Apesar de o pão ser um produto alimentar de venda livre, começa a tornar-se insustentável para o sector da panificação o acentuar da diferença de preços que se verifica entre as diversas regiões do País.
Em Portugal uma carcaça custa, em média, oito cêntimos, mas isso não quer dizer, nem de longe nem de perto, que este seja o preço para toda a gente. A diferença é tão grande que o montante que se dispende para adquirir uma carcaça em Lisboa dá para comprar duas em Vila Verde, Amares, Famalicão, Póvoa de Lanhoso, Lamego, Cinfães ou Resende.
A verdade é que estas clivagens em termos de preço de venda ao público, motivadas por uma concorrência feroz que nos últimos anos se instalou no sector, acabam por prejudicar os industriais, que, por vezes, vêem os seus rendimentos reduzidos quase a zero, e o consumidor, que acaba por comer pão de má qualidade.
Carlos Santos, da Associação dos Industriais de Panificação (ACIP), disse ao Correio da Manhã que é urgente que os industriais do sector se unam e estipulem um preço para o pão em todo o País, mas considera que, tal como as coisas estão, é um objectivo quase impossível.
"Infelizmente, o sector da panificação está desunido e algumas pessoas baixam os preços ao ponto de terem prejuízo, só para aniquilar o vizinho do lado", diz Carlos Santos, lembrando que os preços demasiado baixos resultam de cortes no controlo de qualidade e não, como se pensa, na redução do peso da carcaça.
"Cortar na matéria-prima não dá resultado, porque a farinha representa apenas cinco ou seis por cento nos custos de produção. Ora, como não podem poupar na mão-de-obra nem nas despesas de energia, que representam mais de 70 por cento dos custos, os menos sérios acabam, muitas vezes, por não realizar os obrigatórios controlos de qualidade, em que uma padaria média pode gastar mais de 15 mil euros por ano", referiu este dirigente associativo.
Negando que este ano se tenha verificado qualquer aumento do pão, Carlos Santos diz que "o que acontece e que muitas vezes confunde as pessoas é que, em algumas regiões, o pão está muito caro e noutras demasiado barato. E depois, sempre que há aumentos, eles verificam-se onde os preços já são mais elevados, nomeadamente em Lisboa, o que acaba por dar a ideia de que o pão está a preços astronómicos, o que não é verdade".
Para este responsável, o pão até está demasiado barato. "Atendendo aos custos de produção, uma carcaça devia custar dez cêntimos, quando, em Portugal, o preço médio ronda os oito cêntimos", sublinhou.
De resto, o que mais contribuiu para o preço do pão é o custo da mão-de--obra. O industrial João Faria, de Braga, diz que o maior problema do sector é a falta de pessoal, sobretudo de padeiros, "porque isto é difícil e ninguém quer trabalhar de noite".
Hoje, em termos de tabela, um padeiro, já com alguma experiência, ganha 850 euros por mês, mas, atendendo à falta de profissionais, é frequente auferirem um vencimento mensal acima dos mil euros.
Carlos Santos diz que a revista da ACIP tem feito um continuado apelo no sentido de que, por um lado haja "uma certa contenção" dos preços na região da Grande Lisboa e na Covilhã, onde a carcaça custa onze cêntimos, e, por outro, se acabe com "o disparate" de, em certos concelhos dos distritos de Braga e Viseu, venderem o pão a preços tão baixos (cinco cêntimos) que nem sequer dá para as despesas.
30 MILHÕES DE CARCAÇAS COZIDAS POR DIA
Assim como grão a grão enche a galinha o papo, também carcaça a carcaça, o sector da panificação atinge, em Portugal, um volume de negócios anual na ordem dos 1 080 milhões de euros.
E, no contexto da União Europeia, só em Portugal é que podemos falar da carcaça, porque nos restantes países as contas terão de ser feitas 'à medida' do cacete.
A Associação dos Industriais calcula que nas mais de cinco mil padarias existentes no País sejam cozidas, por dia, uma média de 30 milhões de carcaças, o que corresponde ao consumo de três carcaças diárias por pessoa.
Ora, com tudo somado, estaremos a falar de um negócio de três milhões de euros por dia, qualquer coisa como 90 milhões de euros por mês, o que vem a resultar nos tais 1 080 milhões de euros por ano.
Vistas as coisas por estes números, Carlos Santos diz que a panificação já tem uma importância significativa na economia nacional, mas alerta para o facto de não poder dissociar-se a área da pastelaria, na medida em que, hoje em dia, já não há apenas padarias, mas sim padarias e pastelarias.
Assim sendo, embora não haja números certos, porque no que toca à pastelaria a diversidade de preços é bastante maior, calcula-se que o volume de negócios passe pelo menos para o dobro.
CARCAÇA PORTUGUESA
A chamada medida “carcaça” não existe no espaço da União Europeia. Apenas a indústria de panificação portuguesa utiliza aquela medida, nos restantes países a unidade considerada é o “cacete”.
CUSTOS DE PRODUÇÃO
A mão-de-obra e a energia são os principais custos de produção que influenciam o preço final do pão.
QUALIDADE
Desde há seis anos, altura em que foram introduzidos testes obrigatórios nas padarias, a qualidade do pão produzido em Portugal tem vindo a subir. Segundo os especialistas, a qualidade do pão português não deixa nada a dever aos seus congéneres europeus.
PADEIROS
Ainda existem muitos padeiros que vendem pão porta-a-porta. Em particular nas zonas onde a concorrência entre padarias é mais agressiva, a distribuição porta-a-porta, através de carrinhas pode fazer a diferença. Em alguns pontos do País, ainda se pode observar a venda de pão feita por padeiras de canastra à cabeça.
BROA DE MILHO
A broa de milho está em vias de extinção. Para preservar a autenticidade daquele produto, os industriais de Braga têm em cima da mesa uma proposta para a criação da chamada “Confraria da Broa”. Aquele produto, que era feito em casa, corre o risco de desaparecer em virtude da facilidade com que as pessoas actualmente compram o pão nos estabelecimentos comerciais.
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