Mãe sob suspeita

Sónia Vale será acusada por negligência na morte. PJ aguarda os resultados da autópsia. Hipótese de crime não está afastada.

16 de maio de 2010 às 00:30
Mãe sob suspeita Foto: Nuno Fernandes Veiga
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O pequeno e frágil corpo de Maria de Fátima, de dois meses, estava gelado, deitado na cama há mais de três horas. Ao lado, a mãe chorava e garantia que a menina caíra sozinha minutos antes. Mas os sinais apontavam em contrário. Sónia, a quem já tinham sido retiradas duas filhas, contou horas depois à Judiciária uma nova versão. Afirmou que tropeçou e caiu com a bebé ao colo. Não pediu ajuda, colocou a filha na cama e chamou os bombeiros apenas por volta das 13h00.

Sónia será sempre indiciada por negligência, no entanto, a hipótese de se tratar de um crime não está afastada. A PJ aguarda agora os resultados da autópsia para perceber de que forma Maria de Fátima, que estava sozinha com a mãe em casa, morreu. 'O corpo estava gelado e a menina já tinha um aspecto de cadáver. Via-se que a bebé tinha morrido há várias horas', contou uma amiga da família.

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A mulher omitiu a forma como a filha morreu aos amigos e à própria família. Anteontem à noite, o pai da bebé ainda não conhecia a verdadeira versão da história. Às autoridades Sónia explicou as razões da mentira. Afirma que tinha medo de que as pessoas a julgassem visto a Comissão de Protecção de Menores lhe ter retirado duas meninas de um e três anos por maus tratos, mas garante que não fez mal à bebé.

As duas crianças foram retiradas à família em Outubro do ano passado. A menina mais velha apresentava várias nódoas negras nas costas e as crianças foram imediatamente levadas. Quando a CPCJ de Esposende teve conhecimento de que a mãe estava novamente grávida começou de imediato a acompanhar a família, mas desde que Maria de Fátima nasceu que não havia qualquer queixa. 'Ontem [sexta-feira] foi um dos dias mais tristes da minha vida. A família estava referenciada, mas não conseguimos ajudar a menina. Infelizmente temos de actuar segundo a lei', disse ao Correio da Manhã Jorge Cardoso, presidente da CPCJ de Esposende.

PETIÇÃO CONTRA A ADOPÇÃO

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A situação das duas menores filhas de Sónia Vale está a decorrer em tribunal. As meninas podem eventualmente ser colocadas para adopção, facto que levou a mãe, em Março deste ano, a lançar uma petição na internet. ‘Mãe Luta Contra Entrega das Filhas para Adopção’ era o nome do documento que a mulher publicou. Nela, Sónia pedia que lhe entregassem as filhas, a ela ou a um familiar. A mãe dizia ainda que tinha mudado de casa e que estava a tentar arranjar um emprego para sustentar a família.

PORMENORES

HOSPITAL

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O Hospital de Fão está situado a cerca de dois minutos da casa de Sónia. Os vizinhos não entendem por que razão a mulher não levou a criança de imediato ao local em vez de chamar os bombeiros.

ANIVERSÁRIO

Maria de Fátima completava hoje dois meses. Os vizinhos estão em choque e dizem que a mãe tem por hábito insultar as pessoas. Quando a educadora do infantário denunciou que uma das meninas tinha nódoas negras nas costas Sónia tentou bater-lhe.

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SILÊNCIO

Um dia depois doe pai da criança ter admitido que foi um acidente, hoje a família decidiu remeter-se ao silêncio. O casal esteve a maior parte do dia em casa, tendo ao final da manhã ido visitar os pais de Sónia a Esposende.

BEBÉ QUEIMADO EM ÁGUA A FERVER SOFREU DURANTE HORAS

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Em Agosto do ano passado o pequeno Filipe, de dois anos, morreu queimado numa banheira de água a ferver, em Vagos. A mãe, Luísa Proença, deixou o menino sozinho em casa com a irmã de oito anos.A criança terá colocado o bebé na banheira para lhe dar banho, foi buscar roupa ao quarto e o menino inadvertidamente abriu a torneira da água quente. Luísa chegou mais de duas horas depois, já Filipe estava em sofrimento deitado na cama, com 95% do corpo queimado. Não chamou imediatamente os bombeiros, deixou passar mais um hora e só aí pediu ajuda. 'Não matei o meu filho, não liguei para o 112 porque não tinha saldo no telemóvel', disse na altura. Filipe morreu horas depois no Hospital de Vagos.

PAI PRESO POR MATAR FILHO DE CINCO MESES À PANCADA

David, de apenas cinco meses, morreu em Abril deste ano vítima de maus tratos por parte do pai, em Alcobaça. O bebé, que tinha várias marcas de agressões no pequeno corpo, foi encontrado pelos bombeiros já morto, com vários ferimentos na cabeça e na face. O estado em que David se encontrava levou a corporação a alertar de imediato as autoridades.

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Ao CM, a mãe da criança confessou que o marido batia nela e no filho, mas que não podia contar nada, pois aquele ameaçou que a matava. 'Ele ameaçava que me matava se me queixasse. O menino às vezes tinha arranhões na cara, mas o Alcindo inventava que ele é que se tinha aleijado ou então tinha caído', contou Carla Gonçalves, mãe do menino.

VÍDEOS MOSTRAM ABUSOS

'Se os meus meninos tivessem sido violados eu tinha notado. Nada disto é verdade', afirma Cristina Ferreira, mãe dos dois meninos, de 7 e 13 anos, de Góios, Marinhas, que anteontem foram entregues pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CPCJ) de Esposende a um centro de acolhimento temporário. As autoridades suspeitam de que os dois meninos terão sido abusados sexualmente. As suspeitas recaem sobre os tios das crianças, quatro homens, com idades compreendidas entre os 30 e os 33 anos, todos emigrantes em França.

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A CPCJ de Esposende agiu rapidamente, depois de ter recebido uma queixa de que haveria vídeos num telemóvel com os dois menores, irmãos, a ser alvo de abusos e maus tratos por parte dos familiares. Anteontem, técnicos da CPCJ acompanhados pela GNR levaram os menores. Cristina lamenta-se, diz que lhe 'roubaram os meninos'.

Contactado pelo CM, o responsável da Comissão, em Esposende, disse apenas que foram seguidos 'os trâmites legais no que respeita à protecção de crianças'.

NOTAS

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2009: MAIS DE 2500 CASOS

Em 2009 a PSP e a GNR registaram 2625 casos de maus tratos, o que revela uma diminuição em relação a 2008. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima sinalizou 610 crianças

MAUS TRATOS: 16 CRIANÇAS

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Desde 2000 já morreram 16 crianças vítimas de maus tratos em Portugal. Em mais de 90% dos casos os agressores são os pais ou familiares próximos dos menores

VIOLÊNCIA: DENÚNCIA À POLÍCIA

As autoridades têm vindo a alertar as pessoas para estarem atentas a casos de maus tratos dentro da família. A denúncia é a única medida para prevenir a morte das crianças

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