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Correio da Manhã

Economia
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FIGOS SECOS COM OS DIAS CONTADOS EM PORTUGAL

A produção de figo seco, em Portugal, tem os dias contados, mas a de fresco continua a apresentar boas potencialidades. Isso mesmo foi referido ao CM por Rui Maia de Sousa, do Instituto Nacional de Investigação Agrária, durante um colóquio sobre a fileira do figo que decorreu em Alcantarilha, no âmbito da I Feira dos Figos Secos e seus derivados, que ontem terminou.
17 de Setembro de 2002 às 20:31
Considerando que, na década de 60, Portugal tinha cerca de 255 mil hectares de figueiras, e que agora apenas dispõe, de acordo com dados do último Anuário Hortofrutícola, de 8 281 ha (no Algarve, em Moura, Torres Novas e Trás-os-Montes) que produzem um total de 5 345 toneladas de figo, e que o País se debate com a concorrência feroz de países como a Turquia, o Egipto e Marrocos, aquele especialista evidenciou o cenário negro que envolve o sector.

"O nosso figo é pequeno, não tem calibre e é produzido em condições não concorrenciais. A mão-de-obra é cara, muitas árvores estão ao abandono e as pragas não são devidamente combatidas.

O figo seco dá para nichos de mercado, mas não é rentável para o produtor em geral. A Turquia, por exemplo, produz 260 toneladas de figos/ano (27% da produção mundial), e poderá entrar na União Europeia a breve prazo. Não vamos conseguir competir com ela, nem em quantidade, nem em qualidade. Daí que queiramos apostar nos figos frescos, sobretudo nos lampos, que amadurecem mais cedo e para os quais temos excelentes condições", adiantou Rui Sousa,dizendo, contudo, haver muita coisa por fazer.

Os maiores exportadores de figo fresco são a Turquia (6000 toneladas, mais de 40% da produção mundial), a Holanda, a Itália, a Espanha e o Brasil, enquanto os principais importadores são a França, a Alemanha, a Holanda, a Áustria, a Bélgica e o Luxemburgo, o Canadá e os Emiratos Árabes.

"Portugal, em 1999, importou 117,8 toneladas de figo fresco, mas só exportou 12 (para França, Angola, Inglaterra e Alemanha) o que quer dizer que, apesar de termos tradição de consumo e produção do fruto, não produzimos o suficiente", sublinhou o especialista, para quem urge "rentabilizar a produção".

"Os figos vindimos maturam de Agosto a Outubro, mas os lampos, cuja maturação ocorre entre Maio e Julho, são os que nos interessam mais, pois somos os primeiros a produzi-los na Europa.

A partir da primeira quinzena de Agosto, contudo, já temos a concorrência da Turquia, pelo que temos de nos antecipar", explicou, adiantado que "os nossos pomares devem ter mais plantas por hectare do que actualmente e mais baixas, por forma a que a apanha dos frutos possa ser feita de pé".

Além disso, "todos os figos devem ser colhidos com o pedúnculo e o fruto deve estar já vendido antes de ser colhido, pois é muito perecível ".

A utilização de embalagens adequadas e a criação de uma marca "que garanta qualidade ao consumidor", bem como a criação de associações de produtores foram outros aspectos destacados por Rui Sousa como sendo "essenciais" para o sucesso do sector.

"Os problemas são vários: não há uma oferta constante de figo fresco, o número de pomares é reduzido, a produção é considerada uma actividade secundária, que utiliza terrenos marginais, há uma tecnologia deficiente de produção - devido à teimosia da generalidade dos produtores, que não fertilizam, não podam e não regam as árvores -, falta organização comercial e estruturas de frio.

Contudo, temos boas condições edafo-climáticas, óptimas variedades, tecnologia avançada (nos centros de investigação e nas direcções regionais de Agricultura) e bons produtores. Falta, por isso, unir esforços para defender a qualidade e obter quantidade, tornando assim mais rentável aquilo que individualmente não o é".
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