Barra Cofina

Correio da Manhã

Economia
5

NOVA AMEAÇA PARA CULTURA DO ARROZ

A fileira do arroz receia que a importação ilimitada de arroz de um grupo de 48 países menos avançados, a partir de 2009, como estabelece um acordo entre a União Europeia e esses países, possa vir a estrangular a produção deste cereal em Portugal.
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
Com os preços do arroz produzido no espaço comunitário ao mesmo preço do mercado mundial já a partir de Setembro de 2004, quer os produtores, quer os industriais reconhecem que a compra de arroz a países que não integram este grupo e a sua venda como se fosse produção própria, um esquema conhecido como “comércio triangular”, assume os contornos de “uma ameaça para a Europa toda, não só para Portugal”, na análise de Pedro Monteiro, secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Arroz (ANIA).
Mesmo que a liberalização total do comércio com estes países, entre os quais se contam Angola, Iémen e Butão, Carlos Laranjeira, dirigente da Associação dos Orizicultores de Portugal (AOP), alerta que, “se não houver um entendimento entre todos (produção, indústria e distribuição), o esforço da produção vai todo por água abaixo”.
Mais optimista é António Teixeira, vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que vê na liberalização do comércio do arroz com aqueles 48 países um acréscimo de custos de transporte que injustifica o recurso maciço à importação. “Quanto mais baixo é o valor da margem de lucro, mais caro é o custo de transporte, pelo que a liberalização não tem efeitos negativos significativos na produção de arroz em Portugal”, diz.
O vice-presidente da CAP sustenta ainda esta análise com a constatação de que “apenas cerca de quatro por cento da produção mundial de arroz é que é comercializada no mercado mundial”. Mesmo assim, António Teixeira não tem dúvidas de que a redução do preço de intervenção deverá provocar já, a partir de 2004, “um ajustamento na produção de arroz em Portugal, com o abandono das áreas marginais e o aparecimento de outros terrenos”.
Para Pedro Monteiro, a produção nacional, mas também a europeia em geral, tem de ser defendida com “a garantia da origem do arroz destes países e evitar assim o comércio triangular”. A Comissão Europeia tem dito que vai fazer isto com o recurso a critérios de qualidade do arroz.
A esmagadora maioria da produção, mais de 96 por cento, é consumida nos próprios países produtores. Mas mesmo que os 48 estados abrangidos pelo acordo com a UE não produzam quantidades suficientes para satisfazer o seu consumo interno de arroz, “basta haver um aumento de dois por cento.
DISTRIBUIÇÃO ESMAGA INDÚSTRIA
Os industriais do arroz receiam que a descida do preço de intervenção para o arroz, a partir de Setembro de 2004, seja aproveitada pela grande distribuição alimentar para exigir preços mais baixos nos produtos. Com a concorrência a acentuar-se no mercado do arroz, devido à entrada de marcas espanholas e italianas em Portugal, as empresas nacionais são sujeitas, segundo uma fonte ligada ao sector, a uma “pressão esmagadora” pelos hiper e supermercados.
Só para colocarem os produtos à venda nos hiper e supermercados, as empresas pagam em média, segundo a mesma fonte, cerca de 100 mil euros. Depois, a presença do produto depende ainda da evolução positiva das suas vendas, podendo deixar de ser vendido se os resultados não forem animadores. A indústria queixa-se de que tem sido forçada a reduzir cada vez mais as margens de lucro.
RADIOGRAFIA
PRODUÇÃO
As previsões da ANIA apontam para que a produção nacional de arroz ascenda em 2003 a 156 mil toneladas, uma redução ligeira face às cerca de 162 mil toneladas obtidas em 2002. O sector conta com cerca de dois mil produtores e a área cultivada ronda os 25 mil hectares. Os vales do Sado e do Tejo representam cerca de 80 por cento da produção e o vale do Mondego o resto.
INDÚSTRIA
Os encerramentos têm marcado o sector. Se em 1990 existiam cerca de 32 empresas em laboração, em 1995 passaram a ser 22, em 1999 eram 17, e hoje são 15. A maioria concentra-se nas principais zonas de produção do País.
INVESTIGAÇÃO
O Centro Operativo e Tecnológico do Arroz - Cota Arroz foi inaugurado no passado dia 29 de Dezembro. Vocacionado para defender a fileira do sector, este organismo pretende garantir a qualidade do arroz, desenvolver novas variedades, e promover a imagem deste produto.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)