Barra Cofina

Correio da Manhã

Economia
1

OPERÁRIOS NA PRATELEIRA

A multinacional alemã de calçado Rohde aplicou o regime de ‘lay-off’ a cerca de metade dos trabalhadores que laboram nas fábricas de Santa Maria da Feira e Pinhel. De um universo de 1975 trabalhadores, 989 vão ficar forçadamente em casa entre 7 e 25 Outubro, com perda imediata dos rendimentos.
16 de Setembro de 2002 às 23:01
Depois de experiência idêntica no ano passado, a empresa alemã volta a socorrer-se deste mecanismo jurídico, não obstante ter prometido em plenário aos trabalhadores que tal jamais voltaria a ser necessário.

Em comunicado enviado quinta-feira a todos os funcionários, os responsáveis da empresa avançam que as dificuldades obrigaram a Rohde a trabalhar para stocks desde Maio de 2002, com uma produção média diária de 11.500 pares de sapatos.

A mesma fonte salienta que os trabalhadores afectados são os que se dedicam à produção de sapatos tipo ‘rolex’, calçado este que tem vindo a registar menor procura a nível internacional. Mais comunica a empresa quando afirma a necessidade do regime de ‘lay-off’ “para proteger o futuro dos postos de trabalho”.

De acordo com a Agência Lusa, a Rohde admite que “tem uma especial responsabilidade no mercado de trabalho português pelo grande volume de mão-de-obra que emprega, pelo que tem de tomar medidas que mantenham a vitalidade e interesse na manutenção do emprego em Portugal”

Quem contesta e rebate os argumentos da Rohde é o Sindicato do Calçado de Aveiro e Coimbra, que através do seu coordenador, Manuel Graça, afirma serem “ totalmente infundados” os argumentos da multinacional alemã.

Em declarações ao Correio da Manhã, o sindicalista defende que os responsáveis da empresa afirmaram que “a Rohde não tinha falta de procura pelos seus produtos. Pelo contrário, para fazer face ao volume de encomendas até tiveram necessidade de aumentar o número de trabalhadores entre 10 e 15 por cento”.

A estratégia da Rohde vai permitir uma poupança considerável nos custos, visto que os salários destes trabalhadores (70% do rendimento) serão pagos pela Segurança Social.

Empresários à ‘boleia’ do Governo

A partir de declarações recentes de diferentes quadrantes das entidades patronais, os sindicatos já não têm dúvidas de que os empresários “estão a aproveitar a boleia do Governo em matéria de revisão da legislação laboral”, afirma Manuel Graça, coordenador do Sindicato do Calçado de Aveiro e Coimbra.

O “timing escolhido pela Rohde para aplicar o regime de ‘lay-off’ não é inocente. Trata-se de uma manobra de intimidação dos trabalhadores, numa altura em que a empresa começa a preparar a estratégia salarial para o próximo ano e a revisão do acordo colectivo de trabalho, já inspirada nas alterações previsíveis da lei laboral”.

De acordo com o sindicalista, para a multinacional Rohde “as mulheres com baixas de parto e outros trabalhadores com acidentes laborais são contabilizados no grupo dos absentistas. Em Abril afirmaram ao Expresso que o número de absentistas situava-se numa média permanente de 300 funcionários. Ora, como se sabe, uma mulher em situação de licença de parto jamais pode ser contabilizada no grupo dos absentistas, pelo que, feitas as contas, este grupo não chegava aos 100 trabalhadores.
Ver comentários