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Correio da Manhã

Economia
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Greve paralisa comboios no País

Os clientes da CP foram os mais prejudicados pela greve de 24 horas realizada ontem por mais de vinte sindicatos de transportes. Com os metros do Porto e de Lisboa a funcionarem em pleno e a fraca adesão em algumas empresas rodoviárias, o caos concentrou-se nas primeiras horas da manhã e ao final da tarde.
28 de Abril de 2010 às 00:30
Ontem as filas de trânsito na ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa continuavam compactas após a passagem das portagens
Ontem as filas de trânsito na ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa continuavam compactas após a passagem das portagens FOTO: Sérgio Lemos

Os automobilistas perderam mais tempo do que o habitual nos acessos a Lisboa e ao Porto mas ainda assim o trânsito esteve menos complicado do que o previsto pelas autoridades policiais.

A paralisação de comboios, barcos e autocarros impediu milhares de portugueses de chegarem a horas aos empregos, sobretudo os que usam os comboios: de manhã circularam apenas dez por cento dos comboios, em média, em todo o País.

Os serviços dos Alfa e Intercidades foram todos cancelados e a CP chegou mesmo a encerrar, durante algumas horas, as estações da Linha de Cascais, evitando a acumulação de pessoas nos cais.

A Carris teve cerca de 85 por cento da sua frota nas ruas de Lisboa, como tinha antecipado a administração. Neste caso concreto, os sindicatos acusam a empresa de ter ameaçado os motoristas. Também cerca de 24 por cento dos autocarros dos STCP circularam no Porto. Os passageiros da Soflusa e Transtejo, avisados da greve parcial, só compareceram em grande número quando já estavam retomadas as ligações.

A greve 'reflecte o descontentamento dos trabalhadores perante a paralisação da administração colectiva no sector dos transportes', afirmou o líder da UGT, João Proença.

Apesar de reconhecer que a greve no sector provocou 'incómodos', o secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, ressalvou que o Governo não irá ceder às reivindicações dos sindicatos, alegando que o Orçamento do Estado 'não comporta crescimento de custos, como é desejado por muitos Sindicatos'.

CTT GARANTEM QUE FECHARAM TRÊS ESTAÇÕES

A greve contra o congelamento salarial nos CTT decretada para ontem pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT) teve uma adesão de 19,8% dos cerca de 12 mil funcionários da empresa, de acordo com o balanço dos CTT. O sindicato aponta para uma adesão de 77% em 8300 trabalhadores contabilizados até ao final da tarde.

'Em 900 estações de Correio houve três que fecharam. A greve ficou abaixo das expectativas da empresa', disse o porta-voz dos CTT. 'A greve foi muito positiva e amanhã [hoje] vamos rever os números contabilizando mais 4 mil trabalhadores', disse Vítor Narciso, do SNTCT. Convocadas até 21 de Maio e decididas até 7 de Junho vão agora decorrer greves pontuais de carteiros em centros de distribuição postal pelo País.

METRO FOI A OPÇÃO PARA A MAIORIA DOS PASSAGEIROS

Milhares de pessoas no Norte do País foram ontem afectadas pela greve. Durante a manhã, quase todos os comboios que fazem ligação entre as zonas de Braga, Guimarães Aveiro e Porto foram suprimidos. Para a maioria dos utentes a opção foi o metro, que não aderiu a este protesto.

'Esperei durante horas na estação de Ermesinde mas não veio nenhum comboio para o Porto, foram todos suprimidos. Tive de viajar de metro e depois autocarro', disse Tomás Pires, de 19 anos, estudante.

A STCP também aderiu à greve, mas os serviços mínimos foram assegurados.

SANTARÉM: PASSAGEIROS AFECTADOS

José Tanganho e o cunhado, Manuel Taxa, percorreram cerca de 40 quilómetros entre Coruche e Santarém para comprar um bilhete de comboio para o próximo sábado. A intenção era viajar para o Porto na mesma carruagem que os antigos colegas do Destacamento de Intendência 208, que esteve em Angola entre 1961 e 1963, a caminho do almoço anual dos ex-combatentes. Ao chegar à estação, depararam-se com a bilheteira encerrada, o que não esperavam, pois, no dia anterior, falaram-lhe apenas em serviços reduzidos, na linha telefónica da CP. 

“Por um lado, estou solidário com os motivos da greve, que é um direito dos trabalhadores, mas são os utentes que sofrem com isto”, lamentou ao CM José Tanganho, acrescentando que “tendo em conta a crise, talvez esta não seja a melhor altura para fazer greve”. Durante toda a manhã de ontem, só parou em Santarém um único regional, sentido Entroncamento – Lisboa, que levava poucos passageiros. Poucos minutos antes dos habitantes de Coruche chegarem à estação, três agentes da PSP de Lisboa foram obrigados a deslocar-se para Lisboa em transporte próprio.

TAXISTAS FALAM EM CIDADE PARADA

ERNESTO SILVA, TAXISTA

“Vai ser uma semana para esquecer, porque a greve diminuiu muito o número de serviços”.

“Nós dependemos da circulação de pessoas que chegam de fora, sobretudo das que chegam de comboio. Assim, não temos trabalho porque esta cidade não tem movimento interno”.

“Não posso estar solidário porque acho que esta é a pior altura para fazer greve. Se o país está de rastos, é preciso trabalhar mais e aumentar a produtividade, e não ficar em casa”.

LUÍS ALEXANDRE, TAXISTA

“Estamos com uma quebra de serviços na ordem dos 80%. A falta de comboios reduziu muito o movimento habitual da cidade”

“Tirando as pessoas que chegam a Santarém de transportes públicos, sobretudo de comboio, a cidade não tem movimento interno suficiente para justificar a nossa actividade”.

“Estou solidário com quem faz greve, embora nos afecte a todos. É um direito que assiste aos trabalhadores e uma forma de exigirem melhores condições de trabalho”.

PORMENORES

FERTAGUS

A greve na REFER acabou por não afectar a Fertagus, que conseguiu que os comboios circulassem normalmente entre as duas margens do Tejo.

2003

A última greve geral dos transportes que congregou os sindicatos realizou-se em Dezembro de 2003.

REFLEXÃO

O ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, recordou aos sindicalistas a crise económica que vive o País actualmente.

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