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Correio da Manhã

Economia
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DIRECTOR-GERAL SOUBE A 2 DE DEZEMBRO

Francisco Carmo Reis, ex-director-geral de Veterinária, soube dos primeiros resultados das análises positivas de nitrofurano a dois de Dezembro. Diz que o secretário de Estado Adjunto e das Pescas foi informado, “por volta de 20 de Janeiro”.
8 de Março de 2003 às 00:05
Francisco Carmo Reis
Francisco Carmo Reis FOTO: José Pedro Tomaz/Focus
Correio da Manhã - Enquanto director-geral de Veterinária, quando é que soube dos resultados das análises ao nitrofurano?
Francisco Carmo Reis - Eu não tive conhecimento do resultado global das análises. A única informação que tenho é datada do dia 2/12/02 e refere a positividade de 18 frangos, cinco codornizes e um suíno.

Quando soube destes resultados, informou o ministro da Agricultura?
- Não, não informei, precisamente por entender que não havia dimensão no problema que me levasse a esse tipo de metodologia.

Na altura, ordenou que fossem recolhidas novas análises?
- Não, não especificamente. A metodologia que me foi proposta estava de acordo com o rigor da legislação vigente.

Mas, concretamente, o que é que foi feito?
- Eu não tenho conhecimento do que foi feito, porque não me foi reportado nenhum resultado. Face ao despacho que fiz no dia 3 de Dezembro, deveriam os serviços ter implementado as necessárias metodologias que não só me propuseram, mas que estão de acordo com a legislação. Eu alertei também para o levantamento de processos de contraordenação, que poderiam eventualmente, depois de apurados, servir para o Ministério Público.

Até quando é que permaneceu na Direcção-Geral de Veterinária?
- 30 de Janeiro.

E até essa data não soube de mais resultados das análises?
- Não. E se mais uma vez essas informações levantavam questões que ultrapassavam a rotina normal, deveriam os serviços trazê-las ao meu cuidado.

Como explica esta ineficiência dos serviços?
- Não explico. O ministro já mandou investigar essa situação.

O ministro diz que teve conhecimento das primeiras análises em 28 de Janeiro. Foi o senhor que informou Sevinate Pinto?
- Não. Após a conferência de imprensa em que o ministro culpabiliza o director-geral (de Veterinária) por esta situação, falei com a directora de serviços de Higiene Pública e Veterinária (Guiomar Lopes), que me disse que tinha sido convocada para uma reunião na tutela, por volta do dia 20 de Janeiro, e que informa o secretário de Estado (Frazão Gomes) que nessa altura já existiam 71 casos positivos. A tutela convocou directamente a directora de serviços sem que eu tivesse conhecimento disso. Eu soube disto na terça-feira.

Um número de 71 casos positivos já é alarmante?
- Ajuize por si.

Sente-se responsável por esta crise de segurança alimentar?
- De forma alguma. A informação que me foi fornecida foi avaliada como tal e pela dimensão que tem.

Na terça-feira passada, quando falou com a directora de serviços, ela disse-lhe o nome das empresas?
Não, não me especificou, nem está em causa isso. Não conheço listagem nenhuma.

O que está em causa é a data do conhecimento da situação, o número de casos positivos e a data da sua divulgação?
- E a sua dimensão. O Plano Nacional de Pesquisa de Resíduos faz cerca de 8000 análises por ano, apareceram cerca de 70 casos positivos na média dos últimos cinco anos de substâncias mal utilizadas ou proibidas. E estas situações têm que ser avaliadas em função da sua dimensão. A minha primeira informação, e única, não me permitiu avaliar estar perante uma catástrofe.

O ministro disse no Parlamento que o senhor era psicologicamente incapaz. Quer comentar?
- Não. Esses actos ficam com quem os pratica.

CONSUMO EM QUEDA LIVRE

Desde que o Ministério da Agricultura divulgou os resultados das análises aos nitrofurano, no final de Fevereiro, o consumo de carne de aves entrou em absoluta queda livre. Em apenas dez dias, a procura de carne de frango caiu 70 por cento, lançando a ameaça da falência sobre a avicultura. Para um sector que é provavelmente o mais competitivo da pecuária portuguesa, esta redução do consumo poderá significar o agravar da já preocupante crise social. Os responsáveis do sector já deixaram claro que muitas empresas poderão encerrar e desaparecer postos de trabalho.
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