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Correio da Manhã

Economia
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Entrada à força na Bombardier

Os trabalhadores da fábrica da Bombardier na Amadora têm mantido piquetes de vigilância à porta das instalações, para evitar o desmantelamento das máquinas do sector de robotização. Na manhã deste sábado, pelas 09h30, os técnicos de desmontagem entraram na fábrica, a coberto de uma operação policial com algum aparato.
19 de Março de 2005 às 11:43
De acordo com Manuel Tremoço, representante do sindicato dos metalúrgicos e um dos trabalhadores que esta manhã estava à porta da fábrica, os técnicos contractados para desmontar as máquinas no sector de robotização entraram esta manhã na fábrica. Conseguiram fazê-lo a coberto de uma operação policial, que mobilizou entre 20 a 30 polícias de intervenção, devidamente fardados, e mais alguns à paisana.
O sindicalista explicou que os agentes policiais forçaram a entrada na fábrica, empurrando os trabalhadores e afastando uma carrinha que tinha sido colocada em frente aos portões. De acordo com Manuel Tremoço, os trabalhadores vão agora tentar impedir a entrada na fábrica dos camiões que irão retirar o equipamento desmontado.
Caso não consigam impedir a entrada, vão tentar depois impedir a saída. Mas esta intenção, ressalva Tremoço, deverá manifestar-se sempre evitando confrontos com a polícia. A julgar pela determinação mostrada pelos agentes esta manhã, no regular cumprimento das suas funções, os trabalhadores não vão ter sucesso e as máquinas vão mesmo sair da fábrica. Prevê-se que o desmantelamento possa prolongar-se durante o fim-de-semana. Caso se concretize, os trabalhadores ameaçam manifestar-se junto ao Ministério da Economia, na segunda-feira.
Estão em causa na Bombardier da Amadora cerca de 4 centenas de postos de trabalho. A emprea, com sede no Canadá, quer fechar a fábrica. Os trabalhadores insistem em como a fábrica é viável, para a construção de material ferroviário circulante. O governo anterior (PSD - CDS/PP) não resolveu o assunto.
"TERRORISMO INDUSTRIAL"
O presidente da Câmara Municipal da Amadora, que também esta manhã se deslocou até junto dos portões da Bombardier, acusou a administração da fábrica, a CP (alegadamente interessada em aproveitar as instalações e os trabalhadores) e o governo anterior de "terrorismo industrial".
Joaquim Raposo disse que as referidas entidade agiram de má-fé, sobretudo a administração da fábrica, ao avançar com o desmantelamento quando os trabalhadores têm reunião marcada com a secretária de Estado dos Transportes do novo Governo. A reunião está marcada para as dez da manhã da próxima quarta-feira. Mas, por essa altura, as alternativas já estarão reduzidas, uma vez que a fábrica fica inoperacional sem o sector de robotização em funcionamento, segundo dizem os trablhadores.
PCP LEVA QUESTÃO AO PARLAMENTO
O líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, esteve à porta da fábrica da Bombardier na Amadora e disse que vai levantar a questão na Assembleia da República, já na segunda-feira.
"O primeiro-ministro vai ter de ser confrontado", disse o líder parlamentar comunista, que assim vai aproveitar o debate sobre o programa do novo governo (de maioria absoluta socialista) para discutir o assunto Bombardier.
GOVERNO SURPREENDIDO
O Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações reagiu ao início das operações de desmantelamento de máquinas na fábrica da Bombardier na Amadora indicando, através de comunicado, que já manifestou o seu "forte desagrado" junto do administrador-delegado da empresa. De acordo com o referido comunicado, o administrador-delegado terá respondido não ter poderes para inverter a situação.
A mesma nota do ministério agora tutelado por Mário Lino refere que o novo governo socialista já procedeu a uma análise das diligências governamentais efectuadas até à entrada em funções do actyal Executivo e que concluiu "não existirem quaisquer compromissos firmes, definições de objectivo para o sector público ou linhas negociais orientadas nesse sentido".
Esta denúncia é grave, sobretudo se nos recordarmos que o governo cessante teve este 'dossiê' 'nas mãos' durante cerca de um ano. É uma denúncia que vai ao encontro das declarações feitas esta manhã pelo presidente da Câmara Municipal da Amadora, que acusou o governo cessante de ter desperdiçado um ano apenas a protelar a decisão que se impunha nesta questão.
A nota do ministério da tutela indica que foram já dadas instruções claras à administração da CP, para definir quais os objectivos e métodos negociais que permitam manter em Portugal capacidade para a construção de material circulante ferroviário. A fábrica da Bombardier na Amadora está vocacionada para esse tipo de tarefas. A CP já manifestou interesse nas intalações, mas nada de concreto foi acordado. Hoje mesmo, a administração da CP admitiu à Rádio TSF preferir manter o silêncio, sob o argumento de que não é na praça pública que se fazem negócios.
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