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Correio da Manhã

Economia
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VINDIMAS A TODO O VAPOR NO DOURO

As adegas cooperativas da região do Douro estão num autêntico reboliço. Este ano, o início das vindimas aconteceu um pouco mais cedo do que em safras anteriores por causa das condições climatéricas que se têm feito sentir, estando sempre eminente o perigo de alguma trovoada deitar por terra todo um ano de trabalho e a economia dos vitivinicultores e da região.
17 de Setembro de 2002 às 20:39
No passado fim-de-semana as cooperativas começaram a receber as colheitas das pequenas unidades de produção, tipo familiar - até um máximo de oito pipas - de molde a que, "com estas entregas testar as máquinas e preparar para as vindimas das grandes quintas, onde tudo é feito à velocidade de cruzeiro e nada pode falhar, com o risco de emperrar todo o processo".

Durante estas safras, visíveis de cada patamar de estrada do Douro, um dado ressalta imediatamente à evidência: toda a família e amigos, velhos e novos, homens, mulheres e crianças, são mobilizados para, durante todo o fim-de-semana, fazerem a vindima da família.

"É que, feito desta forma, para muitos é quase como uma brincadeira. Pagar as jeiras, dar de comer e beber, durante oito horas de trabalho, fica muito caro e não há quem queira trabalhar. Assim, feito por nós, depois, até bebemos o vinho com mais sabor, já que nos sabe ao suor do corpo", dizia um pequeno produtor da Vila da Cumieira.

Menos vinho

Para Pedro Macedo, da Cooperativa Vitivinícola da Régua, "as expectativas é que seja uma colheita com qualidade acima da média, embora em menor quantidade (menos 30 por cento) do que em anos anteriores, o que nos permite fazer o vinho generoso (Porto) que pretendemos, e os VQPRD em quantidades desejáveis. É que é preciso rentabilizar o produto que fazemos, na qualidade, para podermos competir com os bons vinhos do País".

As primeiras entregas de uvas apontam uma ligeira redução na graduação que estava prevista inicialmente, com os brancos a não subirem acima dos 11 graus e os tintos a rondarem os 13 graus.

Qualidade

Segundo o mesmo responsável, "não está fora das médias desejáveis para o tipo de vinho que queremos fazer. Só com médias equilibradas se conseguem bons vinhos, em especial o vinho do Porto que, depois de atravessar um período de falta de vinhos tão boa como era desejado, teve nos dois últimos anos boas massas vínicas e a possibilidade de apostar de novo em qualidade de alto valor".

Tendo como preocupação o facto de as adegas da região do Douro terem ainda elevados ‘stocks’ de colheitas anteriores, em especial os vinhos de mesa, em que a oferta é superior à procura e os preços têm vindo a descer significativamente, leva este produtor vinícola a pensar que "é benéfico para a lavoura que este ano e, segundo entendidos na matéria, em 2003 também descerá a quantidade, o que nos aconselha a seguir o ditado popular de ("em ano de vinho, guarda vinho"). Assim, a situação leva a procurar manter os ‘stocks’ para poder rentabilizá-los, bem, nos próximos anos".

Os factos

Hotéis cheios

Com as vindimas em movimento, as unidades hoteleiras da região estão praticamente lotadas, destacando-se as situadas em concelhos mais ribeirinhos, que até final do mês estão praticamente no limite da capacidade.

Rota do ‘Porto’

Desde o passado sábado que a Rota do Vinho do Porto promoveu um programa turístico (”Vindimas 2002”), que pretende dar a conhecer o Douro vinhateiro, onde a sua cultura, tradições e gastronomia têm papel de destaque. Na região, qualquer pessoa pode vindimar, encanteirar e pisar uvas, sendo esta última tarefa realizada ao som de músicas e cantares, à noite, em lagar tradicional.

Adegas

As adegas estão a aproveitar as vindimas das propriedades familiares para testarem as máquinas para a altura das grandes colheitas, quando nada pode falhar e tudo tem de ser feito em velocidade de cruzeiro. Até porque a feitura do vinho é uma arte que implica determinadas características dos frutos.

Castas de referência na região

As castas da região do Douro são seleccionadas e com muitos anos de garantia: nos tintos, a tinta roriz, touriga nacional ("princesa do Douro"), touriga francesa, e tinta barroca.

Nos brancos, a gouveio, viosinho, e malvasia fina são algumas das referências da Adega Cooperativa de Vila Real que tem nas freguesias de Abaças, Ermida, Guiães, Nogueira Folhadela e Mateus, como referência onde os melhores mostos são obtidos, que garantem excelente qualidade, permanência da cor e segurança no futuro.

Para se conseguir um bom vinho do Porto é necessário uma "amálgama" de castas muito grande, mesmo das minoritárias no Douro (de que o "sousão" é um exemplo), para que o produto final tenha a qualidade que os enólogos requerem como segurança para o vinho que se irá obter no futuro.

O dia de trabalho

O dia começa, na vinha, às oito horas. Indiferentes à chuva, frio ou calor, os trabalhadores (homens e mulheres) param para "matar o bicho" às dez horas.

Nessa altura é vulgar aparecerem as volumosas iscas de bacalhau, ou bacalhau frito, presunto, salpicão, chouriço na brasa, acompanhado com broa caseira, regado (logo pela manhã) com bom vinho do lavrador, geralmente da colheita anterior daquela mesma vinha.

Às 13 horas a trombeta toca a chamar para o almoço, regra geral (se a safra é familiar, como as do passado fim-de-semana) à base de assado no forno, com o cordeiro ou anho a marcar a preferência.

O final dos trabalhos está marcado para as 17 horas, depois de oito horas intensas no meio de vinhas, subindo e descendo socalcos, no meio de uma das belas obras que a natureza e a mão do homem construíram, altura em que as últimas carradas de uvas são entregues na adega.

Corte para a mulher

Nas vindimas das pequenas explorações vinícolas quase toda a gente da casa trabalha por amor à causa, excepção feita ao homem que, ao longo do dia, faz o transporte das uvas, em cestos, sacos, ou bidões de plástico, que exigem um esforço gigantesco a quem os acarreta e que, por força desse desiderato, são os mais requisitados e bem pagos nas vindimas.

Nas safras das grandes quintas, onde a mão-de-obra é toda paga, as mulheres, ou homens, que trabalhem exclusivamente no corte de uvas auferem de um salário entre os 25/30 euros, enquanto o carregador dos cestos é pago a 50/60 euros por dia, mais refeições.

A falta de pessoal disponível na região do Douro, nesta altura do ano, obriga a que as empresas recrutem todo o tipo de pessoas, por norma no litoral, sendo usual verem-se desde estudantes universitários a emigrantes de Leste nas vindimas, que aproveitam a altura para ganhar uns cobres-extras.
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