORTE DE SALÁRIOS

O presidente da AICEP, Basílio Horta, defendeu cortes nos salários da Função Pública e no 13.º mês e uma subida do IVA para reduzir a despesa pública

SOARES: DESGOVERNAÇÃO

O antigo presidente da República Mário Soares considerou ontem que o apoio do PSD nesta matéria não deve abranger uma solução governativa conjunta

GUTERRES: 'CLAREZA'

O ex-primeiro-ministro António Guterres considerou em Bruxelas que tem faltado 'clareza' à Europa na forma de lidar com a crise financeira e económica

EURONEXT: COESÃO SOCIAL

O presidente da Euronext Lisboa, Miguel Athayde Marques, considerou que Portugal só sairá da crise se houver 'coesão, não só política, como social'

 

DISCURSO DIRECTO

'O PAÍS ESTÁ A REAGIR E NÃO A ANTECIPAR-SE', Bagão Félix, Ex-ministro do Trabalho e das Finanças

Correio da Manhã – Como viu o acordo anunciado entre o PSD e o Governo?

Bagão Félix – É um acordo generalista, com pouca substância. Não deixou de ser uma reunião simbolicamente importante. Agora não deixa de ser curioso que o primeiro-ministro tenha vindo afirmar que as medidas apresentadas na semana passada, no Parlamento, vão ser debatidas, quando o ministro da Economia afirmou na altura que essas medidas eram uma mão cheia de nada.

– A reunião foi, porém, um sinal para os mercados financeiros?

– É, sem dúvida, um sinal importante, embora haja aqui um problema – o País está a reagir e não a antecipar-se. Veja-se o caso da Irlanda que é mais grave que o nosso, mas ninguém fala dele, porque agiram antes que alguém lhes dissesse o que fazer. Os mercados estão atentos ao rigor das medidas e à capacidade de as tornar efectivas.

– O que foi feito de errado?

– Não se pode num dia viabilizar o PEC e no dia seguinte anunciar grandes investimentos. Às vezes, mais que as medidas são as atitudes e a coerência e nessa matéria Portugal tem sido um desastre.

– As medidas anunciadas para o subsídio de desemprego terão um impacto significativo?

– Sim, o subsídio de desemprego custa ao Estado cerca de dois mil milhões de euros, para além de que quem não trabalha também não desconta IRS e Segurança Social. Se juntarmos estas três componentes ascende a três mil milhões de euros. São medidas financeiramente fortes. O princípio da percentagem a ser aplicada sobre o salário líquido também é o mais correcto. Sobre o bruto acabaria por se receber quase o mesmo.

– Não se deveria intensificar a fiscalização sobre o Rendimento Social de Inserção (RSI)?

– Sobre o RSI e sobre as restantes prestações sociais. É preciso prevenir a fraude. Há que mudar a lei.

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