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Correio da Manhã

Economia
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Vítor Constâncio contraria Governo

O governador do Banco de Portugal (BdP) afirmou ontem que o crescimento da economia portuguesa "não será muito distante de 1,7%", o que corresponde à previsão apresentado há dias pelo relatório da Comissão Europeia e que José Sócrates desvalorizou.
1 de Maio de 2008 às 00:30
Vítor Constâncio admitiu que a previsão do Banco de Portugal será muito próxima dos valores anunciados pela União Europeia
Vítor Constâncio admitiu que a previsão do Banco de Portugal será muito próxima dos valores anunciados pela União Europeia FOTO: Andre Kosters / Lusa

Na audição que decorreu ontem na Comissão de Orçamento e Finanças, na Assembleia daRepública,Vítor Constânciosustentou que, para este ano, a previsão do BdP "não será muito distante dos 1,7% que a Comissão Europeia acabou de publicar". O governador não quis avançar já com uma previsão concreta, por considerar que "o processo está em curso", mas adiantou que será uma revisão em baixa entre os 1,3%, valor apontado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), e os 2 % previstos pelo BdP no boletim divulgado em Janeiro.

O governador comentou ainda que, apesar da consolidação orçamental, " não há margem para medidas orçamentais expansionistas", pelo que ainda não há possibilidade de desapertar o cinto. Portugal tem ainda de fazer um "esforço adicional significativo", para melhorar as suas contas públicas, referiu Constâncio, recordando que o País se comprometeuachegara 2010 com um défice de 0,5%. O responsável do BdP elogiou a consolidação orçamental de Portugal, considerando que tal "não tem paralelo", mas salienta que "a tarefa ainda não terminou" e que mais medidas terão de ser tomadas.

Confrontado com os efeitos que a crise americana terá na economia portuguesa, Vítor Constâncio afirmou que "o sistema bancário português vai enfrentar este ano mais riscos", referindo-se à possibilidade de os bancos verem os seus lucros abrandar este ano, na sequência da queda das Bolsas e desaconselhou ainda o Governo a subir a despesa pública como forma a limitar o impacto da crise.

O governador do BdP acredita que os bancos procurarão gerir a turbulência financeira internacional nos seus resultados através da redução de custos e actuando também do lado do que é cobrado aos clientes pelos serviços. "O sector financeiro será afectado durante algum tempo, mas os bancos vão tentar gerir a situação do lado dos custos e dos preços que cobram aos clientes pelos serviços que prestam", alertou. A concessão de crédito para a habitação deve continuar a desacelerar, devido à crise financeira nos mercados internacionais. Este abrandamento deverá persistir ao longo de 2008, afirmou Vítor Constâncio.

FISCALIZAÇÃO REFORÇADA DESDE 2007

O Banco de Portugal (BdP) reforçou desde 2007 a fiscalização ao sector bancário, garantiu ontem Vítor Constâncio. O governador do BdP afirmou que, a partir de 2007, "o banco intensificou a fiscalização" às instituições financeiras que operam em Portugal, em virtude do alargamento das suas competências ao nível da "supervisão comportamental" conferidas pelo Ministério das Finanças.As operações de fiscalização foram, sobretudo, no âmbito de questões ligadas ao crédito à habitação e ao consumo. Na questão da publicidade, segundo Constâncio, foram feitas "várias inspecções a balcões de bancos" e o BdP acabou por intervir em cinco campanhas publicitárias de instituições financeiras "para que elas não induzissem em erro os clientes", garantiu. O governador anunciou ainda que, nesta matéria, será "brevemente" disponibilizado para consulta pública um código de actuação dos bancos no domínio da publicidade.

RAZÕES FISCAIS JUSTIFICAM OFF-SHORES

"Num mundo ideal, os offshores não deviam existir", afirma Vítor Constâncio que salientou que, hoje em dia, "grande parte dos produtos financeiros" é emitida nesse formato por razões fiscais, um investimento que é diferente da aplicação de poupanças directamente nesses paraísos fiscais. Vítor Constâncio explicou ainda que as entidades portuguesas não têm muitas aplicações em offshores.

O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, já tinha anunciado a 18 de Abril que apenas um fundo da Segurança Social tinha 42 milhões aplicados em offshore.

SAIBA MAIS

- 2,2 por cento é a previsão de crescimento do Governo para 2008 e 2,8% para 2009. Quando Bruxelas apontou um crescimento de 1,7 %, o primeiro-ministro recusou--se a rever esta previsão.

- 2,4 É o valor do défice estrutural. A Comissão Europeia alerta para que este valor possa aumentar para 2,6 por cento do PIB devido à descida do IVA para 20%.

ZONA EURO

 A economia portuguesa está a aproximar-se do crescimento da Zona Euro, mas mantém um ritmo de expansão pouco entusiasmante, diz Constâncio.

RESULTADOS

 Três bancos já apresentaram resultados trimestrais que apontam para uma desaceleração.

 

 

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