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Correio da Manhã

Economia
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Tomé critica volte-face do Banco de Portugal

Comissão Europeia quis "reduzir Banif a um banco das ilhas".
Diana Ramos 29 de Março de 2016 às 15:58
Jorge Tomé
Jorge Tomé FOTO: José Sena Goulão/Lusa
Jorge Tomé, que assumiu a presidência executiva do Banif até à resolução, criticou esta terça-feira na comissão de inquérito parlamentar "o volte-face do Banco de Portugal" na fase final do banco e "as contradições, avanços e recuos da Direção-Geral de Concorrência" da Comissão Europeia.

Fez também questão de explicar detalhe por detalhe a mudança de postura do regulador, que coincidiu com o período de instabilidade política em Portugal.

"O período decorrido entre 4 de outubro e 26 de novembro foi de transição política e, neste período, o BdP ganhou um protagonismo com a DGCom nunca antes percecionado" , explicou o banqueiro.

Jorge Tomé relatou também uma reunião do supervisor com Bruxelas, a 16 de novembro de 2015, que mudou o rumo dos trabalhos. "A partir dessa reunião do BdP e DGCom, sentimos objetivamente uma alteração significativa do Banco de Portugal em relação à defesa do dossiê Banif." E foi esse encontro que levou também o Banco de Portugal a ordenar a contabilização de mais perdas pelo banco. "O Banif recebe então uma carta no dia seguinte à reunião obrigando o banco a constituir um conjunto de imparidades", afirmou Tomé.

Mas foi a notícia da TVI, que dava conta do risco de insolvência do banco, que precipitou o fim, reconheceu Jorge Tomé.

"O episódio TVI dita em definitivo a resolução do banco", rematou o banqueiro. O impacto, adianta, cifrou-se em 960 milhões de euros de depósitos resgatados.

Aos deputados, Jorge Tomé explicou que o fim do Banif precipitou-se "sobretudo após o dia 16 de novembro". E garantiu que, desde o início do processo de reestruturação do banco, em 2013, a Comissão Europeia mostrou desde logo vontade de "reduzir o Banif a um banco das ilhas".

"Na segunda reunião [da comissão executiva do Banif], a troika foi muito relutante em relação à recapitalização [do banco], chegando mesmo a dizer que não havia dinheiro para capitalizar o Banif", revelou o banqueiro numa declaração inicial durante a audição na comissão de inquérito.

Jorge Tomé quis também esclarecer o Parlamento sobre "o mito dos oito planos de reestruturação" do Banif. "Dois dos três bancos recapitalizados em junho de 2012 [CGD, BCP e BPI] apresentaram nove versões do plano de reestruturação e um deles apresentou seis versões", explicou o ex-presidente executivo do banco, adiantando que "a apresentação de vários planos é normalíssima". "É uma não questão, pese embora a repercussão mediática negativa."

O banqueiro sublinhou que "todos os planos de reestruturação submetidos a Bruxelas tinham forte envolvimento do Banco de Portugal e pelo Ministério Finanças". "Os planos só seguiam para Bruxelas após aprovação de ambos", destacou Jorge Tomé, acrescentando que "o regulador não dava conselhozinhos", mas fazia antes "muitas alterações, correções e sugestões".

Jorge Tomé atribuiu ainda responsabilidades da decisão de recapitalizar o Banif, em 2012, para o Estado e Banco de Portugal.
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