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Correio da Manhã

Economia
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Governo e ANTRAM chegam a acordo

O Governo a Associação Nacional dos Transportes Públicos Rodoviários de Mercadorias chegaram, ao final da tarde desta quarta-feira, a um acordo, depois de oito horas reunidos. Uma das principais reivindicações dos camionistas, a criação de gasóleo profissional, não faz parte do acordo.
11 de Junho de 2008 às 20:06
Os camiões continuam parados pelo terceiro dia consecutivo
Os camiões continuam parados pelo terceiro dia consecutivo FOTO: Vítor Mota

Portagens reduzidas, no período nocturno, para os profissionais do sector de transporte de mercadorias; a majoração das despesas de combustíveis para efeito de despesas em sede de IRC, num mínimo de 20%, já em 2009: o valor do ISP inalterado e, nos próximos três orçamentos de Estado manter-se- o imposto de camionagem com os valores de 2007, são algumas das medidas patentes no acordo alcançado.

 

A ANTRAM e o Ministério das Obras Públicas acordaram ainda uma indexação do frete ao custo do aumento dos combustíveis: um prazo máximo de 30 dias para pagamento de facturas aos transportadores – com coimas para os casos de incumprimento; uma forma especial de pagamento do IVA, em vigor já no próximo ano fiscal; apoios específicos para a renovação de frotas e para o abate de veículos em fim de vida; e também subsídios para a formação profissional.

As medidas acordadas entre a ANTRAM e o Governo serão agora transmitidas aos camionistas, que têm a última palavra sobre o fim da paralisação, que vai já no terceiro dia e começa a ter consequências nefastas no País, como a falta de bens essenciais nos supermercados e a falta de combustível nos postos de abastecimento, que põe em risco serviços como os dos bombeiros e os transportes públicos.

PRODUTOS COMEÇAM A FALTAR

Ao terceiro dia de paralisação dos camionistas, o país começou a sentir os reflexos do protesto. Nos supermercados, começam a faltar produtos hortofrutícolas e peixe, principalmente no centro e sul do país, e os combustíveis nas bombas começam a escassear.

O Grupo Jerónimo Martins conseguiu que alguns dos seus camiões transportassem produtos para as lojas, sob escolta policial, mas mesmo assim são insuficientes para abastecer os supermercados. Os fornecedores também não conseguem fazer chegar as suas mercadorias aos pontos de venda. Peixe, carne e vegetais são os alimentos mais escassos, mas se a paralisação se mantiver, mais prateleiras ficarão vazias.

Por outro lado, a produção de leite está já a ser afectada. Os agricultores têm que fazer a recolha diária, mas não conseguem escoar o produto, pelo que mais de 2,5 milhões de litros poderão ir hoje para lixo. Também as rações para os animais começam a escassear. Muitos agricultores já esgotaram as reservas.

Nas gasolineiras, as torneiras começam a ficar vazias. Nas cidades de Évora e Beja, algumas bombas já não têm combustíveis para vender aos consumidores e a situação deve-se agravar nas próximas horas. Também no Algarve, já há registo de falta de produtos petrolíferos.

Na noite de terça-feira, vários camiões foram apedrejados na A17, concelho da Figueira da Foz e Cantanhede. Os incidentes causaram apenas danos materiais, não se tendo registado vítimas. 

Ainda de madrugada, dois camiões foram queimados, um na zona do Porto Alto e outro na Azambuja, pertencentes à mesma empresa. Não há registo de vítimas nestes incidentes.

Já esta manhã multiplicam-se por todo o país os piquetes de greve. Em Santo Antão, Batalha, e noutros pontos do IC2, dezenas de camionistas estão concentrados em piquetes de greve para impedir os colegas de circular. No local está uma patrulha da Brigada de Trânsito da GNR para impedir eventuais conflitos. Os camionistas são mandados parar e persuadidos a aderir à paralisação.  

Mais a Norte, o porto de Leixões, terminal TIR em Matosinhos, portagens e armazéns de abastecimento a hipermercados são alguns dos locais onde os motoristas se concentram para tentar convencer os colegas a aderir ao protesto.

