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Correio da Manhã

Economia
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Prejuízos de 40 milhões no Oeste

O Mercado Abastecedor de Lisboa vai ter de recorrer à importação para conseguir dar resposta à procura de produtos hortícolas. Os principais fornecedores – os agricultores da região Oeste – já garantiram que não vão ter capacidade para produzir bens como alface e tomate em quantidade suficiente, depois de terem visto mais de metade das suas estufas destruídas pelos ventos ciclónicos ocorridos na semana passada.
28 de Dezembro de 2009 às 00:30
Pedro Martinho mostra a devastação causada pelo temporal, que destruiu todas as suas estufas de alface
Pedro Martinho mostra a devastação causada pelo temporal, que destruiu todas as suas estufas de alface FOTO: Carlos Barroso

A Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste, com sede no concelho de Torres Vedras, está a fazer um levantamento dos estragos, que espera ter concluído até quarta-feira, para fazer chegar o relatório ao Ministério da Agricultura. Mas Horácio do Carmo, vice--presidente da associação, não tem dúvidas: "Cinquenta por cento das estufas estão totalmente destruídas e não têm arranjo, e no resto 80 por cento não têm plástico."

O dirigente agrícola admite que para recuperar as estufas destruídas se "vai demorar pelo menos um ano". "A principal dificuldade reside na "falta de capacidade financeira" dos horticultores. "Mesmo que o Estado ajude até 50 por cento a fundo perdido, para reconstrução de equipamentos, como anunciou o ministro da Agricultura, faltam os restantes 50 por cento", faz notar.

Para além disso, sublinha, "os 15 milhões de euros anunciados para auxiliar os agricultores não vão chegar". Horácio do Carmo já fez as contas: "Foram destruídos 250 hectares. Se forem gastos 120 mil euros em cada um, e se juntarmos os prejuízos nas outras plantações que foram afectadas, chegaremos a um número quase o triplo do valor disponibilizado para as ajudas. Acho que 40 milhões de euros em prejuízos é um número mais próximo da realidade", sustenta.

"Os hortícolas frescos vão ficar mais caros, porque neste momento o abastecimento está comprometido. Não está em causa apenas a cultura actual, mas a estrutura produtiva para vários anos", diz.

"A PRIMEIRA COLHEITA FICOU DESTRUÍDA"

"É desmotivante. Não só o valor monetário, mas por ver tudo destruído. Perde-se a vontade de recomeçar." O desespero de Pedro Martinho, jovem horticultor de A-dos--Cunhados, Torres Vedras, é repetido por outros agricultores do Oeste. No seu caso, viu danificados 3,5 hectares de estufins (pequenas estufas) de morangos e o sistema de rega. "Toda a primeira colheita, que devia acontecer dentro de 15 dias, ficou destruída", lamenta.

Sete estufas de alface, plantadas dias antes, "não têm hipóteses de recuperação". O prejuízo total ascende a 90 mil euros, valor que demora cinco anos a recuperar.

CRIAÇÃO ESTEVE DOIS DIAS SEM COMER E BEBER

Aviários, centrais fruteiras e viveiros de plantas foram outras estruturas afectadas pelo temporal que se abateu sobre a região Oeste. Bruno Silva, proprietário de um aviário com 40 mil pintos em Campelos, Torres Vedras, estima os prejuízos sofridos no valor de 20 mil euros, entre telhados partidos e criação afectada pela falta de energia. "A criação esteve dois dias sem comer e beber e ao frio. Só quando conseguimos um gerador é que retomaram a alimentação. O stress provocado pelas condições adversas vai repercutir-se inevitavelmente na produção", relata.

O avicultor desconfia de que os apoios anunciados recentemente pelo Estado apenas cheguem aos grandes grupos económicos de distribuição. "Para nós, pequenos agricultores, é difícil aceder a esses apoios", desabafa.

PORMENORES

ZONAS MAIS AFECTADAS

Zonas mais afectadas são as freguesias de A-dos-Cunhados e de Silveira, em Torres Vedras.

TOMATE E ALFACE

A alface é a cultura mais prejudicada, mas a sementeira de tomate terá atrasos consideráveis.

EXPORTAÇÕES

Mais de 50% do tomateproduzido é exportado paraEspanha, França e Itália.

ARMAZENISTAS

Os armazenistas vão sofrer também enormes prejuízos.

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