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Correio da Manhã

Economia
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Restaurantes esmagados por hotéis

E em tempo de crise, os hotéis algarvios estão a adoptar cada vez mais o sistema de tudo incluído para tentar atrair clientes. "É a sentença de morte para centenas de restaurantes da região", alerta Júlio Arez, presidente da delegação do Algarve da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), que adianta que "se as pessoas comem nos hotéis, já não vão aos restaurantes".
5 de Março de 2012 às 01:00
No restaurante D. Barca, em Portimão, teme-se que haja menos clientes
No restaurante D. Barca, em Portimão, teme-se que haja menos clientes FOTO: Miguel Veterano

"Estamos numa fase do salve-se quem puder", refere o dirigente associativo, frisando que "os restaurantes já estão a ser castigados com aumentos brutais de IVA e de outros custos, como a luz e a água". E acrescenta que, neste Inverno, "mais de metade dos estabelecimentos de restauração do Algarve encerrou as portas, e alguns já não irão provavelmente voltar a abrir para o Verão". As quebras de receitas "cifram-se entre os 15 e os 30 por cento".

Júlio Arez diz que o impacto negativo desta nova política dos hotéis, de incluir todo o consumo no pacote oferecido aos clientes, já se começou a fazer sentir "nos últimos dois anos e irá agora acentuar-se ainda mais este ano".

Aliás, como o CM já noticiou, esta é a grande aposta de boa parte da hotelaria algarvia para o Verão deste ano, conforme foi constatado na Feira de Turismo de Lisboa, que terminou ontem. "Compreendo e respeito a opção que a hotelaria tomou, mas, a continuarmos assim, é o fim da restauração", diz Manuel Mangas, proprietário do restaurante Dockside, na marina de Portimão, adiantando que, devido à crise, "as pessoas têm cada vez menos dinheiro para gastar". O empresário lembra ainda que o sector da restauração emprega muita mão--de-obra, pelo que o desemprego pode aumentar.

Os bares também serão afectados, da-do que os clientes da hotelaria têm direito a bebidas.

"Respeito a opção dos hotéis, mas não tenho dúvidas de que o consumo nos bares vai diminuir", adianta Salvador Varela, que é sócio-gerente do Outro Bar, na Praia da Rocha. "É mais uma fatia do negócio que nos é tirada do pouco que já obra", conclui.

RECEITAS CAÍRAM 4% EM 2011

As receitas das unidades hoteleiras algarvias caíram cerca de 4% no ano passado, apesar de a taxa de ocupação até ter aumento ligeiramente em relação ao ano anterior. Hoteleiros contactados pelo CM reconhecem que a introdução do produto turístico tudo incluído reduz as margens de lucro, mas é uma forma de não perder clientes para outros destinos concorrentes do Algarve.

DISCURSO DIRECTO

"OPERADORES GANHAM", João Rosado Ass. Comércio e Serviços do Algarve

Correio da Manhã – Como é que a associação encara os pacotes de tudo incluído?

João Rosado – Estamos muito preocupados com o impacto negativo na restauração da região. É uma situação aflitiva.

– Existe o risco de encerramento de restaurantes?

– É óbvio que sim. Os únicos que ganham são os grandes operadores turísticos.

– Acha que são os operadores que impõem essa medida?

– Sim. É uma forma de aumentarem as margens de lucro. 

"AUMENTA A OCUPAÇÃO"

Correio da Manhã – Quantos hotéis já têm pacote de tudo incluído?

– Elidérico Viegas – Não há dados disponíveis, mas o número tem vindo a aumentar. Os hotéis estão a responder às solicitações da procura.

– Isso tem a ver com a crise?

– Admito que, se não houvesse uma diminuição da procura, o Algarve teria resistido mais à implementação deste modelo.

– Os lucros são menores?

– O tudo incluído estreita as margens de lucro aos hotéis, mas aumenta a ocupação.

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