Barra Cofina

Correio da Manhã

Economia
6

INVESTIR EM PINTURA SERVE TODAS AS BOLSAS

Ao contrário do que se possa pensar, o investimento em arte não será uma actividade somente reservada aos ricos. O acesso democrático dos diversos segmentos da população ao mercado foi sublinhado no seminário "Investimento em Arte", realizado na Exponor, no âmbito da "PortoArte-2ª Feira de Arte Moderna e Contemporânea".
18 de Maio de 2003 às 00:02
A pintura é, ao mesmo tempo, um prazer e um investimento a médio e longo prazo
A pintura é, ao mesmo tempo, um prazer e um investimento a médio e longo prazo FOTO: Jerónimo Clemente
Na Christie's, célebre empresa leiloeira do Reino Unido, cerca de 80 por cento das operações de compra e venda têm valores de licitação abaixo dos cinco mil dólares (cerca de 4.900 euros). A cifra foi divulgada durante a comunicação de Anthony Streatfeild, cujo tema questionava se é a paixão ou o investimento que motiva a decisão de reunir uma colecção de arte.
A mesma ideia foi enfatizada por Miguel Cabral de Moncada. Na sua alocução, o director da Cabral Moncada Leilões, de Lisboa, considerou que, se não é acessível aos pobres, o mercado de arte "não é só para os ricos". Os dois comunicadores convergiram na premissa de que o investidor mediano não pode ambicionar maximizar no plano imediato ou no curto prazo as suas aplicações financeiras, uma vantagem só ao alcance dos especuladores profissionais. Ambos concordaram que estamos perante um investimento alternativo de grande retorno potencial.
PATRIMÓNIO FAMILIAR
"Investir em arte é um investimento de família, que visa reunir um património capaz de ser legado por herança. Para quem pretenda capitalizar, o tempo mais adequado é o do médio e longo prazo, embora convenha estar atento às oportunidades súbitas e aos efeitos de moda, tendo a clarividência de vender no tempo certo", aconselha Anthony Streatfeild.
Este especialista exemplificou as mudança de humor do mercado com o exemplo do casal Victor e Sally Ganz. Estes coleccionadores adquiriram, no início da década de 40, a Pablo Picasso o quadro "Le Rêve" por seis mil dólares. Anos depois, a tela alcançava a astronómica cotação de 42 milhões de dólares.
Os caprichos do mercado estão igualmente estampados no destino de um quadro da época vitoriana -"Fleming June", de 1890, que após ter atingido cotações elevadíssimas foi vendido em 1930 por 10 libras. A tela, de notável qualidade artística, foi encontrada anos depois numa lixeira. O seu último dono desfizera-se dela, pois pretendia apenas aproveitar a moldura…
"Quem aposte em investir nesta área tem de estar atento a alguns critérios, como seja a qualidade, estado de conservação, proveniência e raridade das obras. A intuição de apostar num jovem talento que acabou de aparecer é também essencial para se ter êxito nesta actividade", teorizou o director da Christie's.
Na óptica de Cabral Moncada, o investidor além de conhecer as regras e modo de funcionamento do mercado, tem de investir, antes de mais, tempo. "Para reunir a sua colecção, Calouste Gulbenkian investiu muito tempo. O investidor, por mais mediano que seja, tem de viajar, visitar galerias bienais, feiras”, sugeriu.
Alicerçado na sua experiência de leiloeiro, Manuel Cabral Moncada realçou a vertente paixão, sem desprezar a componente investimento. Até porque ambas tendem a interagir. Como conselho aos coleccionadores iniciantes, Cabral Moncada sugeriu ser preciso criar um critério, uma linha de conduta.
"Por vezes pode ser mais vantajoso ter uma dezena de obras de valor total de 10 mil euros, do que uma que alcance só por si essa cotação”.
ARTE DE APRECIAR E SONDAR
Os coleccionadores são um dos públicos-alvo deste evento que reúne a nata dos artistas plásticos nacionais. Eduardo Street, 32 anos, viajou de Lisboa para sondar na Exponor a possibilidade de mais algumas aquisições. "Estou aqui, em primeiro lugar como apreciador. Não é todos os dias que podemos admirar tantos Vieira da Silva. É uma oportunidade que nenhum coleccionador de arte pode desperdiçar".
Para além do comprazimento cultural, ele adianta que este fórum artístico permite uma prospecção sobre os valores em jogo no mercado. Mais profissional foi o motivo que trouxe a escultora Filomena Almeida, 28 anos, de S.João da Madeira a Matosinhos. "Vim para observar o que os meus colegas estão criando. Pessoalmente, estou muito interessada na aplicação das novas tecnologias, por exemplo, no domínio da fotografia, realça a artista com a convicção própria de quem acredita que obras de sua autoria marcarão presença numa das próximas edições.
TESTEMUNHOS
JOSÉ SACRAMENTO (GALERIA SACRAMENTO):
"Pagar as despesas, fazer contactos, ganhar alguma coisa". Eis a tríade de objectivos da Galeria Sacramento para esta feira. Sediada em Aveiro, a Sacramento está há quase 30 anos no mercado. Sobre a Porto Arte, os seus responsáveis consideram que após a experiência, piloto do ano passado, o rigor selectivo desta edição, anuncia bons auspícios.
"Comparado com outras aplicações financeiras, o investimento em arte assegura um retorno muito apreciável. Uma tela de um artista de qualidade valoriza entre 10 a 15% por ano, no mínimo", estima José Sacramento.
JOSÉ LUÍS DE LA FUENTE (FUENTE-EL DUCADO)
A El Ducado é uma das galerias estrangeiras presentes na Porto Arte. Segundo o seu director, esta estreia em Portugal visa dar a conhecer o catálogo dos artistas que representa.
"Para além dos negócios e das vendas que possamos vir a realizar, estamos também interessados em conhecer o trabalho de artistas portugueses, para eventual divulgação no mercado espanhol", anuncia José Luís De La Fuente.
José Árias, Carlos Costa e Cármen Castillo são alguns dos pintores em realce no stand da El Ducado, fundada em 1996, em Santander.
FRANCISCO CORREIA (PALETA GALERIA)
O galerista Francisco Correia alardeia um ponderado optimismo quando interpelado sobre o estado dos negócios em arte nesta época de recessão económica.
"Apesar da crise vai-se vendendo pintura, mas também escultura. O equilíbrio sempre se consegue, porque a um dia mau, sucede um dia bom", avalia.
Dispondo de obras de consagrados como Manuel Cargaleiro, Júlio Resende, Maluda, Cruzeiro Seixas ou Graça Morais, este "marchand" insinua a ideia de que é nos momentos de crise que as pessoas investem em bens que aliem a fruição estética à compensação financeira, o útil ao agradável".
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)