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Correio da Manhã

Economia
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Opel ameaça Azambuja

"Saímos todos lesados com esta catástrofe que nos está a acontecer.” O desabafo de Laurinda Silva, dona de uma papelaria no centro da Azambuja é o espelho do desânimo da maioria dos comerciantes.
14 de Junho de 2006 às 00:00
Com o encerramento da unidade da azambuja, as exportações vão diminuir mais de três por cento. O Comércio local também sairá prejudicado
Com o encerramento da unidade da azambuja, as exportações vão diminuir mais de três por cento. O Comércio local também sairá prejudicado FOTO: Manuel Moreira
Laurinda foi surpreendida pelo CM a desfolhar os jornais, na expectativa de acompanhar as novidades sobre o possível encerramento da Opel. A apreensão é grande: o despedimento de 1800 trabalhadores, 1200 dos quais da linha de montagem, pode agravar ainda mais as dificuldades na região.
“Estamos já a atravessar uma crise tão grande que não sei como a vamos superar a situação”, lamenta. Laurinda e a maioria dos comerciantes fazem contas à vida, uma vez que “com o fecho tudo se complicará ainda mais”.
O salário de um trabalhador da linha de montagem varia entre 900 e 1100 euros. Em caso de desemprego generalizado, a Segurança Social terá que dispender com cada um deles cerca de 650 euros mensais, ou seja, 65 por cento do rendimento base de referência. Feitas as contas, o fecho da fábrica pode custar aos cofres da Segurança Social quase 800 mil euros mês.
Na maior parte dos casos, o ordenado da fábrica é o único rendimento das famílias dos trabalhadores. Os comerciantes temem que o apertar dos cordões à bolsa se estenda também aos seus negócios. Só na Azambuja, existem 400 famílias dependentes da Opel. As zonas limítrofes, como Alenquer, Carregado, Almeirim, Vila Franca de Xira, Aveiras, Cartaxo e Santarém serão também fortemente afectados. Laurinda não evita a questão: Sem emprego, como é que vão pagar as contas? Terão que ir para outras cidades ou emigrar para Espanha.”
Gabriela Ricardo, cujo café tem as portas abertas há 17 anos, partilha os receios. “Já se nota que estamos a passar por um período complicado, com os despedimentos é certo que isto se vai agravar.” O local é visitado pelas famílias de muitos trabalhadores da Opel, um cenário que pode alterar-se a curto prazo. Gabriela sabe que depois do encerramento “os trabalhadores e as famílias vão deixar de frequentar o café”. “Muitas daquelas pessoas são aqui da vila e isto vai afectar-nos a todos.”
Sandra Azeitão é gerente de uma imobiliária há cinco anos. O negócio tem corrido bem, mas as condições agora são outras. O cenário no sector é fácil de traçar. “As pessoas que pensavam trocar de casa não o vão fazer, vão deixar de existir tantas habitações em segunda mão para venda e a procura de novos andares vai diminuir”, resume. Para dar a volta à situação, Sandra está já a pensar em “ajudar as pessoas, informando-as que a banca lhes oferece condições de resposta para diminuir a sobrecarga mensal”. Um dos poucos a sair beneficiado será Pedro Valentim, sapateiro. “Já se sente que as pessoas procuram cada vez mais a reparação de calçado”, diz. Até porque, “se o trabalho ficar bem feito têm sapatos por mais uns meses ”.
Joaquim Ramos, presidente da Câmara da Azambuja, admite que “a situação pode vir a ser prejudicial para o comércio e construção civil”. A autarquia está assim “em contacto com o centro de emprego” e tem em vigor um protocolo de atribuição de microcréditos para a instalação de pequenas empresas na região”. “É uma alternativa”, desabafa.
A ANSIEDADE NA VOZ DOS TRABALHADORES
JOºAO SILVA - TRABALHADOR HÁ 28 ANOS
“Não há palavras para descrever o que estamos a passar, a ansiedade que sentimos. A pressão é muito grande. Acho que a fábrica vai fechar, já passei por outras situações e desta vez é mesmo a sério. Tenho duas filhas, a minha mulher não trabalha e o futuro vai ser realmente muito complicado”.
JOÃO SANTOS - TRABALHADOR HÁ 16 ANOS
“Para mim está fechado, não há hipótese. Levantaram a fasquia demasiado alta para não haver hipóteses de negociação. Já vai ser muito difícil para os novos, imaginem para mim... A Azambuja não tem mais nada, para onde é que vamos trabalhar? Vou deixar de poder ajudar os meus filhos.”
SÉRGIO BRANCO - TRABALHADOR HÁ UM ANO
“Ainda há uma possibilidade de se manter aberta, ainda tenho uma réstia de esperança, mas a probabilidade de fechar é muito grande. Todos temos encargos, por isso vai ser muito complicado. Vou ter que dar a volta à situação e procurar emprego por outro lado. Ainda por cima sou casado, tenho um filho pequeno e a minha mulher não tem emprego.”
LUÍS FIGUEIREDO - COM. DE TRABALHADORES
“Quero estar optimista até à decisão final, acreditar que vai haver continuidade e que a fábrica se vai manter de portas abertas. A fábrica da Azambuja é das que mais tem produzido nos últimos meses e foi o próprio presidente da General Motors a afirmar na reuniãoque tivemos que o grupo é o que tem melhores resultados. Até termos um não vamos acreditar.”
APONTAMENTOS
EXPORTAÇÕES
Em 2004, a Opel da Azambuja totalizou em vendas para o exterior cerca de 1,3 milhões de euros. Na prática, a sua actividade representa mais de três por cento das exportações nacionais. O fecho da fábrica significa uma queda de 0,6 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
DATAS DA GREVE
Durante o dia de ontem, a Opel esteve parada cinco vezes durante os vários turnos, por períodos de uma hora. Sexta-feira é a vez da fábrica de Saragoça repetir a paralisação, em solidariedade com a Azambuja. Por cá, os trabalhadores voltam à greve nos dias 16 e 20. Para hoje está prevista a realização de mais um plenário de trabalhadores, sendo esperadas novidades sobre o futuro da empresa no final da tarde.
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