No porto de Leixões, o ambiente está calmo, mas para evitar possíveis conflitos, a PSP do Porto deslocou para um local um efectivo policial. “Temos lá um dispositivo policial para prevenir situações”, afirmou um agente, sem especificar o número de elementos destacados.

A ponte internacional entre Valença e Tui foi cortada ao trânsito no lado espanhol da travessia. Os camionistas colocaram veículos pesados para impedir a passagem e queimaram pneus. A GNR já está no local a desviar os automobilistas.

Em Vila Verde, dois empresários caíram quando tentavam impedir a passagem de uma carrinha e precisaram de receber assistência médica no Hospital de São Marcos, em Braga. Um dos transportadores já regressou ao local, onde se encontra um piquete de greve, mas o colega ainda se encontra a receber tratamento.

Devido às ameaças de represálias por parte dos transportadores, a GNR teve que escoltar as duas viaturas. No entanto, a maioria dos camiões que ali passa acaba por parar, aderindo à paralisação. Os camionistas permitiram que o proprietário de um supermercado local retirasse legumes, peixe e carne de um camião para uma carrinha, de forma a asegurar o abastecimento.

Os camionistas estão em protesto desde segunda-feira e ameaçam continuar paralisados “até que o Governo ceda” e atenda as suas reivindicações. A criação do gasóleo profissional, a harmonia fiscal com Espanha e incentivos à renovação da frota são as principais exigências.

ABASTECIMENTO DE AVIÕES SUSPENSO EM LISBOA

O abastecimento de aviões da ANA, Aeroportos de Portugal, foi suspenso no aeroporto da Portela, em Lisboa, mas até ao momento nenhum voo foi cancelado.

Também a TAP está a abastecer os seus aviões nos pontos de origem, no caso das viagens de médio curso, e a fazer escalas técnicas nos aeroportos do Porto e Funchal, nos voos de longo curso.

Na noite de terça-feira chegaram ao aeroporto de Lisboa apenas 12 camiões cisterna com combustíveis, o que apenas dá para abastecer aviões de emergência, militares e do Estado.

BOMBEIROS PODEM FICAR IMPEDIDOS DE PRESTAR AUXÍLIO

Os bombeiros alertaram que podem deixar de prestar socorro por falta de combustíveis e pedem ao ministro da Administração Interna, Rui Pereira, medidas urgentes para garantir o abastecimento de carburantes. Nalguns concelhos o gasóleo já esgotou e algumas corporações tiveram que abastecer fora da área das suas intervenções.

Os bombeiros pedem aos camionistas que se sensibilizem com o problema, uma vez que as viaturas de socorro, transporte de doentes e podem ficar paradas por falta de combustível.

INEM TEM PLANO DE CONTINGÊNCIA

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) tem um plano de contingência que accionará se faltar combustível para as actividades das ambulâncias. Mas para já as 79 ambulâncias que operam diariamente ainda têm carburante para prestar auxílio.

AGRICULTORES PODEM ASSOCIAR-SE

A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) admitiu que se pode juntar aos camionistas para protestar contra os sucessivos aumentos do preço dos combustíveis, considerando que as reivindicações são as mesmas: gasóleo profissional ao preço de Espanha e custos mais baixos para os factores de produção.

A decisão de protesto ainda não está tomada. Os agricultores esperam as resoluções saídas da reunião entre o Governo e a ANTRAM. 

CDS-PP QUER DISCUTIR ASSUNTO NO DEBATE MENSAL

O líder parlamentar do CDS-PP, Diogo Feio, apelou ao Primeiro-ministro para que escolha o tema da crise dos combustíveis para o próximo debate quinzenal da Assembleia da República, que se realiza amanhã, desafiando-o a apresentar soluções.

Diogo Feio apresentou o exemplo espanhol onde o Executivo apresentou 54 medidas para responder à crise dos combustíveis e lamentou que até ao momento José Sócrates ainda não tenha avançado com nenhuma proposta.

PORTUGUESES RETIDOS EM BURGOS

Dezenas de camionistas portugueses estão retidos em Burgos, Espanha. À semelhança do que acontece em Portugal, os motoristas espanhóis estão em greve, concentrando-se em piquetes de greve para impedir a passagem de pesados de mercadorias. Devido à falta de condições de segurança, os profissionais portugueses preferem ficar parados e não avançar.

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