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Correio da Manhã

Economia

REDE PORTUGUESA DO TGV DEPENDENTE DE ESPANHA

Portugal não pode errar, as opções e o desenho da rede ferroviária de alta velocidade, que se venham a decidir hoje, vão condicionar inexoravelmente o desenvolvimento de regiões e pôr em causa aspectos da soberania nacional, afectando fortemente os nossos interesses económicos".
17 de Setembro de 2002 às 20:43
O alerta vem da Associação Comercial do Porto, Câmara do Comércio e Indústria do Porto (ACP-CCIP).

A poucos dias do anúncio da decisão do ministro das Obras Públicas, Valente de Oliveira, que tudo indica inclinar-se para a solução de duas linhas de alta velocidade dedicadas em exclusivo a passageiros: Vigo/Lisboa e um "T deitado" assegurando a ligação equidistante do Porto e Lisboa a Madrid, o secretário-geral da ACP, Florentino Almeida Conde, não esconde as sérias preocupações com as consequências desta solução, que levaram aquela associação a uma posição pública: "Tenho para mim que o ministro está mal aconselhado. Reconheço, todavia, que o prof. Valente de Oliveira tem evoluído nas suas posições, pelo que é de admitir que venha a reapreciar a questão".

O veemente apelo ao ministro assume alguns contornos de embaraço, uma vez que Valente de Oliveira é um homem da "casa", tendo pertencido ao Conselho dos 24 da prestigiada instituição nortenha. Mas, como refere Florentino Almeida Conde, "estão em causa os interesses do País".

A Associação Comercial do Porto tem autoridade para emitir juízos sobre o tema. Afinal, há dez anos que acompanha de perto a questão, tendo sido fundadora da CEFAT (Conferência Internacional de Câmaras do Comércio, Indústria e Navegação do Eixo Ferroviário Transeuropeu Atlântico), que pugna por um canal ferroviário de alta velocidade que una a Corunha a Setúbal, integrada no já designado Eixo Atlântico.

Interesses de Madrid

"Dentro de dez anos, a Espanha terá 7 100 Km de rede de alta velocidade, que permitirá velocidades que oscilam entre os 220 e os 360 quilómetros por hora. Todas as ligações vão convergir em Madrid, exceptuando Vigo e Santiago de Compostela, e todas as principais cidades ficarão a menos de três horas da capital. No fundo, é uma autêntica rede de metro de superfície", afirma Florentino Almeida Conde, contrapondo com o "marasmo e indecisões de Portugal".

O nosso País “tem que ter uma visão estratégica que determine a conceptualização de uma rede de alta velocidade. Obedecer à lógica radial da rede espanhola, não viabilizando uma ligação Vigo/Madrid, via Galiza, através de território nacional e não construindo um canal directo à Europa - Aveiro/Salamanca- preparado para tráfego misto, não serve o País, é inaceitável”, considera a ACP.

"Qualquer solução em "T deitado" para passageiros, inserida na lógica radial da rede espanhola, não interessa à região de Lisboa, não interessa à região do Porto, não defende o interesse nacional", acrescenta Florentino Almeida Conde.

A ACP-CCIP entende igualmente que neste, "momento de particular pessimismo na sociedade portuguesa, urge procurar projectos mobilizadores que empenhem a capacidade criativa e que se constituam não como gastos mas como investimentos virtuosos".

Nova rede ferroviária

A ACP-CCIP defende uma nova rede ferroviária totalmente conceptualizada, por regra em plataformas de alta velocidade em bitola europeia, não só para passageiros mas também para tráfego de mercadorias nos canais que o justifiquem.

As prioridades passam pela modernização da linha Porto/Lisboa que permita a ligação das duas cidades até duas horas e meia; um canal de alta velocidade misto entre Aveiro e Valladolid que assegure a ligação Vigo/Porto/Braga/Aveiro a Madrid; e ligar a região de Lisboa a Madrid em menos de três horas, pelo percurso Vila Franca/Évora e Badajoz. A outra vertente prioritária será assegurar ligações de alta velocidade entre Vigo e Lisboa, de Faro a Huelva e, numa derradeira fase, Lisboa a Faro.

Problemas são mitos

Para muitos, o comboio de alta velocidade é ainda visto como um transporte de luxo. Florentino Almeida Conde rebate este preconceito, que designa por "um dos mitos que se criou em torno da alta velocidade ferroviária".

"O preço de viagem é cerca de 40 por cento mais barato que o de avião. Onde está o luxo?", contrapõe o responsável da ACP-CCIP.

Outro dos "mitos" desmontados pela instituição portuense são o de que Portugal não tem dinheiro e de que não existe movimento que justifique opções mais estratégicas.

"São traçados em redes transeuropeias. O percurso Sevilha/Madrid foi financiado em 80 por cento por Bruxelas. É, aliás, a própria Comunidade que está a incentivar os governos a investir, há verbas disponíveis a fundo perdido, como nos foi garantido. E há dinheiro para o novo aeroporto na Ota, que só beneficia uma região?

Por outro lado, argumentar com falta de movimento actual é sinal de estreiteza de visão. Há 15 anos avançou-se com um plano rodoviário "ousado" e hoje os itinerários principais estão quase congestionados. E se os fluxos de cada momento determinassem decisões, o próprio Fontes Pereira de Melo não tinha feito um quilómetro de estrada", lembra Florentino Almeida Conde.
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