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Correio da Manhã

Economia
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Famílias com RSI são mais que casas

No bairro do Lagarteiro, existem 446 habitações – mas são quase 500 os agregados familiares que vivem
do Rendimento Social de Inserção
7 de Julho de 2012 às 01:00
Margarida Carvalho, de 50 anos, com três netas de um vizinho
Margarida Carvalho, de 50 anos, com três netas de um vizinho FOTO: Nuno Fernandes Veiga

Ulisses já perdeu a conta há quantos anos recebe o Rendimento Social de Inserção. Com cinco filhos, o homem, de 38 anos, não conhece outra forma de vida. Recebe 700 euros por mês, nunca trabalhou e até já esteve preso. Nos bairros do Porto são muitos os que partilham a mesma história. Só no Lagarteiro são mais as famílias a receber RSI do que as casas. Existem 446 habitações, mas quase 500 agregados têm a ajuda do Estado. Isto porque na mesma moradia residem vários beneficiários.

"Há aqui muita injustiça. Há os que precisam mesmo do dinheiro ao fim do mês para comer, mas também há muitas famílias que recebem o rendimento e quando entramos nas suas casas é só luxo. Quem como eu tem de andar a pedir arroz e massa para não passar fome fica revoltado com tudo isto", conta Margarida Carvalho, moradora no Lagarteiro.

O Porto é, aliás, o distrito onde mais famílias recebem RSI. Em Maio, segundo dados da Segurança Social, 38 223 agregados beneficiavam de apoio. A maioria concentra-se, aliás, nos bairros, onde os carros de luxo estacionados à porta e o tráfico de droga feito às claras comprovam que nem todos precisam de ajuda.

"As pessoas fazem de tudo para continuar a receber o rendimento. Quando aqui vêm os fiscais às vezes até tentam mostrar casas que não são as deles", explica um morador do bairro da Pasteleira, onde a maioria do tráfico de droga actualmente se concentra.

Em bairros como o Aleixo e o Cerco há famílias que já recebem rendimento há mais de dez anos. Os mais jovens já não procuram trabalho, seguem o exemplo dos pais e também eles se candidatam a uma vida à custa do RSI.

Revolta com a atribuição dos subsídios

Margarida Carvalho tem 50 anos e sente na pele todos os dias as injustiças na atribuição dos subsídios. "Recebo 182 euros, tenho duas filhas, o meu marido tem uma reforma pequena e eu sou doente. Há quem possa trabalhar, mas vive do crime e recebe muito mais", explica. Todos os dias a mulher assiste à correria dos carros de luxo nas ruas. "É uma revolta muito grande", conclui.

Mais beneficiários em Campanhã

Campanhã é a freguesia do Porto que mais pessoas tem a receber o Rendimento Social de Inserção, isto porque tem também na sua área 14 bairros sociais. Dados do ano passado revelavam que dos 45 mil habitantes, quase 10 mil recebiam o RSI.

Moradores vieram de outro bairro

O fenómeno que leva a que existam mais famílias com RSI do que casas no Lagarteiro deveu-se também à demolição do bairro São João de Deus. Em 2006, muitos moradores mudaram-se para aquela localidade, instalando-se em moradias até então abandonadas.

São cada vez mais os pedidos

Segundo dados da Segurança Social, os pedidos de Rendimento Social de Inserção nos bairros sociais têm aumentado de mês para mês, muito também por causa do crescente desemprego. Em média, cada família ganha 240 euros por mês.

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