“Morte foi encomenda da ex-mulher por vingança"

Família de João Lobato, em Ponte de Sor, acredita que a pensão de alimentos da filha está na origem do crime.

15 de março de 2010 às 00:30
“Morte foi encomenda da ex-mulher por vingança" Foto: direitos reservados
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'Levem tudo o que quiserem', foram as últimas palavras de João Lobato, agricultor português que foi surpreendido por dois homens armados, com cara tapada, à chegada à sua casa em Aruanã, estado de Goiás, Brasil. Não queriam roubar nada – e, antes de o executarem com dois tiros de pistola, deram um recado que a vítima terá compreendido: 'Você é que perdeu'. A actual namorada, brasileira, assistiu a tudo.

Para a família, em Ponte de Sor, não restam grandes dúvidas sobre os motivos do homicídio, na noite da última terça-feira: o empresário foi alvo de 'vingança da ex-companheira' e mãe da única filha, Nicole, de apenas três anos. Uma suspeita que está também a ser investigada pela polícia brasileira, que não descarta a hipótese de crime encomendado. 'Foi a única pessoa que recentemente o ameaçou de morte depois de ter visto reduzida em tribunal a pensão de alimentos. Pelo que sabemos, o João não tinha dívidas, nem credores, e muito menos inimigos', referiu ontem ao CM José Carlos Lobato, um dos primos mais chegados da vítima, que possui também uma casa em Aruanã, no estado de Goiás (ver caixa).

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Por conhecer a fortuna do ex--companheiro, a brasileira Sílvia, advogada de profissão, tal como o seu pai, pretendia em tribunal uma pensão de alimentos mensal de dez mil reais (cerca de 4000 de euros). Mas, em Setembro de 2009, viu o juiz negar-lhe o pedido. A decisão foi uma pensão de 500 reais, pouco mais de 200 euros. Furiosa, à saída do tribunal, Sílvia insultou e ameaçou de morte João Lobato.

'Face as estes indícios todos nós depreendemos que esta situação foi o concretizar de uma morte anunciada, executada por profissionais', frisou ao CM José Carlos. O primo, João, de 42 anos e dono de várias propriedades agrícolas na zona de Ponte de Sor, preparava o seu casamento com a jovem brasileira Ana Maria Brito, de 22 anos, marcado para o final deste mês.

No dia da sua morte esteve a beber uma caipirinha com o pai do seu primo num hotel de Aruanã e foi jantar com a namorada a casa da futura sogra.

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Quando regressava à sua residência, por volta das 22h00, depois de um tranquilo passeio pela cidade, mal sabia que dois homens já estavam escondidos na cozinha da habitação, situada num condomínio de luxo com segurança privada. Quando subia as escadas da moradia em direcção aos quartos foi surpreendido pelos dois homens encapuzados. E pouco depois estava estendido no chão com dois tiros. A namorada, que assistiu a tudo, ficou em estado de choque.

Os dois homicidas saíram depois do prédio e fugiram numa moto, sem levar qualquer bem da residência do português. A polícia brasileira continua a investigar o crime para apurar a identidade dos dois assassinos. Os inspectores já ouviram a namorada da vítima e aguardam autópsia ao corpo de João Lobato, realizada no Instituto de Medicina Legal de Goiás.

PORMENORES

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Profissionais

A família de João Lobato acredita que o homicídio foi planeado durante meses e executado por dois profissionais. No Brasil há quem diga que este tipo de crime é realizado pelos próprios homens da polícia ou militares.

Silenciador

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No condomínio de luxo ninguém se apercebeu do homicídio do português: os assassinos usaram silenciador na pistola. A polícia investiga se os homens entraram na casa da vítima com ajuda de algum colaborador do condomínio.

Dois tiros

Um dos tiros atingiu o português na garganta. O outro foi disparado contra o peito. Ambos os disparos foram efectuados por um bandido. O outro estava no local apenas para proteger o atirador.

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Prova

Uma camisola é a única prova física da presença dos criminosos na casa de João Lobato. Foi encontrada pela polícia em cima do arame fardado do condomínio. Terá sido usada para evitar cortes no arame.

Funeral

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O corpo de João Lobato é esperado na madrugada de amanhã. Será velado no mesmo dia em Ponte de Sor e cremado em Lisboa.

