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Correio da Manhã

Economia
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TRANSFORMAR A BAGA NUMA CASTA MUNDIAL

Produz vinhos cuja qualidade é reconhecida cá dentro e lá fora, tem fama de trabalhar de forma diferente (com experiência atrás de experiência) e assegurará na história recente da Bairrada uma longa entrada com o seu nome.
27 de Novembro de 2002 às 00:00
O que faltava então a Luís Pato? Um espaço capaz de traduzir o espírito que imprime aos seus vinhos – vinhos que não obstante a matriz regional resultam da aplicação das mais modernas técnicas de viticultura e enologia.

Na passada sexta-feira, e com a presença do ministro da Agricultura Sevinate Pinto, Luís Pato inaugurou novas instalações que funcionarão como adega, cave e sala de visitas para os seus convidados, num investimento global (com equipamento incluído) que rondou um milhão de euros.

Cultor da “boa tradição” e adepto da modernidade praticada noutras latitudes, a nova adega teria de se inspirar arquitectonicamente neste modelo. A pedra da fachada inferior saiu dos vinhedos (a marca histórica) e o sistema de climatização depende mais de um exercício de imaginação – relvado no telhado das caves – do que de máquinas de refrigeração (a marca moderna).

Na prática, e como frisou o produtor da Bairrada (perdão, das Beiras), “temos agora condições necessárias para receber os nossos clientes e amigos com a mesma dignidade e imagem que têm os nossos vinhos”.

Porque o vinho é a expressão de arte mais nobre da agricultura, a galeria Sacramento e Luís Pato associaram-se na promoção de uma exposição colectiva de pintura, fotografia e escultura. Intitulada o ‘Vinho é uma Arte’, a iniciativa expõe 43 obras de autores portugueses e estrangeiros. A mitologia, o universo do vinho e a imagem iconográfica dos vinhos do produtor (o pato, claro está) serviram de inspiração aos artistas.

Sessão protocolar à parte (com o ministro a abrir uma excepção em matéria de inaugurações,porque o trabalho burocrático “já cansa”), Luís Pato não perdeu muito tempo para dissertar sobre “o próximo sonho” a realizar. Nada mais nada menos do que colocar a Baga na rota mundial das castas de referência, promovendo como modelo os vinhos por si criados, claro está.

Trata-se de um desejo que não deixará de provocar sorrisos cínicos. ‘Lá está o Luís Pato com as suas grandezas’, ouvir-se-á dizer, sobretudo quando muita gente entende que outras castas (a Touriga Nacional, por exemplo) poderiam desempenhar a função embaixador do sector vitícola nacional.

Embora existam na Bairrada outros produtores exímios da casta Baga, a verdade é que a imagem positiva que esta granjeia nos mercados externos deve-se em grande medida aos vinhos de Luís Pato.

Neste sentido, e por via dos contactos que mantém com produtores de diferentes regiões vitícolas, o empresário nacional reúne as condições para desempenhar o tal papel de embaixador da casta Baga.
É que, quando bem cultivada (solos correctos, sistemas de condução acertados e controlos de produção), a casta Baga produz vinhos tintos memoráveis, com capacidade de evolução no tempo e certeiros na combinação com a comida.

Será esta uma ideia megalómana? Se calhar é, como outras que o produtor costuma ter e realizar. Uma coisa é certa, não se conhecem produtores portugueses que alguma vez tenham assumido semelhante ousadia para outras castas autóctones.

Nesta matéria, a lança e o escudo de D. Quixote na escultura de Abílio Febra (homenagem a Baco) assentam em Luís Pato que nem uma luva.
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