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Correio da Manhã

Economia
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Só etiquetas ficam

Algumas das maiores empresas têxteis portuguesas, sobretudo as que têm marcas afirmadas nos mercados nacional e internacional, estão a deslocalizar a produção para a China, Índia e América Latina, nomeadamente Argentina e Brasil, e a ficar em Portugal apenas com a sede social, os serviços administrativos e de etiquetagem.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
O têxtil português vive dias difíceis. Não tanto devido às falências, mas sobretudo por causa da deslocalização dos sectores de produção
O têxtil português vive dias difíceis. Não tanto devido às falências, mas sobretudo por causa da deslocalização dos sectores de produção FOTO: Pedro Catarino
A denúncia é da União dos Sindicatos de Braga (USB), para quem esta é uma das principais razões do aumento “desmedido” do desemprego na região do Vale do Ave.
“Nos concelhos de Guimarães, Famalicão, Vizela e Santo Tirso, há milhares de máquinas embaladas, prontinhas para partir para unidades industriais dos países do Oriente e da América Latina”, disse ao Correio da Manhã Adão Mendes, coordenador da USB.
Diz este responsável sindical, um dos maiores conhecedores da realidade sócio-económica da região do Vale do Ave, que “as empresas estão a reduzir o quadro de pessoal ao mínimo, para passarem a produzir os seus têxteis e as suas peças de vestuário em países de mão-de-obra muito mais barata, colocando cá apenas a etiqueta da marca e o selo ‘Made in Portugal’”.
“ENGANAR O FREGUÊS”
Para Adão Mendes, esta nova moda, de colocar linhas de produção nos países do terceiro mundo e colocar cá as etiquetas e comercializar o produto como se de têxteis portugueses efectivamente se tratasse, “é uma maneira, para ser suave, de enganar o freguês”.
E as deslocalizações, ao nível da produção, estão a acontecer todos os dias. Um dos casos é, segundo a USB, o da Fiobranca, que já teve mais de 1200 trabalhadores e que se prepara para ficar com cerca de uma centena. O pólo de Mogege já fechou e agora há fortes indícios de que vai encerrar também o da Póvoa de Lanhoso, deixando 400 pessoas no desemprego.
Mas as preocupações dos sindicatos incidem também na empresa de fiação Somelos, até há pouco tempo uma das mais sólidas do Ave, e que tem embalada maquinaria de uma linha de produção completa, pronta a ser transportada para a Roménia.
A situação, em termos sociais, está a agravar-se, de dia para dia, na região do Ave e o grande problema, agora, não é o do encerramento, mas sim o do emagrecimento das empresas.
“Até agora os empresários tinham algum receio, porque uma falência tinha sempre fortes implicações pessoais e era mal vista em termos de mercado. Mas agora é simples: a empresa continua no mercado, factura praticamente a mesma coisa, os lucros são ainda maiores, só que não tem trabalhadores”, afirma, preocupado, Adão Mendes.
VIAGEM À CHINA COM PROVEITO
Quando, há exactamente um ano (a 17 de Janeiro de 2005) Adão Mendes criticou, em declarações ao CM, a visita de Jorge Sampaio à China, dizendo que ela “ia ter efeitos nefastos para o País”, o Presidente da República respondeu com dureza, sublinhando que poucos como ele têm feito tanto pela economia portuguesa. Ora, um ano depois, o coordenador da União dos Sindicatos de Braga diz que se confirmaram precisamente as piores previsões.
“Praticamente todos os empresários que acompanharam o senhor Presidente nessa viagem à China, estão a deslocalizar as suas linhas de produção. Só podemos reafirmar aquilo que na altura dissemos, que o Presidente, Jorge Sampaio, foi ensinar aos empresários o caminho das pedrinhas”. O Adão Mendes vai mais longe ao afirmar que, “dos homens da têxtil presentes na comitiva de há um ano, só dois não deslocalizaram ainda as suas linhas de produção. Os outros 20 ou 30 já seguiram esse caminho.
NOTAS
MENOS EMPREGO
Só no ano passado as empresas têxteis portuguesas passaram a empregar menos 12 mil pessoas. O sector passou, em apenas um ano, de 192 mil para 180 mil postos de trabalho.
DESEMPREGO
A taxa de desemprego em Portugal mantém a tendência de subida. O País conta nesta altura cerca de 470 mil desempregados. Desses, só 51 mil estão no distrito de Braga que, desde o ano 2000, duplicou o número de desempregados.
SALÁRIOS BAIXOS
Em Portugal um empregado têxtil não ganha muito dinheiro, mas quando comparado com um funcionário chinês, tem de dizer-se que ganha uma fortuna. Na China, o salário mínimo é de 50 euros/mês.
CRISE EM ESPANHA
Não é só em Portugal que o têxtil vive dias difíceis. Também na Espanha o sector perdeu 19 500 empregos, em 2005, dois mil dos quais na vizinha região da Galiza.
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