IAM CASAR ESTE MÊS

João Carlos Lobato namorava com Ana Maria Brito há cerca de dois anos. Depois de uma viagem a Portugal, no passado mês de Dezembro, decidiram dar o nó. A festa estava marcada para o final deste mês, mas ninguém da família chegou a conhecer os detalhes do casamento. 'Não sei se a festa era no Brasil ou cá. Eles estavam felizes', disse ao CM o primo José Carlos.

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SAIBA MAIS

Aruanã

Cidade turística, Aruanã fica localizada no Estado de Goiás, no interior do Brasil. É também conhecida por ‘Porteira do Araguaia’, rio que passa junto à localidade.

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20 000

é o número de habitantes da cidade de Aruanã. Este número quase que triplica na época turística.

324

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é o número de quilómetros que separa a localidade de Aruanã com a capital do estado, a cidade de Goiás.

'ARUANÃ É UMA CIDADE MUITO SOSSEGADA'

Com negócios na área dos produtos agro-alimentares, há muitos anos que a família Lobato, uma das mais afortunadas de Ponte de Sor, investe no Brasil. O pai de José Carlos, primo da vítima, viajou para este país sul-americano em 1974, logo após o 25 de Abril. E por lá ficou, encantado com as praias fluviais a perder de vista, com areias brancas e finas. Este foi também o motivo que levou João Carlos Baptista Lobato a comprar uma moradia na cidade de Aruanã.

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' Fui eu que o levei pela primeira vez ao Brasil. Ele gostou tanto que comprou a casa e passou a partilhar a sua vida entre o Brasil e Portugal. Depois conheceu a Sílvia e, há dois anos, a Ana Maria', recorda ao CM o primo da vítima, José Carlos.

Conhecedor da realidade da cidade brasileira, este familiar acredita que o crime foi um acto isolado. 'É uma zona muito tranquila. A cidade sempre foi muito sossegada e por lá não se ouve falar deste tipo de criminalidade violenta', disse.

Depois deste acontecimento, José Carlos espera que seja aumentada a vigilância nos condomínios.

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'O que aconteceu ao meu primo foi uma encomenda. Podia ter sido morto na casa do lado, na rua, em Portugal ou no avião. O que falta apurar é como é que eles se infiltraram dentro do condomínio', referiu o empresário de produtos agro-alimentares.

Apesar do crime que vitimou o primo, José diz que quando regressar ao Brasil não vai sentir qualquer receio de andar pelas ruas daquela cidade. 'Temos de ter sempre algum cuidado, como também o temos em Portugal ou em qualquer parte. Mas não tenho medo dos assaltos. Aruanã chega a ter milhares de turistas quando o rio baixa e não há grandes índices de criminalidade', acrescentou.

PERMANECIA EM PORTUGAL POR PERÍODOS DE TRÊS MESES

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Apesar das longas ausências no Brasil, João Lobato mantinha firme as suas relações com as gentes da sua terra natal, em Ponte de Sor, distrito de Portalegre. 'É um homem muito estimado, boa pessoa e amigo do seu amigo. Não era de causar problemas nem tinha inimigos', disse ao CM um familiar.

Recatado, João dividia as suas estadias entre o Brasil e Portugal por períodos de três meses. Em Ponte de Sor residia numa vivenda na rua D. João VI, situada numa zona nobre desta cidade alentejana.

'Desde que faleceu o pai vinha cá mais vezes ver a família', disse ontem ao CM uma vizinha da vítima, que preferiu ficar sob anonimato. Quando estava em Portugal, João cuidava das suas terras e visitava a mãe e a irmã, em Lisboa. A última vez que esteve em Ponte de Sor foi no final do ano passado. Levou a namorada brasileira. Embarcou a 26 de Dezembro e tinha regresso previsto para esta semana.

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NOTAS

POLÍCIA: INVESTIGAÇÃO

A investigação do homicídio do agricultor português está entregue à Delegacia de Polícia de Aruanã. Ao que o CM apurou, Paulo Ribeiro da Silva é o delegado que conduz o processo

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BRASIL: 48 MIL HOMICÍDIOS

Segundo os dados estatísticos de 2008, no Brasil foram assassinados nesse ano cerca de 48 mil pessoas. A maioria está relacionada com assaltos violentos e casos passionais

ARUANÃ: SEGURANÇA

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Um homem que trabalhava para a vítima disse a um site brasileiro que este foi um caso isolado. 'Praticamente dormimos com as portas abertas, pois a segurança é muito boa', disse

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