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Correio da Manhã

Economia
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Já há desemprego entre os economistas

Francisco Murteira Nabo, Bastonário da ordem dos economistas, faz o exame dos desafios que se colocam aos economistas portugueses.
11 de Outubro de 2007 às 00:00
Já há desemprego entre os economistas
Já há desemprego entre os economistas FOTO: Sérgio Lemos
Correio da Manhã – Qual a responsabilidade dos economistas quando o País enfrenta um ciclo de crise económica?
- Francisco Murteira Nabo – Os economistas têm um papel decisivo num mundo cada vez mais caracterizado pela pressão tecnológica, pela mudança dos hábitos de consumo, pela desregulamentação, isto é por todo o enquadramento que leva à globalização. Aquilo a que chama crise, a questão das finanças públicas, é um problema conjuntural que levou a que o País tivesse dificuldades e afectou o seu desenvolvimento. Portugal não mudou a base tecnológica da sua economia, o que lhe colocou dois problemas: ao não deixar que as finanças públicas estivessem saudavelmente equilibradas atrasou-se em relação aos outros países no que se refere ao conteúdo da economia.
– Então apostámos num mau modelo de desenvolvimento?
– Nos últimos 20, 25 anos, Portugal cresceu, mas não criou sustentabilidade em termos da mudança da base tecnológica da sua economia. Tivemos uma estratégia muito concentrada nas obras públicas, nas infra-estruturas físicas, não apostámos naquilo que é hoje determinante para a criação de valor, que é a qualificação e as tecnologias. Continuamos a ser um país de baixa qualificação e baixa tecnologia, que aposta no crescimento de sectores amadurecidos.
– Já há desemprego entre os jovens economistas?
– Começa a haver. A Ordem dos Economistas agrega os macro e os micro economistas, dois terços dos nossos associados já são da área da gestão, isto é, da micro economia. É aí que começa a haver desemprego. O jovem economista, como o jovem de outras profissões qualificadas, é competitivo. O problema não está aí.
– Quais são as principais dificuldades que os profissionais de economia enfrentam actualmente em Portugal?
– As dificuldades sob o ponto de vista profissional prendem-se com o facto de, cada vez mais, o economista ter uma maior importância, porque cada vez mais a competição assenta na mudança, exigindo decisões económicas permanentes. Esta necessidade vai obrigar à formação contínua ao longo da vida. No futuro, os profissionais competentes serão os que melhor perceberem que a formação é uma questão crítica, fundamental para a sua competitividade no mercado de trabalho, que melhor se adaptarem à mutabilidade e que melhor pensarem em termos internacionais.
PERFIL
Francisco Murteira Nabo nasceu em Évora, em 1939. Licenciou-se em Economia, pelo Instituto
Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), em 1969. Foi ministro do Equipamento Social no XIII Governo constitucional. De 1996 a 2003 foi presidente do conselho de administração da Portugal Telecom. Actualmente é presidente da COTEC e chairman da Galp Energia.
GLOBALIZAÇÃO E MUDANÇA
“Ninguém sozinho resolve problema algum. Temos de arranjar parcerias, ter a noção de que a vida das empresas é feita de produtos e negócios com vida cada vez mais curta. Este é o mundo do economista e estas são as suas questões: internacionalização, globalização, mutabilidade , formação ao longo da vida e empreendedorismo”, diz Francisco Murteira Nabo na véspera da realização do II Congresso Nacional dos Economistas que vai juntar em Lisboa, durante dois dias, o Prémio Nobel da Economia, Edward Prescott, o Presidente da República, o primeiro ministro, o governador do Banco de Portugal e o ministro das Finanças.
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