Como a menina foi assassinada
O primeiro a bater foi João Cipriano. Joana não caiu com as duas primeiras chapadas que o tio lhe deu. Ficou ali, junto ao sofá da pequena casa da Figueira, acabada de chegar com as compras.
Quando Cipriano voltou a erguer a mão, já a menina estava junto à porta do quarto. Desta vez, Joana bateu com a cabeça na ombreira da porta à altura do puxador e deitou sangue do nariz. Apanhou mais duas chapadas, dadas pela própria mãe, Leonor. A menina voltou a bater com a cabeça, outra vez na ombreira, mais abaixo. Joana deitou sangue pela boca e sangrou do sobrolho esquerdo.
As seis pancadas mataram-na e a sucessão de golpes foi confessada pelo próprio João Cipriano aos inspectores da PJ, treze dias após o crime. O tribunal considerou-a válida: no último dia 11 de Novembro condenou João a 19 anos e dois meses de cadeia e Leonor a 20 anos e quatro meses.
A confissão do crime, a que o CM teve acesso, é breve e fria. A mãe e o tio da menina, ainda segundo o relato, conversam junto do corpo caído de Joana e acreditam que ela está morta.
João contou à PJ que estava em casa com Leonor. Ele sentado no sofá, ela de pé. Joana entrou com as compras: o pacote de leite e as duas latas de conserva. Leonor, prossegue João, pergunta à filha se tem o dinheiro que sobrou das compras. A criança responde que o perdeu ou que não sabe onde está, admite João.
Ao ouvir Joana dizer que não tinha o dinheiro, Leonor dirige-se a João e diz-lhe para dar uma chapada na menina. João confessa que se levantou e aplicou duas estaladas na menina: uma com a mão esquerda, outra com a mão direita. Joana não caiu: virou-se ao tio, disse-lhe que não tinha o direito de lhe bater.
A menina, a mãe e o tio – ainda segundo a confissão – estão agora junto à porta do quarto de Leonor. João dá mais duas chapadas na menina. A terceira e a quarta. Desta vez, Joana bate com a cabeça na ombreira da porta e sangra do nariz.
João Cipriano conta que Leonor deu mais duas chapadas à filha: a quinta e a sexta. A cabeça da criança volta a bater na ombreira da porta, agora uns centímetros mais abaixo. A menina sangra do sobreolho esquerdo e da boca.
Na altura em que a PJ fez a reconstituição do crime e obteve a confissão, João Cipriano pegou num banco da cozinha, que ali fazia as vezes da criança, e mostrou como ficou o corpo: deitado para cima, pés juntos e a cabeça virada para a porta do quarto da mãe.
João recordou que tocou no peito da menina. “Se calhar morreu”, disse à irmã. Leonor respondeu-lhe. “Se calhar desmaiou e morreu”.
Joana estava morta e havia uma poça de sangue junto ao corpo. João contou ainda que, depois de limparem a casa, ele e a irmã enfiaram o corpo da menina num saco.
Meses mais tarde confessará que o cadáver foi esquartejado e que o motivo para o crime foi um acto incestuoso: a menina descobriu a mãe e o tio a manterem relações sexuais.
Nunca contou onde estava o corpo. Tal como Leonor.
AS CINCO MARCAS NA CASA
Os vestígios, que assinalam o último dia de Joana, estão numerados de 1 a 5 e foram analisados por técnicos do Laboratório de Polícia Científica com recurso a luz ultravioleta. Dois desses indícios encontram-se no exterior da casa. São impressões palmares, ambas da mão direita da menina, um a cerca de 70 centímetros do chão, outro a 25 centímetros. No interior da residência a PJ encontrou mais três marcas: uma de cada mão e uma que se admite ser da cara da menina.
INSPECTORES RETIRAM QUEIXA CONTRA LEONOR
Os inspectores envolvidos na investigação do caso Joana desistiram da queixa por difamação que interpuseram contra Leonor Cipriano, por esta os ter acusado de agressões durante o interrogatório, disse o advogado dos polícias, António Colaço.
Na última segunda-feira, os inspectores sujeitaram-se a um processo de reconhecimento, mas nenhum foi identificado por Leonor Cipriano como sendo autor das alegadas agressões.
Segundo António Colaço informou a juíza do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) encarregue do processo, as queixas dos inspectores da Judiciária contra o semanário ‘Expresso’ e dois jornalistas, foram também retiradas.
A forma “ética” como Leonor Cipriano actuou durante o reconhecimento dos inspectores acusados foi uma das razões apontadas pela Associação Sindical dos Funcionários da Investigação Criminal (ASFIC).
“Leonor Cipriano teve um comportamento que é de enaltecer, uma vez que no reconhecimento não acusou nenhum dos inspectores , sendo que foram eles que levaram a cabo o processo que a condenou”, disse o presidente da ASFIC, Carlos Anjos.
Este responsável pôs também em causa “a forma como foi conduzida a investigação do DIAP, porque neste processo os inspectores foram sempre tratados como arguidos e não como queixosos”.
O CRIME QUE CHOCOU O PAÍS
MOTIVO
É uma dúvida que subsiste, mesmo depois do julgamento. Na reconstituição, João disse ter sido a falta do troco a originar as agressões à criança. Meses depois fala de relações incestuosas com a irmã, que Joana teria visto. Nada foi provado em tribunal.
MANEQUIM
João foi fotografado, com ferramentas na mão, a mostrar à PJ como esquartejou o corpo da sobrinha. É uma sala vazia, onde está o agressor e um manequim. João diz que usou uma serra para metal, com arco, e uma faca de cabo preto.
ESQUARTEJADO
O tio de Joana ajoelhou-se para cortar as pernas ao manequim. Uma e outra, ambas pelo joelho. Depois, contou aos inspectores que cortou a cabeça e que colocou cada uma das três partes em sacos negros, que escondeu num frigorífico.
PLANO
Ao perceberem que Joana estava morta, Leonor e João decidiram fazer tudo para não serem descobertos. Lavaram o chão e as paredes de casa para apagar os vestígios de sangue e lançaram a ideia de a menina ter sido levada.
SANGUE
A PJ encontrou vestígios de sangue nas gavetas da arca frigorífica onde Leonor e João esconderam o corpo. Não são as marcas de uma criança viva e agredida. São as marcas do corpo de uma menina de oito anos, cortado em três partes pelo tio e a mãe.
SACOS
Na noite da reconstituição, João Cipriano contou à PJ que o corpo tinha sido colocado apenas num saco. E que um dos seus irmãos o tinha levado na mala do carro e deixado nuns arbustos na zona de Porto Barreto. Mais uma pista falsa.
SENTENÇA
Três juízes e quatro jurados condenaram Leonor a 20 anos e quatro meses de prisão e João a 19 anos e dois meses pelos crimes de homicídio qualificado e ocultação de cadáver. A sentença foi lida em Portimão, no dia 11 do mês passado.
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