Governador do Banco de Portugal defende ser importante que os decisores políticos não percam a credibilidade das pessoas.
O governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, enalteceu esta sexta-feira que a Europa está a enfrentar "um grande sacrifício no combate à inflação", fazendo um esforço maior que noutras jurisdições para atingir a meta dos 2%.
"A Europa está a enfrentar um grande sacrifício no combate à inflação. Não é esse o caso noutras jurisdições, e temos de ser muito claros a esse respeito para que as nossas partes interessadas -- que são aqueles a quem dirigimos as nossas políticas -- nos compreendam", afirmou Mário Centeno na conferência "Desafios da transmissão da política monetária num mundo em mudança ("ChaMP")", que se realiza em Frankfurt, na Alemanha.
Para o governador do banco central português, é importante que os decisores políticos não percam a credibilidade das pessoas neste processo.
Na sua intervenção, Centeno admitiu que, antes da crise inflacionista, o Conselho do BCE chegou a rever a sua política monetária para aproximar a inflação dos 2% e que esteve disposto a "tolerar temporariamente uma inflação acima dos 2%".
"A única coisa de que não estávamos conscientes era do facto de que nos estaríamos a aproximar dos 2% por cima e não por baixo, porque era aí que estávamos presos antes de todo este processo inflacionista", afirmou o governador, remetendo para um período de oito anos com inflação muito baixa.
"Este foi um longo processo de inflação a subir. Demorou cerca de um ano desde que tivemos a inflação a ultrapassar os 2%, até atingir o seu pico, em outubro de 2022", disse Centeno, que considerou que foi um período "bastante doloroso" devido à sequência de choques na energia ou nas cadeias de abastecimento.
Quanto à atuação na zona duro, o governador português apontou que o BCE tem feito a sua parte.
"O BCE fez a sua parte. Acho que devemos estar satisfeitos com o que temos feito até agora, mas não estávamos sozinhos, e os canais de transmissão da política monetária funcionam na zona euro porque o sistema económico ajudou muito e porque as nossas políticas fiscais foram muito mais contidas que noutras jurisdições", apontou.
Nesse sentido, Mário Centeno destacou o impacto do mercado de trabalho na Europa.
"Penso, sinceramente, que a Europa está hoje a viver de um dividendo proveniente do mercado de trabalho, pela forma como se ajustou ao longo destes anos e de todas estas crises. A realidade atual é que a zona euro não está a crescer, há um ano e meio que o investimento está estagnado", lamentou.
O antigo ministro das Finanças português remeteu ainda para as previsões do BCE para o rácio entre crédito e PIB, que deverá atingir "os níveis mais baixos de que há registo na área do euro" e que a tendência não deverá alterar-se mesmo com a aproximação da inflação à meta dos 2%.
A inflação da zona euro abrandou duas décimas em março para 2,4%, enquanto a inflação subjacente - que exclui a energia e os alimentos por serem mais voláteis - também caiu duas décimas para 2,9%, de acordo com dados do gabinete de estatísticas da UE, Eurostat.
Em julho de 2022, o BCE iniciou o ciclo de subidas das taxas de juro com o objetivo de controlar a inflação. Mais de um ano depois, em outubro de 2023, fez a primeira pausa nesse rápido ciclo de subidas, mas logo avisou que um corte nos juros ainda ia demorar devido aos riscos inflacionistas.
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